«E tu? Em que perguntas te demoras?»
O lugar onde a realidade se revisita, demorada e longamente. Como só a arte permite!… | Rubrica de Lígia Rodrigues, artista plástica

Imagem: Lígia Rodrigues | “O caminho da Luz” | Técnica : Pastel de óleo sobre papel | Dimensão 25 x 14 cm

Lígia Rodrigues*

Apareço por aqui como uma árvore nascida do nada, sem o tempo permitido para as raízes crescerem, sem semente no seu processo de morte, nem tempo de germinação.

Apareço e pronto.

Estou aqui como primavera de encontros entre cores e perfumes, sabores e sons. Florida de propósito para contar histórias das noites e dos dias, de tempos estivos e planícies geladas, do espaço entre o tudo e o nada, esse de como quando se caminha na orla do precipício porque se ama a vida, essa dimensão onde nascem as perguntas e se inventa o papel branco para as prolongar, para as entregar, como seres da criação com vida própria.

Então digo-vos que venho de raízes enxertadas mais no céu e no vento, mais do sol do que da terra fixa…raízes elásticas acostumadas a erradicar-se continuamente para se implantar novamente em qualquer outro lugar…

Não conheço o tempo para histórias paradas de ritmos previstos. Sou dessa geração de encontros com povos diferentes, de pores-do-sol que mais parecem tomates gigantes esborrachados a contaminar o céu fazendo-o duvidar da beleza de si mesmo sem eles.

Sou desses tempos em que as raízes precisam de correr atrás de uma nova história, procurando contactos debaixo do solo, sabendo-se continuar por ali fora por outras raízes, noutros troncos.

Sou desses todos seres infinitos, porque terminando em nós continuamos noutra história.

Venho de uma vida incrível de descobertas noturnas onde as raízes se alongam sedentas de mistério – esse alter – enquanto os ramos se esticam ao sol aberto, revelando deles pedacinhos, sem dizer tudo, para que lhe prestemos atenção.

Sim, atenção. A vida só tem validade quando se lhe presta atenção. De outra forma como descobrimos o que lhe está por detrás?

Foi assim que descobri que aquele menino preto, depois de chorar, era feito da mesma matéria que eu.

Foi assim que quis desenraizar-me para entrar em todos os buracos negros das raízes e contar histórias de copas floridas e de aromas e de frutos e de pássaros e de sons e de bater de asas.

Há uma beleza diferente, estranha, na hipótese de Pinóquio não ter voltado para a casa do pai porque, tornado menino, lhe valeria a liberdade de descobrir que a casa estava em todos os lugares. Mais aventura e ingenuidade, raposas e gatos…do que certezas.

Talvez o gosto pela aventura e pelos povos seja um deles, feito de raízes dispersas e buracos negros dos quais aprender a sair. Povos, esses, todos contidos num só menino negro, depois de chorar.

No entanto, há sempre um ritmo, um método para o retorno à saída.

Dos lados sombrios da história sai-se mais luminoso.

Sim, eu sei, é básico, mas indo em profundidade dentro da vida tenho que agradecer os momentos de luz aos momentos de sombra e a nova compreensão é que a sombra é tão real como a luz, igualmente amável, igualmente amor.

Atenção.

Às meninas e aos meninos de todas as cores e tamanhos, desenraizados, que dormem nas ruas frias das nossas cidades.

Atenção ao rapaz que ficou tetraplégico há três meses.

Atenção aos buracos negros dos deprimidos, às reações absurdas dos feridos.

Esticar raízes, mais fundo, ainda mais fundo, até tocar a pontinha da raiz da árvore vizinha, e no segredo da escuridão, sussurrar a cor das flores e falar do sabor dos frutos daquele verão.

E tu? Que histórias contam as tuas raízes?


* Artista plástica