Seg. Jun 14th, 2021
Artigo, foto e vídeos recolhidos do SNPC

Propõem-se treze obras, algumas explicitamente de matriz cristã, outras profanas, entre filmes clássicos e outros contemporâneos, que evocam elementos característicos da espiritualidade particularmente quaresmal, que podem aprofundar a meditação sobre questões como a conversão, o mal, a tentação, a passagem da morte à vida.

A árvore da vida
Terrence Malick (2011)

«Há dois caminhos na vida, o da natureza e o da graça.» Desde os primeiros minutos deste filme-prodígio (Palma de Ouro em Cannes, 2011) a voz off pressagia o que se segue. Mas antes do desenvolvimento narrativo desta questão crucial que é a do pecado original, o espetador assiste – fascinado ou enfastiado – a uma sobreposição de imagens da criação do mundo: cosmo em ebulição, arrancado ao vazio, numa violência inerente a cada nascimento. A narração prossegue, com palavras bíblicas devidamente escolhidas.

Depois vem a história humana, que incarnará perfeitamente a história da humanidade, tão banal como única, tão trivial como espiritual. Estamos no Texas dos anos 1960, mergulhados nas alegrias e dramas da família O’Brien. Entre o pai, figura autoritária e brutal tanto quanto afetuosa, a mãe, doce e sensível, e um dos três filhos em particular, estão os temas da violência ou da abertura à graça patentes em cada ser humano.

«Escolhe a vida» (Deuteronómio 30, 19), parece sussurrar a voz off aos personagens, todos admiravelmente interpretados. Neste tempo de Quaresma, “A árvore da vida” convida-nos a usar a nossa liberdade, sede da nossa dignidade, para recusar o mal e escolher a porta estreita que conduz ao Reino, à imagem da cena final, transtornadora.

Confesso
Alfred Hitchcock (1953)

No Quebeque, um homem revestido de sotaina assassina um advogado por motivo de dinheiro, e confessa o crime a um sacerdote. Aos poucos, o P. Logan observa os olhares que se voltam para ele. É suspeito de ter assassinado o advogado. Ao optar por não trair o segredo da confissão, não denuncia o culpado.

Julgado e absolvido por falta de provas, o P. Logan vai defrontar-se com um tribunal bem mais temível: o de uma multidão em ódio que só o quer linchar. Tentado pela violência, sem qualquer recurso humano face à explosão do mal, o sacerdote vive um caminho de cruz que sublinha com radicalidade a questão da escolha do bem contra o mal, tema subterrâneo que irriga toda a obra do mestre do suspense educado por jesuítas.

Diário de um pároco de aldeia
Robert Bresson (1951)

Adaptação do romance de Georges Bernanos, publicado 15 anos antes, a terceira longa-metragem do realizador marca a confirmação do seu estilo: recusa de toda a expressão dramática ou mesmo psicológica, prioridade absoluta ao corpo, especialmente aos rostos, para dizer o invisível, a alma, na permanência do ser, e o seu segredo existencial.

O cineasta faz uma opção radical de fidelidade ao texto, negando-se a transformar em diálogo a voz interior do pároco. A encenação é de uma austeridade sem precedentes, que se reflete também na supressão de cenas e personagens anexas, dando prioridade ao essencial.

O filme é uma figura da agonia de Cristo, que não é nem dolorista nem masoquista, mas humana. Ao juntar-se à agonia de cada ser humano, ao visitar a humanidade na sua aflição ontológica, Cristo abriu a via à passagem da graça, ou seja, à alegria e à plenitude. O cinema de Bresson mostra-o melhor que muitos discursos.

Dos homens e dos deuses
Xavier Beauvois (2010)

É uma história de amor. De amor por um país, de amor pelos seres humanos. Uma história contada rente à vida monástica, se assim se pode dizer. Ao mais próximo possível do quotidiano desta comunidade de Tibhirine, na Argélia, formada por nove religiosos. Os cantos, os estudos, o trabalho ritmam as cenas.

Antes que o caos do mundo sacuda este mosteiro do Atlas, antes que a violência irrompa, o realizador reserva tempo para emergir o espetador numa realidade ao mesmo tempo bela e normal: a harmonia que reina entre monges e povoação, entre cristãos e muçulmanos.

Depois, quando a ameaça se perfila, jogam-se a dúvida e o medo de homens que se interrogam sobre o seu compromisso e sobre o sentido da sua possível morte, testemunhada pela sublime sequência da sua última refeição, impregnada pelo pungente “Lago dos cisnes” de Tchaikovski. Evocativa da Ceia, a câmara detém-se em cada rosto, revela um tempo suspenso para a eternidade, onde cada olhar tem em si as lágrimas da alegria perfeita. Alegria do coração em paz, que se dá até ao fim.

O Evangelho segundo São Mateus
Pier Paolo Pasolini (1964
)

Marxista, ateu, homossexual, o escritor e cineasta italiano não foi feito para o cinema edificante. No entanto, a sua adaptação escrupulosa do Evangelho segundo Mateus é de uma grande verdade espiritual. A escolha de Mateus, assimilado ao coletor de impostos Levi, não é inocente: é o texto evangélico mais severo contra os ricos e poderosos.

