A Quaresma deste ano vai estar marcada pela peregrinação dos símbolos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) – a Cruz e o ícone de Nossa Senhora ‘Salus Populi Romani’ – nas paróquias e arciprestados da nossa diocese de Aveiro.
Falar da Quaresma significa falar de peregrinação. Toda a experiência de fé descrita na Sagrada Escritura é atravessada pela categoria do peregrinar, do caminhar, do fazer uma viagem, do ir para um lugar. Percorremos o caminho da Quaresma à Páscoa como uma viagem de quarenta dias. O povo de Israel peregrinou 40 anos no deserto a caminho da Terra Prometida. O Povo de Deus continua esta caminhada ao longo dos tempos, é peregrino a caminho da pátria celeste.
O peregrino olha para o horizonte, recorda-nos a necessidade da interioridade. A Quaresma é o tempo privilegiado de peregrinação interior: um caminho de conversão, de revisão do exercício da liberdade, de mudança de critérios e ordem de valores, todos inspirados no ideal cristão da santidade. Este peregrinar é um caminho de renovação pessoal e comunitário. O peregrino é aquele que, num determinado momento da vida, tempo de procura, de inquietação, de desejo e atração, se põe a caminho em busca de uma nova verdade de si mesmo.
A Cruz é, no Evangelho, o símbolo maior da entrega de Jesus por nós e a contemplação do rosto de Deus, um dos maiores sinais de identificação da fé em Jesus Cristo. Podemos dizer que é a árvore da vida através da qual o cristão renasce em Cristo ao participar no mistério da sua morte redentora – a maior prova do ato de amor infinito. Seguir os passos de Jesus é ser capaz de, como Ele, percorrer o caminho do amor total e da doação da vida, descobrir o sentido dos acontecimentos do mundo, tornando-os redentores.
O ícone de Nossa Senhora, a Mãe de Deus que junto da cruz aceita a maternidade de toda a humanidade, não passa despercebido. Como mãe do Redentor, Maria partilhou intimamente toda a sua vida e missão, permanecendo a seu lado desde o berço até ao calvário. “Cristo e a sua Mãe são inseparáveis” (Papa Francisco). Naquele momento crucial, antes de declarar consumada a obra que o Pai Lhe havia confiado, Jesus disse a Maria: «Mulher, eis o teu filho!». E, logo a seguir, disse ao amigo bem-amado: «Eis a tua mãe!» (Jo 19, 26-27). Maria participa, assim, do amor misericordioso com que Jesus se oferece pela redenção de todos. Como ela, deixemo-nos interpelar pela Palavra de Deus e procuremos levantar-nos apressadamente, partilhando com os outros a alegria que vem da Cruz.
Que a presença dos símbolos na nossa Diocese sejam interpelativos e nos ajudem a preparar melhor o nosso caminho rumo à Páscoa. O Ressuscitado passou pela Cruz. A comunidade de homens novos, que nasce da Cruz e da ressurreição de Jesus, a Igreja, continuará a missão do Senhor: comunicar a vida nova que brota da sua Ressurreição, e que nos compromete a testemunhar a plenitude da vida. Que o caminho de conversão quaresmal, assumido por cada um de nós diante de Deus seja um desafio a alargar os horizontes da nossa atenção e preocupação pela totalidade da família humana, a estarmos presentes e a participarmos ativamente na vida da comunidade paroquial e diocesana.
A fé que arde no coração do peregrino, seja no êxodo geográfico seja no espiritual, fundamenta-se na verdade incomparável do amor que Deus nos tem, e que desencadeia, como consequência, a exigência de doação aos que estão a caminho, o apoio mútuo. Como habitualmente, em tempo de Quaresma, o processo de renovação deve ser trilhado tendo presente a caridade, o amor e a paciência de Jesus. Os cristãos são convidados a renunciarem ao supérfluo e a parte do que têm, em favor de outras causas e comunidades mais pobres. O jejum, a oração e a esmola continuam a ser-nos apresentadas como meio de ascese espiritual. São palavras do Papa Francisco que «o jejum prepara o terreno, a oração rega e a caridade fecunda-o». Nada melhor do que fazer ressoar estas palavras no nosso coração e nas nossas comunidades!
Que desafios coloca a cada um de nós, às nossas comunidades paroquias e a toda a Diocese a caminhada quaresmal que somos convidados a fazer?
1º As catequeses caminhem ao ritmo da sua caminhada quaresmal. É um convite a procurar novos caminhos e a percorrê-los com audácia e confiança.
2º Os jovens se empenhem na Jornada Mundial da Juventude e chamem outros jovens a participar. Se deixem inundar e dinamizar pela força do amor, saciados da Palavra de Deus e da Eucaristia.
3º Às famílias, pede-se que assumam a sua missão como um verdadeiro testemunho crente e evangelizador no meio das gerações jovens, e que movidas pelo acolhimento ao outro, nos dias das dioceses, encontro que antecede a semana da JMJ, acolham jovens participantes, para que fiquem a conhecer a região que os acolhe, a Igreja local e as suas especificidades.
4º A Renúncia Quaresmal, será 50% para o Fundo de Socorro Social da Diocese para mitigar as despesas que estão em aumento nos agregados mais pobres, fruto da inflação e de uma desigualdade económica crescente entre nós; e 50% para o Sudão do Sul, um dos países mais pobres do mundo. É bem significativo o gesto de uma criança que, na recente viagem do Papa Francisco a este país, deu ao Papa uma nota de 0,007 de dólar – sinal de que os pobres do pouco que têm experimentam a alegria de repartir.
Que, nesta Quaresma, o Espírito de Deus nos conduza a uma verdadeira conversão pessoal e da nossa Igreja, na escuta da sua Palavra e na oração nas nossas famílias e comunidades. Que a Mãe de Jesus nos acompanhe neste peregrinar.
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Aveiro, 22 de fevereiro de 2023.
† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro