Sex. Out 22nd, 2021

Parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga

Jorge Pires Ferreira

“Quando se sai de uma crise não de fica igual”, disse D. António Moiteiro na tertúlia online que decorreu no dia 7 de abril, com mais de cem pessoas a assistir. O Bispo de Aveiro realçou que há mudanças “para melhor e pior”, quer na Igreja, quer na sociedade. Se por um lado se nota mais “solidariedade”, por outro, já se notam dificuldades sociais e económicas. “Os pobres estão mais pobres”, disse.

D. António Moiteiro mostrou-se admirado pela capacidade de comunicação das paróquias e comunidades, que em pouco tempo passaram para o online as principais celebrações e catequeses, referindo que há limitações, mas também há potencialidades. O prelado deu como exemplo as cinco catequeses quaresmais que ele próprio deu nos canais digitais da Diocese de Aveiro, com mais de mil assistências cada uma. “Nenhuma sala em Aveiro poderia comportar mil pessoas”, rematou.

D. António Moiteiro considerou que a pandemia veio reforçar na Igreja algo que já se verificava: que as comunidades de cristãos vão ser mais pequenas, mas provavelmente mais comprometidas. Neste sentido, realçou que as prioridades pastorais neste tempo têm de ser, por um lado, “reforçar a vida comunitária” e, por outro, aumentar “a formação cristã”.

A tertúlia sobre a Igreja no pós-pandemia foi uma iniciativa da Comissão Diocesana da Cultura e contou com intervenções que abordaram as mudanças nos vários setores da sociedade e da Igreja.

Jorge Pires Ferreira, jornalista do Correio do Vouga, manifestou alguma desconfiança nas mudanças provocadas pela pandemia a longo prazo, considerando que as grandes questões na Igreja e na sociedade são e continuam a ser as mesmas, ressalvando, no entanto, que, historicamente, nos períodos logo a seguir às pandemias houve uma certa euforia. Referiu, neste sentido, os estudos de George Duby. O historiador francês notou que durante as pandemias aumentavam os testamentos e as heranças. No pós-pandemia, aumentavam os casamentos. Na mesma linha, referiu que pode estar a chegar um período de hedonismo, como nos “loucos anos 20”, que se seguiram à pandemia de 1918.

Isabel Pereira, professora da Universidade de Aveiro, considerou que o ensino ficou “claramente prejudicado” na modalidade online, pois a comunicação passa a ser “fria e impessoal”, além de ter aumentado a “ansiedade, a insegurança e o abandono escolar”. Realçou, porém, a solidariedade, quer da instituição Universidade de Aveiro, quer entre professores e alunos. Como elemento da equipa pastoral do Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC), a professora referiu que foram dados mais apoios económicos a estudantes africanos de língua portuguesa.

O médico Mário Ferreira afirmou que a pressão da pandemia fê-lo descobrir “fragilidades” próprias que desconhecia ter. Olhando para o país, notou a “falta de governantes lúcidos, verdadeiros estadistas”. Há um “défice de líderes de qualidade”.

Filomena Sêca, gestora de recursos humanos, salientou as complicações de a casa se ter tornado local de trabalho, situação que significa uma “mudança de paradigma” e que obriga a adaptações nos ritmos familiares. Por outro lado, considerou que a resposta estatal, em termos de apoios às empresas e ao “drama do desemprego”, foi rápida, ainda que a produção legislativa tenha sido “uma loucura”.

Teresa Correia, enquanto presidente da ADAV (Associação de Defesa e Apoio à Vida, de Aveiro), referiu que a associação tem notado que há serviços “que parecem estar em rotura”, verificando-se uma grande dificuldade no acesso à saúde das grávidas e mães recentes que a ADAV apoia. Maior dificuldade encontra-se, no entanto, na obtenção de contratos de trabalho que permitam regularizar a situação de muitas mulheres. A dirigente notou, por outro lado, que “há cada vez mais pessoas interessadas em ajudar”.

Pedro Ventura, responsável do Gabinete de Comunicação da Diocese de Aveiro, realçou o esforço de adaptação de padres e paróquias na passagem para o online e sugeriu que agora que a estrutura está montada, não se perca esta maneira de comunicar. Sublinhou, contudo, que há um “défice de cultura digital”, pelo que é necessário “cuidar da maneira como se chega às pessoas”, quando se transmite uma eucaristia ou uma catequese.