Jubileu Diocesano – Homilia

1. A missão dos setenta e dois discípulos (Lc 10, 1-24)

            O caminho da vida não é um caminho plano, sem obstáculos. São muitos os que se sentam à beira do caminho e outros voltam para trás.

            Jesus tomou a decisão irrevogável de caminhar até Jerusalém. O discípulo segue os seus passos.

Após a cena da Transfiguração e o segundo anúncio da Paixão, Jesus inicia uma longa viagem para Jerusalém, e envia setenta e dois discípulos a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. Trata-se de uma viagem missionária. Jesus não sobe a Jerusalém sozinho, mas sim acompanhado pelos Doze e por uma multidão de discípulos a quem envia à sua frente (Lc 9,52). Toda a viagem é um seguimento de Jesus e está em relação direta com a Paixão: “Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-Se resolutamente para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente”. Os mensageiros vão à frente para “Lhe prepararem alojamento”. Caminhando para Jerusalém, Jesus propõe as exigências que o autêntico discipulado deve ter. O seguimento de Jesus não oferece vantagens de tipo material, mas a absoluta renúncia. Este era o Evangelho de domingo passado se não tivéssemos celebrado a solenidade de S. Pedro e S. Paulo.

O envio dos setenta e dois discípulos, próprio de S. Lucas, assinala o universalismo da ação missionária. Bastariam doze para evangelizar Israel; mas são setenta e duas as nações pagãs, tal como refere o livro do Génesis (Gn 10). O número 72 é simbólico, tem o significado de plenitude. Todos somos enviados a anunciar o Evangelho de Jesus. Temos de ir dois a dois, sabendo que o testemunho de duas pessoas dá validade à palavra anunciada.

A pregação tem de se apoiar apenas na força da Palavra de Deus: sem bolsa, nem alforge, nem sandálias. É necessária a confiança em Deus e na sua providência, que elimina toda a excessiva preocupação pela própria subsistência, que se confia nas mãos de Deus.

O anúncio é de paz. Importa anunciar o Reino, mesmo que o mensageiro seja recusado. Os missionários não anunciam a sua própria doutrina, mas a de Jesus; Jesus é que é aceite ou recusado. A pregação do Reino tem de ir acompanhada de amor ao próximo e a Deus. Disto nos fala o Evangelho do próximo domingo: o bom samaritano.

2. O nosso Jubileu diocesano

            Este Jubileu diocesano, ou Dia da Igreja diocesana, pretende ser um momento para celebrarmos o percurso feito ao longo deste ano pastoral, darmos graças pelo caminho percorrido e pedirmos forças para o trabalho que temos pela frente. Por isso, o Jubileu não trata apenas de uma questão teológica, de falar de Deus ao ser humano, mas de um convite e um tempo para refletir – um tempo de memória e conversão, mas também de esperança e confirmação da nossa identidade como Igreja que peregrina em terras de Aveiro.

            As comunidades pastorais foram o grande objetivo que nos ocupou ao longo deste ano nas dezoito Assembleias arciprestais, duas por cada arciprestado, mas que agora temos de alargar a reflexão até às comunidades paroquiais, para que o maior número de cristãos, e mesmo algumas pessoas de boa vontade, possam refletir a Igreja que queremos no futuro, para continuar a ser fiel ao anúncio do Evangelho, tal como Jesus a quis.

            A criação das comunidades pastorais não é uma mudança da identidade da Igreja, mas a resposta a tempos novos que estamos a viver e que requerem outras formas de presença e organização do trabalho pastoral. O Documento de trabalho para o próximo ano, e que já está disponível para todos, define que a Comunidade Pastoral deve ser uma comunidade de fiéis, configurada como agrupamento de paróquias confinantes que, conservando a sua identidade, estão chamadas a formar uma comunidade viva e orgânica, centrada em Jesus Cristo, com critérios pastorais comuns, de estilo missionário e sinodal; a comunidade está confiada a um ou mais presbíteros, com a participação ativa e corresponsável de fiéis leigos com especiais competências, diáconos permanentes e religiosos, por mandato do bispo diocesano.

