Sáb. Nov 27th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

Na sua aproximação antropológica à Sagrada Escritura, Edith Stein descobre em Cristo um ponto focal para a compreensão do homem e da humanidade. Embora descubramos implicitamente no seu discurso ressonâncias neo-testamentárias, nem sempre é fácil identificar lugares concretos para os quais se dirige o seu olhar. Por isso, agora o nosso discurso não será antropologicamente completo. Evidenciaremos simplesmente os momentos nos quais Edith relaciona as suas conclusões em referência directa à Escritura.

Dom de Deus e liberdade do homem

«Mas porque Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós»38. Com estas palavras de profunda ressonância agostiniana, Edith pretende sublinhar uma das mensagens contidas no mistério da Encarnação e Redenção. Deus faz-se homem para curar o homem39. Este acontecimento salvador de Deus está profundamente relacionado com a liberdade humana, tanto antes como depois da presença histórica de Cristo.

Para Edith Stein há que salvaguardar sempre, juntamente com a gratuidade do dom de Deus, a liberdade do homem: dois aspectos que são fundamentais no diálogo Deus e homem e que se significam como cooperação. «Esta cooperação manifestou-se no Antigo Testamento pela espera cheia de fé do Messias prometido, pela atenção prestada à descendência em razão desta promessa e na preparação dos caminhos do Senhor pela observância fiel dos seus mandamentos e o fervor desenvolvido no seu serviço»40. Com estas palavras, Edith aproxima-nos a um novo modo de entender a partir da História da Salvação anterior a Cristo, o significado da liberdade do homem em vistas da Redenção. O mesmo se poderá aplicar à tensão escatológica pela instauração definitiva do Reino de Deus.

Outro elemento que Edith extrai da sua aproximação ao Antigo Testamento é o sentido da presença redentora de Cristo no meio da história: apresenta-se como filho do pecado para libertar o homem do pecado. As próprias genealogias reportadas pelos evangelistas (Mt 1, 1 ss e Lc 3, 23 ss) teriam esse mesmo objectivo:

«Cristo veio ao mundo para arrancar os pecadores do domínio do pecado e restabelecer a imagem de Deus nas almas profanadas. Veio ao mundo como Filho do pecado – mostra-o a sua genealogia e toda a história do Antigo Testamento –, e buscou a companhia dos pecadores para tomar sobre si todo o pecado do mundo e levá-lo consigo no madeiro ignominioso da Cruz que, desse modo, se converteu no sinal da sua vitória»41.

Na compreensão cristológica steiniana há uma palavra chave que contém em si o significado de Cristo para a vida do homem42: Ele é o caminho. Esta afirmação, que encontramos principalmente explícita no Evangelho de São João43, contém em si a importância de Cristo para a vida da humanidade, para que esta alcance a sua plenitude na união com Deus: a união das duas naturezas em Cristo é o fundamento necessárioé o mediador entre Deus e os homens, o caminho fora do qual ninguém pode ir ao Pai44.

Para explicar estas afirmações em função do que significa a redenção e a justificação, Edith recorrerá aos textos paulinos (muitos dos quais aparecem constantemente citados pelo magistério da Igreja) onde melhor se reflecte o sentido teológico da «novidade» realizada em Cristo, como o Novo Adão em posição ao primeiro Adão.

O homem velho, consequência do pecado de Adão, é o que perdeu a inocência original (Rm 5, 12. 18; 1 Co 15, 22), e se converteu em escravo do pecado (Rm 6, 20). O homem novo, regenerado em Cristo, é justificado: são-lhe perdoados os seus pecados e, além disso, é santificado e renovado no sue interior (Tt 3, 7)45, graças ao dom do Espírito infundido no coração do homem (cf. 1 Co 12, 11; Rm 5, 5-6)46.

Edith quer concluir algo mais, e pergunta-se sobre como entender essa justificação e esse dom da misericórdia de Deus de que tanto nos fala Paulo nas suas cartas. Não basta que seja um dom ou graça de Cristo. É necessário que o homem se prepare e receba com livre consentimento esta graça ou acção de Deus. Uma preparação que implica aceitação na fé da pregação (Rm 10, 17), principalmente da verdade de se saber justificados só em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus (Rm 3, 24). Se o pecador aceita este dom da redenção, «Cristo não pode somente, por um chamamento de graça, despertar-nos e livrar-nos do peso do pecado, mas pode também tornar-nos justos, isto é, santos; encher-nos da vida divina e conduzir-nos ao Pai celeste como seus próprios filhos. Tornamo-nos, então, pela justificação, filhos de Deus, tal como os homens o eram antes da queda»47.

Esta obra da graça, o fim da redenção, realizou-se também num par, que, mesmo na sua novidade, se constituem no autêntico modelo da humanidade perfeita. Na sequela da denominação paulina de Cristo como o Novo Adão, Edith acrescenta o de Maria como a Nova Eva. Os dois retomam o papel dos «primeiros pais», constituindo-se, pela sua perfeição livre de todo o pecado, nos autênticos «pais» da humanidade:

«Mas o olhar do juiz divino percebia ao lado do primeiro par humano e de todos aqueles que ela representava um segundo par que não foi tocado pela sua condenação: o novo Adão e a nova Eva, Cristo e Maria. Ele escutou o seu Fiat voluntas tua – Fiat mihi secundum verbum tuum! Cristo e Maria são os verdadeiros primeiros pais, os verdadeiros arquétipos da humanidade unida a Deus. É Cristo e não Adão quem é o primeiro nascido de Deus e a cabeça da humanidade…»49.

 

A teologia paulina do Corpo de Cristo

 

O conceito ou a imagem de Cristo como Cabeça e a conseguinte imagem do seu Corpo Místico é precisamente outro dos temas bíblicos paulinos que descobrimos muito presentes no pensamento de Edith Stein. Para ela é um tema central que define o «novo estado» dos filhos de Deus redimidos em Cristo: convertem-se em membros do seu Corpo. Por outro lado, é uma das imagens bíblicas recuperadas na compreensão da Igreja a partir do Concílio Vaticano II.

O que dá realmente sentido teológico à ideia do Corpo é a centralidade de Cristo enquanto Cabeça (cf. 1 Co 12, 12; Cl 1, 24; Ef 1, 22-23; 5, 23). Edith não se limita a entendê-la em paralelo com a Igreja, mas amplia o seu significado a toda a humanidade. Fazendo-se eco da afirmação paulina de que em Cristo residia toda a plenitude (cf. Cl 1, 19; 2, 9), afirma:

«A essência específica de toda a humanidade encontrava-se n’Ele plenamente realizada, e não só em parte com nos outros homens. Da sua plenitude recebemos tudo; não somente “graça sobre graça” (Jo 1, 16), mas também já a nossa natureza a fim de que imitemos, cada um com o seu modo de ser particular, o arquétipo, do mesmo modo que cada membro de uma mesma unidade  de forma viva concretiza ao sue modo a essência do todo e que todos os membros reunidos constituem o todo. Eis a figura do Salvador tal como os Evangelhos a traçaram sem artifícios; está cheia de mistérios e é inesgotável. Cristo é inteiramente homem e, por esta razão, não é idêntico a nenhum outro homem»50.

Este olhar amplo sobre o sentido do Corpo de Cristo implica que «essa humanidade», mesmo quando alcança o seu pleno sentido como humanidade redimida, não pode fechar-se em sentido absoluto apenas à comunidade cristã: «não há nada humano – fora do pecado – que não tenha pertencido à unidade de vida deste corpo… Pois bem, a vida da graça derrama-se nos membros, porque estão já por natureza unidos á cabeça e são capazes, enquanto essências espirituais e em virtude da sua livre receptividade, de acolher neles a mesma vida divina… Toda a humanidade é a humanidade de Cristo…»51.

Estas afirmações steinianas, em cujas consequências agora penetramos, têm um enorme peso na hora de descobrir o mistério da unidade de toda a família humana. É evidente que ela não esquece outras concepções do significado dado ao Corpo de Cristo: como a que se limita à Igreja ou a que pretende incluir a todas as criaturas espirituais, como os anjos, fundamentando-se em Ef 1, 2052. Mas,

«Sem desprezar este sentido amplo que se justifica, pode e deve-se, no entanto, falar da humanidade enquanto corpo místico de Cristo sem sentido estrito. Efectivamente, a humanidade é a porta pela qual o Verbo de Deus entrou na criação, a natureza humana recebeu-o e unicamente com os homens e não com a natureza inferior nem com os anjos foi como se uniu na unidade do conjunto original. E enquanto cabeça da humanidade que une em si o superior e o inferior, Cristo é a cabeça da Criação inteira»53.

