A festa de hoje leva-nos a celebrar a identidade daquela que foi, desde o princípio da sua existência, a cheia de graça e liberta de toda a mancha de pecado. O capítulo VIII da Constituição sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II, ao falar de Nossa Senhora, refere o seguinte: «Quis, porém, o Pai das misericórdias que a Incarnação fosse precedida da aceitação por parte da Mãe predestinada, a fim de que, assim como uma mulher tinha contribuído para a morte, também uma mulher contribuísse para a vida. E isto aplica-se, de forma eminentíssima, à Mãe de Jesus, a qual deu ao mundo Aquele que é a Vida que tudo renova, e foi enriquecida por Deus com dons convenientes a tão alto múnus. Portanto, nada admira que tenha sido corrente, entre os santos Padres, chamar à Mãe de Deus, «toda santa e imune de qualquer mancha do pecado», como que plasmada pelo Espírito Santo e formada como nova criatura LG 56).

  1. Em Maria contemplamos o rosto de Deus

O livro do Génesis apresenta a dicotomia entre Adão e Eva, ou seja, a forma como se percebe o pecado ou a culpabilidade da humanidade perante a existência do pecado e do mal. O que é proibido parece vir ao de cima, fascina-nos, mas no final deixa-nos de mãos vazias. É quando começa o jogo do passa culpas: a mulher, o ser mais frágil diante do mais forte, como sucedeu em todo as culturas, carrega com a maior parte das culpas do homem, mas isto não acontece por parte de Deus. A culpa atinge os dois por igual: a mulher dará à luz na dor e o homem terá de comer o pão com o suor do seu rosto.

O evangelho de S. Lucas diz-nos que Deus escolheu a Virgem Maria de um modo especial e a consagrou para Si: “A força do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra”. Esta nuvem é sempre sinal da presença de Deus. Maria, na sua pobreza, é sinal do poder da graça, do amor de Deus que anula toda a confiança nos poderes humanos; somente Ele pode salvar-nos penetrando até ao mais profundo da nossa humanidade, para a partilhar totalmente, e nos levar a partilhar a Sua própria vida divina. Ela é também sinal de que o Reino de Deus está entre nós. A virgindade de Maria supõe uma mudança de valores que indica a proximidade, a presença já do Reino de Deus. A virgindade na Incarnação introduz-nos já nos tempos novos.

Essa conceção que Maria faz da mensagem de Deus leva-nos a concluir que toda a Igreja tem de viver esta disponibilidade consagrada, esta pobreza contemplativa, esta novidade escatológica simbolizada na virgindade de Maria. A Igreja, como esposa de Cristo e mãe dos fiéis, é toda para o Senhor, sem outro amor que não seja Ele e os homens pelos quais Ele morreu e ressuscitou.

2. A instituição de ministérios

Hoje a nossa Diocese de Aveiro é enriquecida com o ministério de oito leitores – um em ordem ao sacerdócio e sete ao diaconado permanente – e com 110 fiéis cristãos – homens e mulheres – que vão ser instituídos no ministério extraordinário da comunhão.

O Papa Francisco no recente Motu próprio Spiritus Domini, em que alarga o ministério de leitor e acólito também às mulheres, afirma: «O compromisso dos fiéis leigos, certamente não pode e não deve esgotar-se no exercício dos ministérios não ordenados, mas uma melhor configuração destes ministérios e uma referência mais precisa à responsabilidade que nasce, para cada cristão, do Batismo e da Confirmação, pode ajudar a Igreja a redescobrir o sentido de comunhão que a carateriza e a iniciar um renovado compromisso na catequese e na celebração da fé». Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium e por sucessivas vezes insiste que esta renovada ministerialidade não pode ficar confinada ao setor litúrgico e profético, mas deve também ser ativada no campo da vida comunitária e da relação da Igreja com o mundo.

As notas características dos ministérios instituídos são: Vocacional – os ministérios devem ser considerados uma verdadeira vocação, isto é, um chamamento da Igreja que reconhece em tal pessoa um projeto divino sobre ela, a fim de servir o Povo de Deus e a sua missão. Laical: os ministérios nascem do Batismo e da Confirmação e devem ser vividos com verdadeira corresponsabilidade na missão da Igreja. Necessário: os ministérios instituídos correspondem a uma verdadeira necessidade na medida em que tais ministérios são de importância vital para a missão da Igreja, a tal ponto que se possa afirmar que a diaconia da Igreja se torna visível e é estruturada por tais ministérios. Eclesial – os ministérios instituídos e reconhecidos pela Igreja local, ordenam-se ao bem da Igreja e o seu exercício só faz sentido inserido na comunhão dessa mesma Igreja. À nota da eclesialidade pertence ainda o caráter público, quer da colação (celebração da instituição) quer do exercício, que caracteriza estes ministérios e pela qual se exprime o reconhecimento que a Igreja faz deles.

Aos leitores que vão ser instituídos desejo recordar as palavras que dentro de pouco vão ser proferidas no momento da entrega do livro da Sagrada Escritura: “recebe o livro da Sagrada Escritura e anuncia fielmente a palavra de Deus, para que ela seja cada vez mais viva no coração dos homens”.

No dia de hoje quero celebrar convosco os 50 anos de ordenação sacerdotal do Padre Nestor Camões e os 25 anos do Padre Manuel Dinis. Pedimos que sejam na nossa Diocese imagem de Cristo, bom pastor. Também fazemos memória do nosso anterior bispo D. António Francisco dos Santos que hoje celebra, na glória dos eleitos, os seus 50 anos de ordenação sacerdotal. Que ele interceda pela nossa Diocese, presbitério e vocações de consagração.

Que o sim de Maria na Anunciação seja o sim da nossa vida no serviço do Reino de Deus nas várias paróquias e comunidades cristãs que vão beneficiar do serviço pastoral dos irmãos que vão ser instituídos nesta celebração.

Aveiro, 8/12/2022.

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.