Na manhã da passada terça-feira (18-1) fomos surpreendidos com o telefonema do senhor arcipreste dando a notícia da morte do nosso P. Júlio Franclim. Vários foram os sentimentos que brotaram no meu coração e, possivelmente, também nos corações dos vários amigos à medida que se ia conhecendo a sua morte.
Primeiro, foi a morte de um sacerdote culto, amigo dos seus amigos, dedicado ao seu bispo e a tudo o que a Igreja lhe pedia, nomeadamente o colocar a palavra de Deus ao alcance de todos e, em seguida, olhar para o nosso presbitério e ver o muito que ainda tinha para nos dar. O livro da Sabedoria pede que olhemos mais longe, que sejamos capazes de contemplar a sua vida no horizonte de Deus: “a sua saída deste mundo foi considerada uma desgraça e a sua partida do meio de nós um aniquilamento. Mas ele está em paz. Para os que n’Ele confiam compreenderão a verdade e os que Lhe são fiéis permanecerão com Ele no amor, pois a graça e a misericórdia são para os seus santos e a sua vida será benéfica para os seus leitos”.
Ao pensar a homilia para esta celebração exequial, e tendo em conta que o P. Franclim era um apaixonado pela Sagrada Escritura, quero emprestar a minha voz para que seja ele a comentar a Palavra de Deus no dia do seu funeral, servindo-nos do comentário ao episódio dos discípulos de Emaús, tal como ouvimos na proclamação do Evangelho.
O encontro com Jesus, centro da nossa fé, acontece quando percorremos o caminho, nos encontramos o Ressuscitado e nos sentamos à mesa para partir o pão e partilharmos a comunhão uns com os outros.
1. Um caminho a percorrer
Tendo presente o significado do caminho e da viagem, no conjunto do evangelho, seria ingénuo pensar que o caminho do regresso fosse apenas o espaço físico a percorrer por quem, depois de ter celebrado a Páscoa em Jerusalém, voltava a casa no dia seguinte. É necessário ir mais longe e perceber o sentido mais profundo do caminho.
Mas eis que naquele caminho aparece outro viajante que se aproxima dos dois e lhes faz perguntas. O leitor já sabe quem é o personagem, mas os discípulos têm os seus olhos impedidos de o reconhecer, tal como acontece em todos os relatos das aparições de Jesus ressuscitado: ao grupo de discípulos reunidos na tarde ou noite da Ressurreição, a Maria Madalena, na margem do lago de Tiberíades. Jesus ressuscitado já não pode ser visto, contemplado, com os olhos físicos, mas com um outro olhar e sempre por iniciativa de Deus.
2. O encontro com o Ressuscitado nas Escrituras
É na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido: só através da Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente pode perceber que o amor até às últimas consequências e o dom da vida não são um fracasso, mas geram vida nova e definitiva. A escuta da Palavra de Deus dá a entender ao crente a lógica de Deus e demonstra-lhe que a vida oferecida como dom não é perdida, mas é semente de vida plena.
Os discípulos percebem, então, que «era necessário que o Messias sofresse tudo isso para entrar na glória». É por aí que passa o projeto de Deus: é necessário, devia, é preciso são expressões que já surgiram nos anúncios da paixão e que agora se apresentam já consumadas. A vida plena e definitiva não está – de acordo com os esquemas de Deus – nos êxitos humanos, nos tronos, no poder; mas está no serviço simples e humilde aos irmãos, no dom da vida por amor, na partilha total daquilo que somos e que temos com os irmãos que caminham lado a lado connosco nos caminhos da vida.
3. A Eucaristia dom oferecido a todos
Os três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) finalmente chegam a Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus apesar de, como confessam depois, lhes «arder o coração enquanto lhes explicava as Escrituras». Convidam-no a ficar com eles. «Fica connosco», pedem eles. Ele aceita, entra com eles e senta-se à mesa com eles. O evangelista tem o cuidado de insistir nesta relação de comunhão que Jesus cria com os dois, «com eles». Enquanto comiam, Jesus «tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho».
Dessa forma, o evangelista recorda aos membros da sua comunidade que é possível encontrar Jesus vivo e ressuscitado – esse Jesus que por amor enfrentou a cruz, mas que continua a fazer-Se companheiro de caminhada dos homens nos caminhos da história – na celebração eucarística: sempre que os irmãos se reúnem em nome de Jesus para «partir o pão», Jesus está lá, vivo e atuante, no meio deles.
Diante desse gesto, o mais eloquente realizado por Jesus na última ceia (cf. Lc 22,19), sinal duma vida inteira oferecida e dada por amor, os olhos dos discípulos abriram-se, e eles reconheceram aquele que já há muito tempo estava próximo deles no caminho da vida: mas logo o forasteiro, o peregrino, desaparece da vista deles. Presença fugaz, mas suficiente para os dois discípulos que reconhecem que, diante da sua palavra, o coração ardia no seu peito e que, com a sua vida eterna, ele podia fazer-se presente e partir o pão.
P. Franclim:
Agora já podes exclamar como Job – “os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora veem-te os meus próprios olhos (Jb 42,5) – ajuda-nos a por em prática aquilo que escreveste e que continua guardado não apenas nos livros, mas também no nosso coração:
Jesus é o Deus próximo e o Deus peregrino. É Ele quem toma a iniciativa de vir ao nosso encontro. Caminha sempre connosco: não apenas por alguns momentos, mas durante toda a vida, mesmo que os nossos olhos estejam fechados como os olhos dos discípulos de Emaús.
Este não é mais o caminho físico Jerusalém – Emaús – Jerusalém, porque a questão geográfica deixou de importar, mas o caminho interior que transporta da zona de sombra do Antigo Testamento à zona de luz do Novo Testamento, da esperança perdida à esperança reencontrada, da tristeza à alegria, da Cruz à ressurreição (e da ressurreição à Cruz), o caminho do encontro com Jesus Ressuscitado.
Que seja este o teu testamento para cada um dos cristãos da nossa diocese: a vida não é apenas o caminho físico, mas sim o caminho do encontro com Jesus Ressuscitado.
Amen.
+ António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.