Este vai ser o trabalho pastoral do próximo ano. Todas as paróquias devem constituir o maior número possível de grupos de reflexão, para que todos possam participar. O que diz respeito a todos, por todos deve ser pensado e assumido. Não é possível atingir a meta da implementação das Comunidades Pastorais sem a corresponsabilidade de todos: leigos, sacerdotes, diáconos e consagrados. A este respeito, o Papa Leão XIV disse-nos na última festa de S. Pedro e S. Paulo: «A comunhão eclesial nasce do impulso do Espírito, une a diversidade e constrói pontes de unidade na variedade de carismas, dons e ministérios. É importante aprender desta forma a viver a comunhão, como unidade na diversidade, para que a variedade dos dons, ligados na confissão da única fé, contribua para o anúncio do Evangelho. A Igreja precisa dela, as relações entre os leigos e os presbíteros, entre os presbíteros e os Bispos, entre os Bispos e o Papa precisam dela; assim como precisam dela a vida pastoral, o diálogo ecuménico e a relação de amizade que a Igreja quer manter com o mundo. Empenhemo-nos em fazer da nossa diversidade um laboratório de unidade e comunhão, de fraternidade e reconciliação, para que cada pessoa na Igreja, com a sua história pessoal, aprenda a caminhar junto dos outros».

3. Todos estamos em caminho

Nesta celebração, o Guilherme Reis e o João Rendeiro, nossos seminaristas de teologia, vão receber o ministério de leitor, mais um degrau em ordem à ordenação sacerdotal. Este ministério requer daqueles que o recebem que meditem assiduamente a Palavra de Deus e a anunciem, para que ela seja cada vez mais viva no coração dos homens e mulheres do nosso tempo. Como não recordar o conselho que S. Paulo dá ao seu discípulo Timóteo: «Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e de que adquiriste a certeza, bem ciente de quem o aprendeste. Desde a infância conheces a Sagrada Escritura, que te pode instruir, em ordem à salvação pela fé em Cristo Jesus. De facto, toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa» (2Tim 3,14-17).

Também vão ser enviados, em nome da nossa Diocese, sete voluntários leigos missionários para Angola e cerca de 300 jovens ao Jubileu que decorrerá entre 25 de julho e 5 de agosto, em Roma. Foram convocados pelo Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa e agora encontram-se com o Papa Leão XIV, o novo sucessor de S. Pedro. Este é o mistério da Igreja e também a sua beleza. Comentando a parábola de S. Mateus – “Ide vós também para a minha vinha” – pede «aos jovens, que não esperem, mas que respondam com entusiasmo ao Senhor que nos chama a trabalhar na sua vinha. Não demoreis, arregaçai as mangas, pois o Senhor é generoso e não ficareis desiludidos! Trabalhando na sua vinha, encontrareis a resposta àquela pergunta profunda que trazeis dentro de vós: Qual é o sentido da minha vida?»

Documento Final do Sínodo de 2024 diz-nos que no coração do caminho sinodal que estamos a percorrer “há um apelo à alegria e à renovação da Igreja no seguimento do Senhor, no empenho ao serviço da sua missão, na procura dos modos para lhe ser fiéis” (nº 3).

Na manhã do Pentecostes, Maria estava reunida com os discípulos e os apóstolos na expetativa da vinda do Espírito Santo, que levaria a Igreja até aos confins do mundo. Que Santa Maria de Vagos, em cujo Santuário nos reunimos como Igreja, nos assista e acompanhe neste caminho de renovação em que estamos empenhados, para responder aos novos desafios que se colocam à nossa Igreja de Aveiro.

Santuário de Vagos, 6 de julho de 2025.

 António Manuel Moiteiro Ramos, bispo de Aveiro