Dom. Dez 5th, 2021

A figura do Servo de Javé

Neste domingo, a Liturgia da Palavra recorda-nos que a visão e a lógica de Deus são diferentes dos critérios do mundo. Convida-nos a repensar os nossos projetos pessoais, tantas vezes enraizados no poder e na grandeza, e a fazer da nossa vida um serviço aos irmãos, nomeadamente aos que vivem mais à margem da sociedade.

Na realidade, a humanidade parece estar cada vez mais abalada por processos de massificação e fragmentação, e não restam dúvidas que a pandemia fez eclodir as desigualdades e as disparidades já existentes – situação que desafia a capacidade da Igreja de acompanhar as pessoas e as comunidades a descobrir o sentido do nosso tempo e a reler as experiências que cada dia se nos apresentam.

O Servo de Javé de que nos fala a primeira leitura, homem sofrido, desprezado e rejeitado, lembra-nos que uma vida vivida no sofrimento, na simplicidade, na humildade, na entrega e no dom de si mesmo, não é, aos olhos de Deus, uma vida fracassada, mas uma vida fecunda, exaltada, que permite participar no banquete preparado por Deus.

Segundo os critérios humanos, singram aqueles que, sedentos de triunfo, usam da autoridade, do poder económico; que se fazem notar pela sua capacidade de mobilizar multidões, pela sua aparência e beleza física… Ao invés, segundo os critérios de Deus, alcançam vitória aqueles que, embora vivendo no esquecimento, na humildade e uma vida de sofrimento, confiam e sabem fazer da própria vida um dom de amor aos outros; são aqueles que, com as suas atitudes de serviço e de entrega, trazem ao mundo sinais de libertação e de esperança.

Jesus alerta para o perigo da manipulação

No Evangelho, Jesus alerta para o perigo da manipulação e exorta os discípulos a não enveredarem por sonhos pessoais de ambição e de grandeza, mas a fazerem da sua vida um dom de amor e de serviço. Estavam mais preocupados com o prestígio e com a importância do que com o serviço a desenvolver e com o trabalho a realizar. Quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos, diz-nos Jesus.

 Seguir o Filho do Homem, que “veio para servir e não para ser servido”, supõe estar abertos aos critérios de Deus. É no amor e na entrega de quem serve humildemente os irmãos que Deus oferece a vida verdadeira. Diante de muitas dificuldades e barreiras, Jesus compadece-se das nossas fraquezas, presta especial atenção aos “separados” de Deus e aos “descartados” pela comunidade e sem exclusões e aceção de pessoas.

A missão desafia-nos. Somos, assim, confrontados com uma inversão radical da escala de valores baseada na honra e no poder. Na comunidade de Jesus estes valores devem ser substituídos pelo serviço, que vai até à entrega da própria vida. Ele é o modelo e segui-lo implica aceitar uma mudança radical tanto no horizonte da própria vida como nos valores que a governam. Urge dar testemunho de um mundo novo, orientado por novos valores que farão florescer novas linguagens da fé e renovados percursos.

A Sinodalidade, um caminho a percorrer juntos

Estamos hoje a iniciar, nas Igrejas particulares, a preparação para o Sínodo 2021-2023. O Papa Francisco, ao propor o título «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão», fala da urgência e necessidade de viver a sinodalidade na Igreja de hoje – dela depende o futuro da Igreja e o remédio para muitas patologias que hoje emergem dolorosas e devastadoras.

