Dom. Set 19th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

Vamos acompanhar Edith Stein na conferência que proferiu a 5 de Janeiro de 1933 por ocasião de um curso do Instituto alemão para a pedagogia científica, que pretendia assinalar os princípios gerais de uma pedagogia católica. O tema do curso era: “Die Katolische Pädagogik in ihren Grundlagen und in ihrer Bedeutung, A pedagogia católica e os seus fundamentos e significado”.
Dez dias depois da conferência escreverá a uma amiga e faz a avaliação crítica da sua intervenção como conferencista: “Visto desde fora, considero que foi um êxito e estou muito agradecida a todos os que ajudaram com a sua oração. Qual seja o efeito que produzirá a seu tempo, é algo que escapa ao nosso conhecimento. Foram dias esgotantes que claramente me manifestam a grande responsabilidade que é a tarefa que temos” (Ct 343). 
O texto que apresentamos baseia-se no texto autógrafo e nas mencionadas publicações alemãs. O texto está dividido em quatro subtemas e a introdução: Significado da fé e das verdades da fé para a ideia e o trabalho da formação; I –A conceção católica da natureza humana; II – O Fim do Homem; III – Os chamados a serem formadores da juventude; IV – O processo de formação da juventude.

Introdução

Significado da fé e das verdades da fé para a ideia e o trabalho da formação

Para o homem com mentalidade naturalista, a realidade é aquilo que percebe com os seus sentidos e que em base à percepção sensorial reconhece com a razão. A formação da juventude é para ele é um trabalho que, tendo por base o conhecimento natural, deve ser realizado com meios naturais. Para o homem crente, o mundo é um mundo de Deus; tudo o que existe foi criado por Deus; tudo o que sucede sucede segundo o plano de Deus, ou pelo menos está previsto por Deus e inserido no seu plano. O que os homens realizam fazem-no como causa segunda[1], sabendo-o ou não, querendo-o ou não, como instrumentos da providência divina. Visto nesta perspectiva, a formação da juventude é também principalmente e em primeiro lugar obra de Deus: formação e direcção do homem criado por Deus até à meta que Deus lhe destinou. Os homens estão chamados a colaborar neste trabalho como causa segunda: o próprio ser humano que há-de ser formado e outros a quem a sua formação foi confiada. Mas os homens não têm que cumprir a sua obra como instrumentos cegos e sem vontade. Foram-lhe dadas a inteligência e a vontade para que, no possível, se informem sobre o que têm que fazer e como o devem fazer.

A fé católica não é apenas convencimento na existência de um Criador, Conservador e Governador do mundo, mas é fé numa palavra revelada que nos faz entender o que estamos chamados a fazer neste mundo. Com isto não se deve entender que se tenha de excluir qualquer processo cognoscitivo puramente natural. Porém, não é a única via, é necessário a verdade da fé como parâmetro de medida e de complemento. Quem quiser construir um sistema católico de formação deve ter em conta aquilo que a verdade revelada aporta. Quem tenha que empreender um trabalho prático de formação, não o poderá fazer sem a ajuda da verdade divina.

Neste horizonte surge-nos a pergunta: em que fontes encontraremos esta verdade? Temos a sorte de ter agora à disposição uma orientação concisa, que resume brevemente o que tem a dizer a doutrina católica da fé sobre a questão da formação da juventude: esta orientação é a encíclica do Santo Padre sobre a educação cristã da juventude[2]. Esta é fundamental para nós, sobretudo pelo seu conteúdo. Uma encíclica pontifícia não é um dogma definido, não é uma verdade de fé vinculante, mas é, juntamente com os dogmas definidos ex-cathedra, algo que reivindica o maior direito a ser aceite e posta em prática pelos fiéis, porque nela fala-nos o sumo representante de Cristo e administrador do magistério divino da Igreja. Além disso, a encíclica tem um grande significado para nós porque nos indica as fontes nas quais ela mesma tem o seu fundamento. Estas indicam-nos o caminho a seguir para aprofundar o nosso conhecimento sobre o que lá aparece exposto de forma abreviada.

Estas fontes são, por um lado, as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, por outro lado, as deliberações vinculantes da Igreja (na encíclica sobre a educação não se cita nenhum dogma em sentido próprio, mas frequentemente disposições do Código de Direito Canónico: mas, naturalmente, os dogmas definidos são a fonte principal – por exemplo, a encíclica sobre o matrimónio, usa abundantemente o Catecismo Romano e as decisões Conciliares, as obras dos Padres e Doutores da Igreja e também de escritores eclesiásticos modernos. A encíclica também se refere, de vez em quando, a afirmações de autores estranhos, incluso pagãos. Eis aqui o reconhecimento dum trabalho cognoscitivo de tipo natural em questões educativas. Mas a sua avaliação critica fundamenta-se no princípio: “examinai todas as coisas e ficai com o melhor”[3]. “O Espírito sopra onde quer”[4]; e quem está seguro na sua fé, e em virtude da responsabilidade que lhe é confiada na formação, pode ter a certeza de que será guiado pelo Espírito Santo, pode também ter a certeza de que pode discernir os espíritos, quer dizer, naquilo que não lhe é mandado pela autoridade, pode conseguir conhecer o que concorda ou não com a fé.

Deste modo conseguimos um critério para o nosso proceder. Vamos deixar-nos conduzir pela própria Encíclica, mas vamos também recorrer às fontes onde ela se fundamenta, para obter ulteriores aclarações. Aqui não poderemos dar mais que um impulso no sentido de quem quiser aprofundar e levar à prática, posteriormente, no seu trabalho teórico ou prático, no âmbito da formação, o faça.

[1] Deus é causa primeira, as causas intramundanas são consideradas causas segundas.

[2] Divini illius Magistri, Enciclica de Pio XI.

[3] Cf. 1Tes 5,21.

[4] Cf. Jo 3, 8.

 

* Edith Stein, La Formación de la Juventud a la Luz de la fé Católica, Obras Completas IV, Escritos Antropológicos y pedagógicos. Coeditores: Espiritualidad – Monte Carmelo – El Carmen, 2003. Pp 422-425.
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