‘Um olhar sobre o ecumenismo’ é uma parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga
Pe. Rui Barnabé*
Foi-me pedida uma partilha acerca da relação entre as diversas tradições cristãs no contexto em que me encontro, a saber, Diocese e cidade de Mainz – Alemanha.
Para facilitar o testemunho, parece-me útil definir os vários campos que me surgem como mais relevantes: ação social e intervenção política; cultura; pastoral e, finalmente, mas não menos importante, Teologia. As linhas que se seguem não são resultado de outra reflexão que não apenas aquela que foi necessária para sistematizar o quotidiano em que me encontro. Além disso, a experiência de relação ecuménica em que me apoio, privilegia a Tradição Luterana, na expressão da chamada Igreja Evangélica, por ser esta a Igreja que, a par da Igreja Católica, surge como religião maioritária na Alemanha, embora não exclua outra tradições uma vez que, de resto, na cidade em que vivo, são mais de 20 as expressões religiosas cristãs disponíveis.
Do ponto de vista social e de intervenção política são inúmeros os exemplos em que a Igrejas Católica e Evangélica colaboram, mormente em discussões que envolvem a defesa da dignidade das pessoas, bem como o combate a todas as expressões de descriminação ou xenofobia. Ainda neste campo, é habitual que os projetos de intervenção social sejam partilhados entre a Caritas e a Diaconia (a sua congénere evangélica). Também no campo paroquial se nota esta tendência de trabalho em conjunto. A Comunidade de Língua Portuguesa do qual sou Pároco participa no “Mittagstisch”, um almoço solidário destinado aos mais pobres ou mais sós que, semanalmente, é servido seguindo um calendário que contempla diversas comunidades católicas e evangélicas.
A nível cultural também se nota cada vez uma colaboração continuada. As Igrejas continuam a manter as suas propostas próprias, mas vão incluindo concertos e exposições – por exemplo – que são organizados em conjunto ou, pelo menos, alvo de apoio e publicitação na comunidade irmã.
Quanto à Pastoral, sobretudo nas áreas de Pastoral com Jovens ou no ambiente académico é comum que os departamentos e as Comunidades do Ensino Superior colaborem com frequência, acertando calendários, atividades e propostas em conjunto tentando que os publicos-alvo tenham, assim mais diversidade logo a partir das propostas feitas. Eu próprio me vi envolvido nesta experiência quando assumi a função de Assistente de Pastoral com Jovens para a cidade de Mainz. Não menos relevante é o campo das famílias, mais ainda pelo facto de não ser raro que existam casais em que marido e esposa se identifiquem com duas tradições cristãs diversas. Existem as este respeito orientações locais que visam facilitar o convívio e a participação dos esposos nas propostas da tradição em que não foram batizados.
Por fim, do ponto de vista teológico, não me vou referir às comissões e grupos académicos de reflexão teológia, que, como devem imaginar, são habituais, mas remeto apenas para alguns apontamentos da minha experiência na Universidade de Mainz. A Biblioteca de Teologia é comum (Católica e Evangélica), a ações abertas à cidade são também, frequentemente organizadas em conjunto e, além disso, com facilidade, um estudante católico pode aceder a um Seminário ou a uma Cadeira orientada por um Professor Evangélico ou vice-versa.
Assim, a convivência no quotidiano é algo tido como habitual e normal. Devo dizer que esta forma de estar poderá ser também influenciada pelo forte recuo do número de Católicos e Evangélicos nos últimos anos. Sabemos que na dificuldade é sempre mais fácil ultrapassar preconceitos e unir as mãos, como bem demonstra a História do Movimento Ecuménico: o grande impulso foi dado pelos Missionários ad gentes que operavam em terras em que os cristãos era a franca minoria.
Não fosse este um testemunho ecuménico, não resisto a terminar com uma citação de um Teólogo Luterano que nos pode ajudar a abordar a relação entre as tradições de forma mais realista:
Porque só Jesus conhece os seus, só Ele pode dizer que tem ovelhas do seu rebanho no meio do Mundo (João 10,16). O amor e a morte do bom pastor não são válidos apenas para um povo eleito. Jesus, o bom pastor, também tem os seus onde menos se espera… Jesus não é só nosso e não depende de nós. Isto é dito à Igreja como um aviso contra a arrogância mas também como consolação. … É o Bom Pastor deve guiar todas as suas ovelhas. A realização plena da Igreja acontecerá quando todos ouvirem a Sua voz. A palavra de Deus será a unidade da igreja na Terra. Toda a divisão no cristianismo acabará quando todos ouvirem a Sua voz e apenas a Sua voz, quando todos os que quiserem ser ouvidos e exigirem atenção para além desta única Voz desaparecerem… (Dietrich Bonhoeffer, Illegale Theologenausbildung: Sammelvikariate 1937-1940, DBW Volume 15, Página 563)