A primeira etapa do processo (outubro 2021 – abril 2022), de escuta e de consulta, diz respeito a cada uma das Igrejas diocesanas. O Sínodo é um convite para que cada Diocese abrace um caminho de profundo renovamento conforme lhe for inspirado pela graça do Espírito de Deus. Como se afirma no Documento Preparatório, o Sínodo tem em conta uma questão principal: Como é que o nosso “caminhar juntos” se realiza hoje na Igreja? Que passos o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

A sinodalidade está ao serviço da missão da Igreja, na qual todos os seus membros são chamados a participar; todos estão qualificados com a dignidade da função profética de Jesus Cristo (cf. LG 34-35), de modo a poderem discernir quais são os caminhos do Evangelho no presente. Este Sínodo constitui, pois, um dom e uma tarefa. Mais do que celebrar um acontecimento, é um apelo e um assumir desafios. Todos somos convidados a interrogar-nos e a viver um processo eclesial participativo e inclusivo que ofereça, nomeadamente aos que se encontram à margem, a possibilidade de se expressarem e serem ouvidos, a fim de contribuírem para a construção do Povo de Deus. A Igreja é o povo de Deus, e este povo, devido ao Batismo, é sujeito ativo da vida e da missão da Igreja. Comunhão, renovação, missão, evangelização e corresponsabilidade são palavras incisivas que fazem pulsar o ritmo para uma igreja sinodal.

A fase diocesana, refere o Papa Francisco num discurso aos agentes pastorais da sua diocese de Roma, em 18 de setembro passado, «é muito importante porque realiza a auscultação da totalidade dos batizados, o sujeito do sensus fidei infalível in credendo. Há muitas resistências para superar a imagem de uma Igreja rigidamente dividida entre chefes e subordinados, entre os que ensinam e os que têm de aprender, esquecendo que Deus gosta de inverter os posições: “Derrubou os poderosos dos seus tronos, exaltou os humildes” (Lc 1,52)».

Sinodalidade, um dinamismo permanente da Igreja

Necessariamente um Sínodo pretende ativar a Igreja na sua compreensão e na sua experiência. Quando dizemos “a nossa Igreja”, quem é que faz parte dela? Quem nos pede para caminhar juntos? Quem são os companheiros de viagem, inclusive fora do perímetro eclesial? Que pessoas ou grupos são deixados à margem?

O caminho sinodal enraíza-se na vida concreta do Povo de Deus. Trata-se de um dinamismo de escuta recíproca: cada um à escuta dos outros e todos à escuta do Espírito Santo. É impensável uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus.   Na abertura do Sínodo, no domingo passado, firmava o Papa Francisco: «Fazer Sínodo é descobrir, maravilhados, que o Espírito Santo sopra de modo sempre surpreendente para sugerir percursos e linguagens novos. Aprender a ouvir-nos uns aos outros – bispos, padres, religiosos e leigos; todos, todos os batizados. O Espírito pede para nos colocarmos à escuta das perguntas, preocupações, esperanças de cada Igreja, de cada povo e nação; e também à escuta do mundo, dos desafios e das mudanças que o mesmo nos coloca».

Jesus desafia a caminhar juntos

Deixando-nos interpelar pela Palavra de Deus, os apelos pedem sempre uma resposta. São muitos os desafios sobre os quais temos de refletir: o desafio a edificar uma Igreja referida a Cristo, mais do que a si mesma; o desafio a levar a sério a natureza comunitária da Fé; o desafio a viver em estado de comunhão e de recomeço.

Para vivermos esta comunhão é necessário conviver, concelebrar, aprender a trabalhar juntos, partilhar sucessos e fragilidades. Procuremos estar em diálogo contínuo uns com os outros sob a ação do Espírito Santo. Consciente de que caminhar juntos só é possível se nos basearmos na escuta comunitária da Palavra e na celebração da Eucaristia, questionemo-nos como é que este “caminhar juntos” se realiza na nossa Igreja particular? Que passos o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”? Dado que todos somos discípulos missionários, de que maneira cada um de nós é convocado para ser protagonista da missão?

Cada um de nós é chamado a assumir a própria vida como missão e a refletir hoje sobre esta realidade: «Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo» (EG 273). Impulsionados por este caminho sinodal, queremos fazer caminho com Jesus e seguir Jesus como Caminho; colocar-nos no movimento de ação para que possamos vir a colher os seus bons frutos.

Movidos pelo amor de Deus, sejamos capazes de dar respostas que nos façam entrar no íntimo de Deus e sair para o coração do mundo.

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Aveiro, 17 de outubro de 2021

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo