Artigo e fotos recolhidos do Correio do Vouga
Licínio Cardoso
Assinalou-se, no dia 14 de dezembro, o centenário do nascimento de Monsenhor Amílcar Amaral, padre severense que, devido à sua ação pela catequese infantil e juvenil, foi dos mais influentes do século XX. Licínio Cardoso, pároco de Dornelas, Silva Escura e Cedrim, está a preparar um estudo sobre Amílcar Amaral num curso da Universidade Católica e partilha agora algumas linhas desse trabalho com o Correio do Vouga.
Quando passam 100 anos do nascimento de Monsenhor Amílcar Amaral (14 de dezembro de 1919) e nos 29 anos do seu falecimento (13 de dezembro de 1990), é imperativo que se recupere a vida e a obra deste padre severense, figura maior destas terras e um dos rostos mais importantes do presbiterado português do século XX. Fazer a sua biografia é conhecer uma vida contínua procura, própria de um espírito insatisfeito, na procura de sempre mais e melhor para glória de Deus.
Como pároco, Amílcar Amaral teve esta grande preocupação com o povo, procurando que este entendesse a sua fé, a celebrasse de modo consciente. Interessante que, uma dúzia de anos antes do concílio Vaticano II, publicou um livrinho em que dava algumas sugestões práticas para conseguir a participação do povo: ensinar a pouco e pouco as respostas à missa, não tudo de uma vez, e nunca ensinar uma resposta ou um gesto (sentar, ajoelhar) “sem primeiro ter explicado bem o sentido e o porquê dessa resposta ou desse modo de proceder”. Era um padre imbuído do espírito do movimento de renovação litúrgica que culmina no Vaticano II.
Quem o conheceu e foi seu paroquiano, testemunha que o padre Amílcar Amaral era um homem de fé, comunicativo, que procurava integrar as pessoas e sobretudo um homem de oração”. “Inspirou-me a seguir o sacerdócio. Era diferente, porque comunicava connosco, jogava à bola, comunicava com filmes, com imagens. Na missa estava voltado para o povo e eu e o meu irmão líamos em português o evangelho enquanto ele lia em latim baixinho”, contou o P.e António Graça da Cruz (pároco da Murtosa e Pardelhas), nas Jornadas Nacionais de Catequistas, em Fátima. Um visionário, com uma especial capacidade de comunicar, de encontrar novas linguagens para a comunicação. Por isso viajou, estudou no estrangeiro, procurou aprender mais línguas, inglês e alemão, ele, que também sabia francês, latim…
Como pároco, foi um padre preocupado com os mais simples e os mais pobres, dinamizando a “Sopa dos Pobres”, a construção das primeiras casas do Património dos Pobres. É interessante um pequeno artigo publicado num semanário de Águeda, onde dá conta do dia em que recebeu o padre Américo e dele dá um bonito testemunho, não se coibindo de sugerir ao fundador da obra do Gaiato como deveriam ser as casas: com quatro quartos independentes, com porta para fora, pequena cozinha para cada um se aquecer e aquecer a sopa, cozinhas essas no meio da casa para que uma única chaminé desse para todos. Um homem prático!
Monsenhor Amílcar Amaral distinguiu-se sobretudo como o homem da catequese, é assim que ele é reconhecido. Como homem de fé, consciente das suas debilidades e das suas capacidades, não deixou de ser um visionário. A propósito da publicação dos primeiros catecismos, disse anos mais tarde: “Se estivéssemos à espera de só publicar as obras quando elas já não têm defeito nenhum, nunca chegaríamos a publicá-las, e quando só queremos fazer coisas perfeitas, acabamos por não fazer coisa nenhuma; de maneira que sujeitei-me a todas imperfeições que tem um trabalho de experiência… Achei que valia a pena arriscar”.
Desde cedo o padre Amílcar sentiu necessidade “de modificar, de alterar até a maneira como se dava catequese às crianças, não apenas perguntas e respostas que as crianças decoravam como quem decorava a tabuada, mas que não tinha influência nenhuma na vida prática, mas para ser uma assimilação cada vez mais profunda das verdades religiosas e uma vivência cristã também cada vez mais profunda daquilo que se ia ensinando”.
O seu sentido prático, o gosto de explicar e ajudar o povo simples a entender a sua fé, está bem patente na obra “O Evangelho de Jesus Cristo”, um livro em que apresenta “as cenas da vida de Jesus e os seus ensinamentos pela ordem mais provável da sua sucessão no decorrer de três anos da vida pública do mesmo Jesus.” Pormenor delicioso na página 259 desse livro, comentando o gesto do samaritano que pegou em dois denários e os deu ao estalajadeiro… Dois denários, isto é, 800 escudos de 1982.
O padre Amílcar Amaral foi um empreendedor que nunca baixou os braços, como se vê pelo projeto sonhado e concretizado do Centro e Igreja de São Macário, herança que após a sua morte não teve a devida continuidade. Aliás, o padre Amílcar não teve vida fácil, mas também não se calava e por isso também foi dos que teve homilias gravadas no verão quente de 1975, gravações feitas por quem era da família… O fim da sua vida foi de dor e limitação, vivido com um sorriso e uma fé inabaláveis, continuando a formar e a ajudar os “precisados” de ajuda. Já perto da sua morte, bastante debilitado, escreve a sua assinatura no prefácio da tese de doutoramento do padre Georgino Rocha dizendo-lhe: “Não assino à mão por já não poder.”
Monsenhor Amílcar deu-se e ainda hoje se dá à Igreja. Ele continua presente, não apenas no prolongamento dos seus livros e obras, mas no perfil de um presbítero que é preciso recuperar e recordar, pois sempre viveu na ânsia de construir o Reino de Deus.