Homilia | Vigília Pascal

Ressuscitou! Aleluia!

Na Palavra de Deus, que escutámos longamente nesta noite santa, há um grito de glória: “Sei que procurais Jesus, o crucificado; não está aqui, ressuscitou!”.

O evangelho de S. Mateus e a carta de S. Paulo aos Romanos vão conduzir a nossa fé ao acontecimento único que é a Ressurreição de Jesus e a sua atualização na nossa vida de cristãos discípulos do Ressuscitado.

1. Não tenhais medo. Não está aqui. Ressuscitou

Estas são as palavras que o anjo dirigiu às mulheres que foram ao túmulo, ao romper do primeiro dia da semana, para ungir o corpo de Jesus. O evangelista diz-nos que após um grande terramoto, um anjo do Senhor, descendo do céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela. Os guardas, que por mandato de Pilatos tinham sido postos a guardar o sepulcro, com medo de que os discípulos viessem roubar o corpo de Jesus, “puseram-se a tremer e ficaram como mortos”. É então que o anjo diz às mulheres: “Sei que procurais Jesus, o crucificado; não está aqui, ressuscitou!”.

Que belo anúncio também para nós que vivemos cheios de medo nos dias de hoje: as guerras que não terminam; o poder da força e do ódio que parecem intensificar-se cada vez mais no nosso mundo; a loucura de alguns governantes que iniciam guerras onde os refugiados se contam por milhões; o poder do lucro de alguns que tornam a nossa sociedade injusta e desigual; as doenças e as várias escravidões que nos perseguem; … a solidão de tantos que não vivem a alegria da Páscoa. Para todos ressoam as palavras do anjo: “Não tenhais medo! Não está aqui. Ressuscitou!“. Na ressurreição de Jesus alicerça-se a nossa esperança e a nossa confiança de que o poder de Deus Pai e a força do seu Espírito quebraram no seu Filho Unigénito as cadeias da morte e o poder do mal.

2. Ele vai à vossa frente para a Galileia

Na Galileia, iniciou Jesus a sua vida pública com o convite à conversão porque estava próximo o Reino de Deus; caminhando ao longo do mar da Galileia chamou os primeiros discípulos e no alto do monte ensinou-lhes as bem-aventuranças. Agora, neste alegre anúncio da Páscoa do Senhor, os discípulos vão ser confirmados na vitória do Ressuscitado sobre a morte e são enviados a todos os povos para fazerem novos discípulos, a batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, na certeza de que Ele estará sempre com eles, porque é o Emanuel, o Deus connosco. Nesta noite santa também nós somos convidados a renovar o nosso compromisso de sermos testemunhas de Jesus ressuscitado.

Esta é a alegria da Páscoa; não a alegria das coisas passageiras, nem a alegria dos êxitos que passam como a espuma das ondas do mar ou da fama, ou mesmo a alegria oca dos nossos triunfos humanos, mas a alegria da comunhão íntima com o Senhor Ressuscitado, que vai muito para além das nossas lágrimas, ao sermos capazes de vislumbrar os novos céus e a nova terra, onde, finalmente, habitam a paz, a justiça e a alegria sem fim.

3. Considerai-vos mortos para o pecado e vivos em Cristo Jesus

O batismo, recebido em nome de Jesus, sepulta-nos com Cristo na sua morte e ressuscita-nos para a vida nova. O que significa morrer para o pecado? É tudo o que destrói a vida, tudo o que nos escraviza em tantas situações nas quais deixamos de ser nós próprios, o que ameaça a nossa liberdade, o que nos põe uns contra os outros, o que apaga em nós sermos imagem amorosa do nosso Criador, tudo o que desperta em nós a cobiça, as aparências, julgarmo-nos mais do que os outros, o que debilita a nossa coerência de vida…

Esta é a Páscoa que queremos celebrar. Ressuscitados para Deus em Cristo Jesus, para o colocarmos no centro e contagiar os outros com a luz da sua Verdade, para construirmos um mundo onde a comunhão seja o sinal da nova humanidade, para nos enchermos de esperança e da força do seu Espírito.

Feliz Páscoa de Jesus Ressuscitado!

Vigília Pascal, 4 de abril de 2026

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro