Sáb. Nov 27th, 2021
Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)

Carlos Costa Gomes*

A solidão e angústia de quem se confronta com a morte provocada pelo Coronavírus é um drama trágico e eticamente desumano. É igualmente desumano e eticamente censurável morrer sozinho por outra causa de morte, muitas vezes separado por cortinas dos companheiros de enfermaria, sem consolo nem presença de quem mais se gosta. Se é verdade que antes do COVID-19 o morrer sozinho já acontecia, é também verdade que o Coronavírus veio agravar esta realidade.

Porém e felizmente, muitos profissionais e unidades de saúde promovem a emenda de erros no acompanhamento no processo de morrer e abrem, desta forma, a possibilidade da ressocialização da morte e serviços que ajudam, em muito, a respeitar a dignidade da pessoa doente que enfrenta a mais radical experiência da sua vida: a morte.

Morrer no hospital, como referimos, em muitos casos, é morrer sozinho e longe da família, atualmente por imposição de ordem sanitária, falecer num hospital (ou num lar no caso de um idoso) é condição primária para morrer isolado e longe da humanização eticamente procurada pelos profissionais de saúde no processo de morrer.

Morre-se sem o olhar e o toque dos entes queridos. Morre-se sem o aperto de mão dos filhos ou dos pais. Morre-se sem o beijo dos netos ou dos filhos. Morre-se sem o abraço da esposa ou do marido, do companheiro ou da companheira. Morre-se numa humanidade desumana. Quando muito, que é muito, morre-se com o toque das luvas plásticas e do olhar plastificado pela viseira ou dos óculos dos profissionais de saúde.

As cerimónias fúnebres reduzidas a uma dezena de presenças, onde o conforto e o consolo dos amigos é nulo; onde o corpo nu da pessoa que morre é envolto em dois sacos plásticos na urna fechada, que não permite o último e derradeiro adeus… Tudo muito rápido e sem que a abraço possa abraçar os braços vazios de abraços.

A angústia e a solidão, a dor e o sofrimento de quem morre nesta condição e o sofrimento e a angústia de quem impotentemente assiste à partida de quem faz a última e a mais radical viagem sem poder olhar, tocar e abraçar. A morte é o corte mais brutal que desune as pessoas; por isso é ainda mais desumano quando se morre sem o relacionamento que as une.

Pouco sabemos sobre este vírus, mas todos sabemos que a morte como a última experiência da vida é também aquela que mais apela à nossa humanidade. Sabemos de igual modo que a morte, nestas circunstâncias, não pode ficar reduzida à coisificação de um corpo embrulhado num saco plástico. Antes de tudo isto acontecer, é possível acolher a “virtude da companhia” e que dulcifique a sensibilidade ética da proximidade.

É necessário (re)encontrar uma ética de proximidade que ajude a humanizar o processo de morrer de quem morre por esta doença, não só pelo os que partem mas também para o luto dos que ficam.

 

*Presidente do Centro de Estudos de Bioética
Professor e investigador do Instituto de Bioética da UCP | Membro da Academia ‘Fides et Ratio’
Imagem de Stefano Ferrario por Pixabay