Na mesma linha, Edith aproxima-se do texto de Ef 3, 15: «de quem toma nome toda a família no céu e na terra». Toda a humanidade forma uma única família, de tal modo que o homem aparece como um ser social por natureza e vocação54. Todos os homens são filhos de Deus desde o seu nascimento. A vida do homem consistirá em deixar que se torne efectiva nele esta condição.

Caminho de Cristo – caminho da humanidade

 

«O caminho da raça humana parte de Cristo para chegar a Cristo»55. Esta afirmação steiniana coloca-nos na dinâmica da importância de Cristo para a compreensão antropológica da Bíblia. Edith relaciona directamente o «façamos o ser humano à nossa imagem, como semelhança nossa» (Gn 1, 26), com o prólogo de São João: «tudo se fez pelo Verbo» (Jo 1, 3) e o texto paulino de Cl 1, 15-17: «Ele é imagem de Deus invisível, Primogénito de toda a criatura, porque n’Ele foram criadas todas as coisas… tudo foi criado por Ele e para Ele…». As consequências de ler estes textos juntos parecem evidentes: Cristo é a origem, a meta, o caminho e o modelo para alcançar a plenitude56. E a Cristo adere a pessoa na medida em que entra a viver na união do seu Corpo57.

Desde aí, Edith Stein poderá a firmar com toda a sua força a importância de se configurar com a vida evangélica de Cristo e com os mistérios que marcam os traços essenciais da sua aparição na história. Resume assim a trajectória de Cristo, modelo e caminho da trajectória que a humanidade inteira deve seguir na sua conquista da plenitude:

«As orações e os gestos da celebração litúrgica representam-nos continuamente… a história da Salvação, e ajudam-nos a entrar cada vez mais no seu sentido. E o próprio Sacrifício vai imprimindo em nós o mistério central da nossa fé, ponto cardeal da História da Salvação, o mistério da Encarnação e da Redenção…

Os mistérios do cristianismo formam um conjunto indivisível. Se mergulhamos num deles, somos conduzidos também a todos os outros. Assim, o caminho de Belém conduz forçosamente ao Gólgota, e o presépio à Cruz… Quando a Virgem levou o Menino ao Templo foi-lhe profetizado que uma espada haveria de trespassar o seu coração (Lc 2, 35), que aquele Menino seria ocasião de queda e de ressurreição para muitos, um sinal de contradição (Lc 2, 34). É o anúncio do sofrimento, da luta entre a Luz e as trevas, que já se tinha manifestado no presépio de Belém.

(…) Da luz que resplandece do presépio projecta-se a sombra da Cruz. A Luz extingue-se nas trevas de Sexta-Feira Santa, mas ilumina como sol na manhã da Ressurreição. Através da paixão e da cruz à glória da ressurreição: é o caminho do Filho de Deus feito carne. Com o Filho do homem, através do sofrimento e da morte, à glória da Ressurreição. É o caminho de cada um de nós, o caminho de toda a humanidade»58.


38 Ib. 541.

39 Cf. EPH 18.

40 SFSE 541.

41 A elevação da Cruz, em Obras 239.

42 Estudei os elementos que configuram a cristologia de Edite Stein nos meus dois livros anteriormente citados. Remeto a eles para um maior aprofundamento do tema.

43 Cf. Jo 14, 6.

44 SFSE 534-535.

45 Ib. 535.

46 Ib. 536.

47 Ib. 537-538 (o negrito é meu).

49 SFSE 533.

50 SFSE 539.

51 Ib. 538.

52 Cf. Ib. 542. Uma visão mais pormenorizada da eclesiologia de Edite Stein, pode ver-se no meu livro Uma espiritualidade para hoje segundo Edite Stein, 169 ss.

53 SFSE 542.

54 Mensch 22. A Bíblia de Jerusalém anotando este texto de Ef 3, 15, indica: «O termo grego traduzido aqui por família, designa o grupo social que deve a sua existência e unidade a um mesmo antepassado. Pois bem, a origem de todo o agrupamento humano ou angélico remonta a Deus, Pai supremo».

55 SFSE 539.

56 Cf. SFSE 124-130. 257. 369.

57 Cf. EPH 18.

58 O mistério do Natal, em Obras 390-391.

Imagem de Capri23auto por Pixabay