Interpretado por atores não profissionais, o filme não procura reconstituir uma Palestina do tempo nem propor um Jesus icónico ou ultrarrealista. Mas esta representação da vida de Jesus é resolutamente verdadeira, recusando todo o efeito espetacular. O sermão da montanha concentra-se no rosto de Cristo, mostrando a importância da Palavra. E a crucificação evita todo a emoção intensa, sendo filmada de longe. Como no texto evangélico, o autor não se demora nela. O importante não é o que se pode mostrar, mas o que diz da morte e da vida.

A festa de Babette
Gabriel Axel (1987)

Numa pequena povoação dinamarquesa, duas irmãs celibatárias de corações feridos acolhem como criada Babette Hersant, francesa em fuga da Comuna de Paris. Durante 15 anos, ela vai servir as duas mulheres austeras na casa de quem encontrou refúgio, até ao dia em que ganhou uma considerável quantia na lotaria. Ela propõe-se então organizar uma grande refeição para doze convivas, durante a qual se abrirão não só os palatos, mas também os corações e as almas.

Já não foi tudo dito e escrito (a começar pela ementa, dissecada e comentada) sobre esta obra-prima, adaptada de um romance de Karen Blixen? Apogeu de profundidade humana e espiritual? Longa-metragem sobre o perdão? Evocação subtil da Eucaristia? Apesar de não haver uma mensagem explicitamente cristã, Babette é uma figura crística.

É um dos filmes preferidos do papa Francisco, que escreveu sobre ele na exortação apostólica “Amoris laetitia” (considerado o primeiro caso de um filme citado em referência num documento magisterial): «As alegrias mais intensas da vida surgem, quando se pode provocar a felicidade dos outros, numa antecipação do Céu. Vem a propósito recordar a cena feliz do filme “A festa de Babette”, quando a generosa cozinheira recebe um abraço agradecido e este elogio: “Como deliciarás os anjos!”».

O filho
Jean-Pierre et Luc Dardenne (2002)

Olivier é formador de marcenaria num centro de reinserção, que recebe para estagiar um jovem que foi preso pela morte do seu filho. Câmara ao ombro, os Dardenne seguem Olivier com quem fazemos corpo, ao mesmo tempo que se guarda certa distância.

Mesmo se os realizadores deixam uma total liberdade de apreciação ao espetador, pode ler-se este filme como uma redenção pelo perdão. À medida que os planos se sucedem, a narrativa transforma-se em “thriller” metafísico, cuja cena da perseguição é um cume. Enquanto ateus, os Dardenne levam o tema a sério; enquanto cineastas, sabem que só se podem filmar corpos. Mas de uma tal maneira que o indizível e o invisível aparecem no ecrã. Numa palavra, a graça.

A ilha
Pavel Lungin (2008)

Nas vastidões glaciais e atapetadas de neve de uma ilha russa, vive um monge à mercê dos seus demónios interiores, devido a uma terrível falta cometida há anos, e que desde então assedia o seu espírito. Murmurando ao longo de todo o dia a oração do coração, suplicando de Deus a sua misericórdia, este homem confia um dia ao seu superior: «Os meus pecados ardem-me».

Incompreendido pelos seus irmãos ortodoxos, este louco em Cristo conceituado pelos seus dons de cura e de predição, lê dentro das almas, descobre e expulsa os maus espíritos, apazigua os corações. O mundo exterior aflui a este monge livre, radical, de palavra cortante. Na sua comunidade, só o superior adivinhará a santidade deste homem cuja existência terrestre foi um longo purgatório. Um combate espiritual permanente. Um caminho de cruz lúcido e humilde, inteiramente voltado para Cristo.

O lado selvagem
Sean Penn (2007)

Christopher McCandless sonhava com o absoluto e morreu. A sua história verdadeira foi levada ao cinema após ter sido um apaixonante livro de John Krauker. Estudante brilhante, com o diploma no bolso, Christopher oferece os seus 24 mil dólares de economias a uma ONG e opta por uma vida de vagabundo. Renomeia-se “Supertramp”, em referência aos sem-abrigo empurrados para as ruas por causa da miséria, mas também aos vagabundos celestes de Kerouac em busca de aventura espiritual. Ele, o fedelho idealista, aspira à liberdade, multiplica os pequenos empregos e as amizades, mas recusa todo o apego. Deseja uma natureza virgem e saudável para viver como eremita. Em abril de 1992, lança-se sozinho no coração do Alaska. A sua aventura extrema pretende ser um renascimento. Será uma lenta agonia.

Sean Penn eleva Chris ao nível de mito. Mas a odisseia não se resume aos grandes espaços e a uma orgulhosa fuga do mundo. O filme é marcado por encontros e partilhas, que falam da necessidade de relações humanas fraternas e autênticas, libertas de todo o cálculo materialista. E a história, finalmente, encontra a sua razão de ser nestas escassas palavras traçadas por Chris antes da sua morte: a felicidade só existe quando partilhada.

Luz de inverno
Ingmar Bergman (1963)

Três horas da vida do pastor luterano Thomas Ericsson, exposto a uma crise de fé, no coração do inverno sueco. Enquanto Martha, professora da povoação, o persegue com o amor ao qual ele não sabe responder, Thomas é interpelado por um paroquiano em grande depressão e provado pela dúvida. Mas Thomas não lhe consegue oferecer mais do que o seu próprio vazio espiritual. Após o encontro, o paroquiano suicida-se.

De um minimalismo radical, “Luz de inverno” é sem dúvida um dos filmes mais conseguidos de Bergman. A cena da carta de Martha a Thomas, filmada com um longo grande plano sobre a mulher a ler, é um apogeu. E a cena do fim, em que o sacristão vem humildemente dar a sua palavra ao pastor submergido pela acédia é de uma densidade espiritual rara. Ao comentar a Paixão de Jesus como sofrimento físico, psíquico, mas sobretudo espiritual, o sacristão mostra que a pessoa simples sabe mais do que o clérigo, ao compreender que sem amor, a fé, como a vida humana, é impossível, e até infernal.

Ordet
Carl Theodor Dreyer (1955)

Johannes é o segundo filho de Morten Borgen, camponês de Jutland. Atingido por uma forma de loucura mística, fala como Jesus (“Ordet”, em dinamarquês, significa a palavra). Num mundo menos unanimemente luterano que antes (o irmão mais velho, Mikkel, é ateu), ele é um ser à parte, pregando no vazio nas paisagens à beira-mar dinamarquesas glorificadas pelo preto e branco do realizador.

A morte de Inger, filha de Mikkel, proporciona a ocasião a Dreyer de filmar uma das mais impressionantes cenas da história do cinema. A pequena Meren, filha da defunta, toma o seu tio pela mão e leva-o para o leito mortuário. Ali, Johannes pronuncia as palavras crísticas: «Dá-me a Palavra… Inger, em nome de Jesus Cristo, levanta-te». Inger retoma a vida, e o seu marido a fé. Aquele que era louco comprovou-se como o mais sábio.

Só ele acreditou na força da Palavra. Como João Batista, bradou no deserto. Como João, o discípulo muito amado, acreditou na força do Verbo. E manifestou que a vida depende unicamente desta Palavra, que é a Vida em plenitude.

A Paixão de Cristo
Mel Gibson (2004)

É sem dúvida um dos filmes mais discutidos. Duas horas de tortura e suplício. Mostrando as doze últimas horas da vida de Jesus na terra, do monte das Oliveiras ao Gólgota, o realizador não economiza nenhum detalhe sobre a agonia do Filho de Deus. O espetador é como que embarcado com Ele, entre sequências de flagelação, câmara apontada para o seu corpo ferido, e sevícias. Através deste tratamento hiper-realista, Mel Gibson quis que quem assiste ao filme tome consciência de que foi por ele que Cristo sofreu.

Edificante e perturbante para alguns, super-violento para outros, o filme – de que se anuncia uma continuação, centrada na ressurreição – suscitou vivas polémicas. «A opção por isolar a Paixão da vida e da pregação de Cristo por um lado, e das narrativas sobre o Ressuscitado por outro, diminui a mensagem dos Evangelhos de maneira problemática. (…) Se o filme recorda cruamente a atrocidade dos suplícios sofridos e a morte na cruz, fá-lo com uma complacência chocante no espetáculo da violência. Esta violência, que submerge o espetador, acaba por ocultar o sentido da Paixão e, mais amplamente, o essencial da pessoa e da mensagem de Cristo: o amor levado à perfeição no dom de si consentido», observou a Conferência Episcopal Francesa.

Stromboli
Roberto Rossellini (1950)

Como epígrafe do filme, o realizador escolheu esta passagem do capítulo 65 de Isaías: «Eu estava à disposição dos que não me consultavam, saía ao encontro dos que não me procuravam». Karen, refugiada lituana, é internada num campo, por ter sido amante de um oficial alemão durante a guerra. Casa-se com um pescador da ilha de Stromboli para sair do campo, mas o único propósito dela é sair da ilha. Para esse efeito, ela tem de aceder a uma povoação costeira passando junto ao terrível vulcão. Perdendo-se na noite, implora o auxílio de Deus no termo de uma longa subida ao calvário.

Ao filmar uma heroína que nada tem de figura mística, e cujo vazio interior se torna cada vez mais abissal à medida que o filme avança, o realizador despoja a atriz Ingrid Bergman de toda a psicologia para encontrar uma alma nua onde a graça pode finalmente passar, pois nada há mais que lhe faça obstáculo. Para Éric Rohmer, “Stromboli” é o filme da «miséria do homem sem Deus».

Anne-Laure Filhol, François Huguenin, Frédéric Theobald
In La Vie
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Nick Julia/Bigstock.com