Casa comum | Por uma ecologia integral


Pe. João Santos*

* A encíclica Laudato Si’ foi publicada, pelo Papa Francisco, no dia 24 de maio de 2015, replicando-se, no seu título, o «LAUDATO SI’, mi’ Signore – Louvado sejas, meu Senhor», recolhido do ‘Cântico das criaturas’ de S. Francisco de Assis [1181/2-1226] 

Introdução

Celebramos recentemente* o décimo aniversário da publicação da Encíclica Laudato Si’, documento marcante do pontificado de Francisco. Este documento teve reconhecidamente um impacto global. Esta obra, cujo centro conceptual é a Ecologia Integral, apresenta uma abordagem teológica sobre a crise ecológica. Aqui o Papa, de forma bastante transversal, diagnostica e procura refletir sobre o modo como a Igreja e as religiões podem contribuir para superar esta situação, a qual, considera, não se pode apenas resolver intervenções técnicas, mas tem de ter uma especial atenção aos paradigmas de socialização, como a arte, a poesia, a vida interior e a espiritualidade (cf. Francisco, Laudato Si’, 63). Tatay Nieto, professor na Universidade de Comillas, afirma que este documento foi muito bem acolhido no meio científico e ecologista, com a vantagem de introduzir conceitos teológicos na praça pública, criando uma oportunidade para o diálogo cristão com a sociedade ocidental, e convocando as comunidades cristãs para uma conversão ecológica, mediante o serviço de proteção aos mais pobres e ao cuidado da criação[1].

São várias as análises que nascem deste documento, as quais incluem diferentes perspetivas. Neste sentido, desenvolvemos aqui a temática do cuidado da criação como uma vocação da humanidade. De facto, a palavra vocação é de origem teológica, designando um chamamento de Deus feito a uma pessoa ou a um Povo. Todavia, esta palavra é atualmente das mais carregadas de tensão entre a Igreja e o Mundo[2]. Com efeito, o seu uso é igualmente muito difundido na psicologia e pedagogia, designando uma forma de vida à qual o indivíduo melhor se adapta, sendo o seu uso frequentemente aplicado no âmbito de escolha de uma profissão[3].

A raiz bíblica no entendimento de vocação

O tema da vocação no Antigo Testamento diz respeito, em sentido estrito, a uma acção de Deus que chama em vista de uma missão, como se verifica no caso dos profetas, acontecimento que transforma a consciência mais profunda dos seus destinatários[4]. Todavia, a vocação pode igualmente ser lida no âmbito de um chamamento de Deus, de forma mais geral, e nesse caso podemos incluir os relatos da criação, em que Deus dá o ser e chama todas as criaturas, e de modo especial o homem (adam) para dominar sobre os restantes seres (cf. Gen. 1, 26)[5]; neste sentido, o chamamento de Deus é criador, não só de novas identidades, mas de vida.

Ainda no âmbito do relato da criação, importa realçar, a partir do relato do Génesis, a vocação do homem ao cuidado, sentido presente na forma hebraica radah, usada para expressar o domínio do homem, expressão também utilizada na Sagrada Escritura para se referir ao poder do rei, cuja posição se traduz em cuidador do povo e não seu explorador[6]; como é óbvio, e para sermos rigorosos, este entendimento nasce da exegese recente, motivada pela atual questão ecológica, e não inclui o desenvolvimento histórico da hermenêutica desta expressão.

A temática da vocação no Novo Testamento ultrapassou o âmbito do chamamento para uma dada missão pessoal para um âmbito comunitário. A consciência de vocação é intrínseca à Igreja nascente, como atesta a etimologia da palavra grega ekklesia, ou seja, aquela que é chamada. Este chamamento constituiu a Igreja como um Povo Santo, como atesta Paulo aos cristãos de Roma ou de Corinto (cf. Rom 1, 1.7; 1 Cor 1, 1s), chamado por Cristo a uma nova forma de vida[7].

A Primeira Carta aos Coríntios é de singular importância para o nosso estudo sobre o entendimento cultural de vocação, em especial o trecho 1 Cor 7, 17-24, onde São Paulo apresenta a vocação à vida cristã. Neste, o Apóstolo explica como articular o chamamento à vida cristã, graça recebida de Cristo por eleição divina no Baptismo, e o estado de vida da pessoa antes de se integrar na Igreja. No versículo 20, São Paulo recorre a palavras da mesma família de klēsis – que designa a vocação ou chamamento –, embora com formas diferentes, implicando sentidos distintos, explicando como o chamamento à fé (eklēthē), não é motivo para mudar a forma de vida (klēsei) em que a pessoa já se encontra.

Este aspeto tem levado os exegetas a comentarem o texto de modo muito diverso. Alguns consideram que São Paulo emprega a palavra klēsis, tanto no sentido de chamamento divino, como no sentido de exercício de profissão ou estado civil; esta explicação causa estranheza, uma vez que assim sendo, esta seria a única vez em que o Apóstolo recorreria a esta palavra com um sentido que não o de chamamento divino; por este motivo, Christiane Frey considera que é apenas à luz do chamamento divino que pode entender um chamamento humano[8]. Todavia, este entendimento é discutível e representou na história da cultura religiosa um ponto de divergência entre teologias, em especial aquelas com alcance político e constituiu um ponto de divergência entre tradições católica e protestante.

A transformação semântica da palavra “vocação” e seu impacto social

A transformação e impacto social da transformação semântica da palavra vocação e seu impacto no desenvolvimento social foi tema da investigação de Max Weber, na sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo.

No evoluir da tradição católica, a palavra vocação foi, regra geral, usada restritivamente para designar a vida religiosa e sacerdotal. Todavia, Weber recorda que Lutero, ao fazer a tradução da Primeira Carta aos Coríntios, traduz o estado de vida ou profissão como Beruf, expressão alemã para designar vocação, anteriormente aplicada exclusivamente ao âmbito consagrado. Deste modo, Lutero considera o exercício do trabalho no mundo como lugar de cumprimento da vocação e rejeita a valorização da vida religiosa[9].

Com esta tradução, Lutero introduziu um espaço para uma nova interpretação da ação humana no mundo, pois até esse momento, na cultura germânica, a ordem social era designada por Stand e o trabalho individual (officium) por Dienst, sendo Beruf ou Berufung aplicadas unicamente à vida monástica[10].

Esta tradução, com um acento secularizante, constitui segundo Weber, um dos motivos pelos quais a vida monástica é praticamente inexistente no protestantismo, uma vez que Lutero falará de uma vocação espiritual a acontecer mediante o trabalho[11], de carácter exterior[12], em que a vivência dos conselhos evangélicos monásticos e ascese correspondente, é transformada no cumprimento dos deveres laborais[13].

É neste contexto que o contributo de Max Weber se torna importante para o nosso estudo. Este comenta como esta significação religiosa da atividade laboral, baseada num novo entendimento de Beruf, transformou a cultura dos povos protestantes. Desta sociedade emergiu uma nova consciência escatológica; enquanto que no catolicismo a ocupação mundana não era muito relevante para o Reino dos Céus, a afirmação luterana da concretização da vocação pelo trabalho, desenvolveu uma consciência religiosa, em que a atividade laboral é o lugar concreto que Deus dá a cada um para cumprir a sua missão, entendimento que foi ampliado por Calvino pela doutrina da predestinação, e que, segundo Weber, colocou uma base religiosa importante para a emergência do capitalismo[14].

Ao se afirmar o exercício do trabalho como vocação (Beruf), e ao se tomar o seu sucesso como aferidor da bênção divina, desenvolveu-se uma cultura que encara o trabalho, não apenas como uma parte da vida, mas como objetivo em si próprio, levando a que se deva procurar lucro cada vez maior, na medida em que o sucesso laboral é aferidor da bênção divina[15].

Este modelo de acção económica acentuou modelos de desenvolvimento que visavam cada vez maior produção, assumindo que a distribuição desigual de bens era um sinal da bênção de Deus a cada um, ao mesmo tempo que defendia uma limitação aos valores dos salários a pagar, para estimular os funcionários a quererem trabalhar de forma comprometida[16].

Max Weber, no século XIX, no contexto da crise social gerada pela massificação da revolução industrial, constata que já se tinha perdido muito do espírito inicial de Lutero, tendo permanecido uma cultura da acção e de procura do lucro, cujo impacto sobre a criação e vida social, o próprio descreve[17]:

O puritanismo queria ser um homem de profissão – nós temos de o ser. O ascetismo, ao ser transformado das celas conventuais para a vida profissional, começou a dominar a ética secular e deu o seu contributo para a formação do poderoso cosmos da ordem económica moderna; esta, vinculada às condições económicas e técnicas da produção, com uma força irresistível, determina hoje o estilo de vida, não apenas da população ativa, mas de todos os indivíduos que nascem dentro desta engrenagem. E provavelmente, isto poderá continuar a acontecer até que o último quintal de combustível fóssil seja queimado.

No final desta obra, Weber alerta, que a perda do espírito religioso deste modelo de desenvolvimento, levaria a um estilo de vida em que os homens seriam «especialistas sem espírito, folgazões sem coração: estes nadas pensam ter chegado a um estádio da humanidade nunca antes atingido»[18]; e ainda que o próprio peça para não empolar a sua expressão, o facto é que estas palavras têm atualidade, as quais previam, em certo modo, não só as injustiças sociais, mas também o uso exagerado dos recursos do planeta, causadora e perturbador da “Casa Comum”[19].

Como veremos de seguida, a teologia católica irá integrar em si este novo sentido de vocação, já não restrito da vida consagrada – algo que já acontece no Concílio Vaticano II -, precisamente para explicitar o chamamento de cuidado da criação, algo que a Laudato Si’ desenvolve de modo muito aprofundado.

O uso do conceito de vocação na encíclica Laudato Si’

Neste contexto, pretendemos explorar este documento pontifício de modo a salientar como Francisco aborda a vocação da humanidade a viver nesta “casa comum”, dando-lhe um sentido, não segundo uma leitura católica tradicional de vida religiosa, mas aplicando o conceito de vocação à forma de viver no mundo. A sua abordagem não é inteiramente nova, uma vez que já João Paulo II o tinha feito, na mensagem do Dia Mundial da Paz em 1990, ao afirmar a nobreza da vocação da humanidade em participar de modo responsável na acção criadora de Deus (cf. João Paulo II, Paz com Deus Criador, Paz com toda a criação, 6; Francisco, Laudato Si’, 131). Este aspecto, longe de constituir fonte de polémica, reflecte que o uso do conceito de vocação é relido segundo uma antropologia bíblica da criação, segundo o qual a humanidade recebe um chamamento. Aliás, a Igreja Católica Austríaca, na tradução que fez deste documento do Papa Polaco, identifica esta vocação como “berufung[20], sinal preciso deste entendimento, em meio germânico, da vocação de cuidador como sendo de eleição divina. Neste contexto, a vocação ao cuidado da terra, segundo uma antropologia bíblica e cristã, pode constituir uma forma de diálogo com o mundo secularizado.

A Encíclica Laudato Si’ permite refletir sobre a vocação da humanidade na casa comum, sendo possível salientar uma dimensão antropológica e uma dimensão ética, campos que embora se possam distinguir formalmente, não se podem separar.

A vocação humana no cuidado da criação na Encíclica Laudato Si’

O Papa Francisco apresenta uma visão de ecologia integral assente numa perspetiva bíblica, na qual assume o lugar singular da humanidade da criação como cuidadora e não segundo uma radical igualdade do ser humano com os restantes seres (cf. Francisco, Laudato Si’, 90)[21]. Todavia, a superioridade do ser humano, como expressa o mandato do Génesis (cf. Gen 1, 28) e já analisado anteriormente, traduz-se num cuidado para com os restantes seres vivos e criação, que recebemos como dom (cf. Francisco, Laudato Si’, 89).

Este cuidado é ainda marcado de modo mais vincado quando nos referimos aos mais pobres, aspecto sublinhado pelo Papa Francisco, que sustenta que a igual dignidade da condição humana se traduz biblicamente na possibilidade de comunhão e de amor, e não na capacidade de posse (cf. Francisco, Laudato Si’, 66. 90). Este argumento é especialmente importante quando lido no nosso estudo. De facto, constatamos como o puritanismo defendia uma procura cada vez maior do lucro como resposta à vocação dada por Deus para o exercício da profissão e que via na possibilidade de acumular muitos bens um sinal de bênção divina; e ainda que se defendesse a sobriedade como estilo de vida, em virtude do dinheiro não ser para esbanjar, não se apresentava como esse capital era usado em cuidado dos mais pobres. Pelo contrário, Francisco afirma a tradição da Doutrina Social da Igreja, que defende que valor do destino universal dos bens da terra é maior que o do direito de posse (cf. Francisco, Laudato Si’, 93-95). Esta consciência reflecte como o exercício da actividade humana, e neste caso a laboral, não se pode restringir ao campo do lucro, mas na visão da Laudato Si’, remete para uma vivência em comunhão.

Esta consciência é um ponto central da reflexão antropológica nesta Encíclica, na medida em que é apresentada como vocação da humanidade a comunhão com Deus, com o próximo e com a terra. Aliás, de acordo com o relato do Génesis, o ser humano é chamado a ser guardião da criação (cf. Gen 1, 28; 2, 15), algo que o Papa apresenta explicitamente como «vocação» (Francisco, Laudato Si’, 217), e toma como dimensão essencial numa existência virtuosa, que nasce do encontro com Cristo, dando como exemplo São Francisco (cf. Francisco, Laudato Si’, 66); em sentido oposto, é também afirmado que a falta de comunhão do humano com os restantes seres é motivada pelo pecado e não por desígnio divino.

Para a humanidade poder viver a vocação de guardiã da criação (cf. Francisco, Laudato Si’, 217), é necessária uma conversão ecológica (cf. Francisco, Laudato Si’, 217), ou conversão de coração e renovada espiritualidade (cf. Francisco, Laudato Si’, 218. 226), que reconheça a comunhão com o mundo criado (cf. Francisco, Laudato Si’, 220) e que transforme o paradigma da correria do consumismo e do individualismo em sobriedade, alegria e paz (cf. Francisco, Laudato Si’, 222-227). Este caminho de espiritualidade é descrito por Francisco como um caminho de vocação que leva à união com Deus, pelo exercício do amor, vivido também no âmbito também civil e político (cf. Francisco, Laudato Si’, 231. 238). Francisco coloca que para a conversão acontecer, urge mudar a forma de agir, a qual se encontra enraizada num paradigma tecnocrático desordenado que tende a substituir o trabalho humano, aspecto que nos remete para a análise ética, que trabalhamos de seguida.

A dimensão ética da vocação humana no cuidado da criação na Encíclica Laudato Si’

Como já compreendemos a Sagrada Escritura permite defender uma superioridade da humanidade na criação. Todavia, na raiz da actual crise ecológica está o antropocentrismo moderno, que ao exacerbar a técnica, conduziu a uma situação que debilita o valor intrínseco da criação, alheando o homem do dom que lhe foi confiado, levando ao surgimento de uma imaginação, na qual ele se toma como senhor absoluto, substituindo o lugar de Deus, e criando condições para o desprezo do valor da vida humana em si, como no caso do aborto (cf. Francisco, Laudato Si’, 115-116. 120).

Segundo Francisco, o antropocentrismo desordenado conduziu a um consumismo obsessivo, apresentado mediaticamente como uma forma de liberdade, em que uma elite minoritária propõe (ou impõe) uma série de objectos comuns à sociedade, mediante a sugestão da suposta necessidade desta os ter, suscitando um comportamento social de consumismo, que acentua uma lógica de produção com elevado impacto no meio ambiente (cf. Francisco, Laudato Si’, 203-204). Como tal, é fundamental que haja uma conversão ecológica, mudando hábitos de consumo para fazer alterar modelos de produção, superando o individualismo, mas sobretudo desenvolvendo uma maior consciência de acolhimento ao outro (cf. Francisco, Laudato Si’, 206. 208).

O exercício do trabalho, tema particularmente importante no âmbito protestante e tomado como Beruf, foi perdendo o carácter de eleição divina em virtude do acentuar da deterioração das condições de trabalho. O tema do trabalho foi abundantemente já reflectido em pontificados anteriores a Francisco e na Doutrina Social da Igreja; todavia, constitui lugar importante na reflexão sobre a vocação humana nesta Encíclica, sinal da necessidade do nosso tempo encontrar caminhos de cultura salutar para a sua vivência.

Um dos pontos mais relevantes nesta temática vocacional é o exercício do trabalho e a proposta de alteração do modelo de desenvolvimento económico, pois este deve centrar-se na dignidade do ser humano, que impede que este seja reduzido a um objecto produtivo (cf. Francisco, Laudato Si’, 81). O trabalho constitui uma vocação para a humanidade, afirma o Papa, partindo não da Primeira Carta aos Coríntios como Lutero, mas do plano original de Deus na criação (cf. Francisco, Laudato Si’, 128); a par desta afirmação, Francisco descreve igualmente a actividade empresarial como nobre vocação para produzir riqueza e melhorar as condições de vida, por exemplo pelo aumento do emprego (cf. Francisco, Laudato Si’, 129). O trabalho aqui entendido pressupõe «qualquer actividade que implique alguma transformação do existente» (Francisco, Laudato Si’, 125), sendo necessário a contemplação e respeito pela criação, sob pena de se desfigurar o seu sentido, com vista ao desenvolvimento pessoal integral, onde possam ser integradas muitas dimensões da vida: «a criatividade, a projecção do futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercitação dos valores, a comunicação com os outros, uma atitude de adoração» (Francisco, Laudato Si’, 127). Esta lógica faz brotar uma concepção de trabalho como caminho de realização e não de opressão por outrem.

Como é evidente, não existe uma novidade absoluta nas afirmações de Francisco, mas é possível constatar como a crise ecológica actual levou a que se aprofundasse a relação íntima entre a terra e o homem, sendo de crucial importância o relato bíblico das origens, o qual não foi suficientemente tido em conta na história da Igreja Católica[22].

É interessante constatar que o Papa não exclui a necessidade de um desenvolvimento permanente, mas rejeita o paradigma tecnocrático, que promove um modelo de desenvolvimento homogéneo, unidimensional, globalizante e massificante e acentua a degradação do ambiente. Este modelo reduz também as capacidades humanas de criatividade, da capacidade de decisão e de liberdade (Francisco, Laudato Si’, 106.108), o qual se centraliza no lucro e leva a dinamismos de exclusão dos mais pobres e frágeis, temas que surgem na análise de Weber, que identificava a extinção de formas de trabalhos mais simples por pressão das mais capitalistas, e impunha novos modelos sociais, fazendo que os camponeses se tornassem operários[23]. Nesta linha, Francisco coloca a necessidade de se colocarem limites ao desenvolvimento técnico e científico, quando atentam contra a dignidade humana e a sustentabilidade, sendo necessária uma revolução cultural que faça mudar o modelo actual (Francisco, Laudato Si’, 114).

Deve-se também reconhecer que o modelo económico actual evolui cada vez mais depressa, numa «rapidación» (Francisco, Laudato Si’, 18) no sentido de uma automatização do trabalho, dispensando empregados sempre que possível, numa lógica de mercado de competição para fazer baixar preços para atrair consumidores. No fundo, é aos consumidores finais que pertence a opção de escolher, ainda que estes sejam induzidos a comprar por diversos mecanismos (cf. Francisco, Laudato Si’, 206).

Em forma de apelo, Francisco descreve uma vocação de cuidado para a humanidade:

Somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projecto de paz, beleza e plenitude. O problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos, procurando dar resposta às necessidades das gerações actuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras. (Francisco, Laudato Si’, 53).

Esta leitura da vocação da humanidade insere-se numa cultura de cuidado a construir, na qual, segundo Francisco, os cristãos devem contribuir mediante a sua acção no mundo, em favor de uma casa comum. É evidente que o uso presente do conceito de vocação por Francisco é de acção no mundo, tendo pouco a ver com a vocação religiosa. Não podemos deixar de sublinhar que o uso de uma categoria de vocação, como chamamento divino para o cuidado da criação, sendo biblicamente fundamentado, é uma opção ousada e consciente da necessidade clara diante de uma emergência ecológica. Esta posição é extremamente relevante, pois o acentuar de uma vocação divinamente inspirada para o exercício de uma profissão em vista de um lucro cada vez maior foi certamente um factor cultural importante no modelo de desenvolvimento económico que Francisco contesta.

Conclusão

Celebrar os 10 anos da encíclica Laudato Si’ é uma data marcante na vida da Igreja e na forma como esta contribui para a crise ecológica, a qual é também uma crise social.

Neste contexto desta encíclica, compreendemos como o entendimento de vocação foi aceite na sua transformação mais secularizante e menos indicativa de um chamamento religioso de consagração. Aliás, tal parece ser o espírito bíblico do lugar da humanidade no plano original de Deus.

É precisamente este o uso de vocação que ocorre na Laudato Si’ e que nos leva a refletir sobre o mandato divino de sermos cuidadores da criação, independentemente do credo professado.

Esta vocação estende-se igualmente ao valor do trabalho — aspeto de singular importância, dada a nossa análise de Beruf — sendo que Francisco sustenta esta afirmação no relato das Origens e não na Primeira Carta aos Coríntios.

Todavia, o exercício do trabalho e da produção está intimamente ligado aos padrões de consumo, os quais tendem, na sociedade atual, não só a massificar e eliminar os sectores mais pequenos, mas também a substituir o trabalho humano por automação — algo que Francisco rejeita, por privar as pessoas de viverem a sua vocação ao trabalho.

Neste sentido, faz parte da vocação empresarial — considerada nobre atividade — promover a sustentabilidade e a vocação humana ao trabalho, sem se deixar enredar por critérios de lucro absoluto, aspeto que atenta contra a dignidade humana e que podemos interpretar implicitamente como uma rejeição absoluta de uma vocação humana centrada no lucro.

Por fim, partindo da Laudato Si’, podemos descrever a vocação ao cuidado como uma resposta de gratidão a Deus, a ser cultivada numa espiritualidade salutar e integrante de uma vida virtuosa — aspeto que, a nosso ver, constitui uma oportunidade de diálogo e de anúncio evangélico para a Igreja, por tocar uma realidade comum à humanidade, abrindo portas para uma maior fraternidade e amor social.

Como tal, vemos, nesta encíclica, o Papa Francisco a associar o cuidado da criação a uma vocação, a qual se alimenta de uma espiritualidade própria, com implicações seculares, tanto nas relações fundamentais como na atividade humana sobre a criação. E esta é a herança que fica assumida na encíclica, que agora celebra os 10 anos da sua publicação.


[1] Cf. Jaime Tatay Nieto, «De la cuestión social» a la «cuestión sócio-ambiental» em Enrique Sanz Giménez-Rico, Cuidar de la Tierra, cuidar de los pobres: Laudato si’ desde la teología y con la ciencia (Santander: Sal Terrae, 2015), 181-184.

[2] Cf. Christiane Frey, «Κλη̃σις/Beruf: Luther, Weber, Agamben», New German Critique 35, n. 3 (2008): 35, https://doi.org/10.1215/0094033X-2008-012.

[3] Cf. A. Ferraz, «Vocação» em Enciclopédia Luso-Brasileira da Cultura. Vol. 18 (Lisboa: Verbo, 1977), 1363.

[4] Cf. Jacques Guillet, «Vocação», em Vocabulário de Teologia Bíblica, ed. X. Léon-Dufour et al., (Petropolis, RJ: Vozes, 1972), 1099-100.

[5] Cf. Tullio Citrini, «Vocação (Teologia da)», em Dicionário de Orientação Vocacional, trad. por António Rocha e Porfírio Pinto, (Prior Velho: Paulinas, 2008), 1446.

[6] cf. James R. Peters, «Saint Augustine, Patron Saint of the Environment» em John Doody, Paffenroth, e Smillie, Augustine and the environment, 128.

[7] Cf. Jacques Guillet, «Vocação», 1101-2.

[8] Frey, «Κλη̃σισ/Beruf», 38.

[9] Cf. Max Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, trad. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Barcarena: Principia, 2001), 64-65.

[10] Cf. Frey, «Κλη̃σισ/Beruf», 43.

[11] Cf. Tullio Citrini, «Vocação (Teologia da), 1450.

[12] Cf. Jeffrey Scholes, «Vocation: Vocation», Religion Compass 4, n. 4 (abril de 2010): 212, https://doi.org/10.1111/j.1749-8171.2010.00215.x.

[13] Cf. Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 61.

[14] Cf. Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 61-66. Scholes, «Vocation», 212-3.

[15] Cf. Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 49. Ainda assim, Weber, que escreve esta obra no início do século XX, reconhece que a cultura predominante não reconhecia que a ligação destas atitudes fosse com o protestantismo, mas com o iluminismo (Cf. Weber, A ética protestantes e o espírito do capitalismo, 55).

[16] Cf. Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 153.

[17] Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 155.

[18] Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 156

[19] Jens Borchert, ao estudar a tradução norte-americana desta obra de Weber aponta precisamente a renitência dos seus tradutores, em traduzir Beruf por vocation, algo que acabou por suceder, tendo sido muito equacionado que esta fosse traduzida por profession, sinal de que este termo alemão tinha sido muito desvalorizado conceptualmente, indicando o desligar do trabalho e vocação. Cf. Jens Borchert, «From Politik Als Beruf to Politics as a Vocation», Contributions to the History of Concepts 3, n. 1 (1 de abril de 2007): 52, https://doi.org/10.1163/180793207X209075.

[20] João Paulo II, Paz com Deus Criador, Paz com toda a criação, 6,  https://www.katholisch.at/aktuelles/2017/01/09/botschaft-zum-weltfriedenstag-1990, acedido em 22 de Junho de 2022

[21] Cf. Rosi Braidotti, Lo posthumano, trad. Juan Vitale (Barcelona: Gedisa, 2015), 71-72.

[22] Na procura da raiz da crise ecológica é de destacar a intervenção de Bento XVI, que num encontro com o clero de Bolzano-Bressanone, em 2008, reconhecia que na história da Teologia, nem sempre se teve suficientemente em conta a teologia da criação, algo que pode ter contribuído para a crise ecológica (cf. Bento XVI, Encontro com o clero de Bolzano-Bressanone, 2008).

[23] Cf. Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 46-53.


* João Santos nasceu em Canedo, Santa Maria da Feira, 1981. Padre da Diocese de Aveiro. Em 1999, ingressou em Engenharia do Ambiente na Universidade de Aveiro, tendo concluído os estudos de licenciatura em Engenharia do Ambiente em 2004. Após algumas experiências profissionais, foi Bolseiro de Iniciação à Investigação em Aveiro e em Viseu, desde 2006, na área da saúde e do ambiente, tendo terminado o Mestrado em Engenharia do Ambiente pela Universidade de Aveiro em 2007, ano em que entrou para o Seminário. Em 2014, concluiu o Mestrado em Teologia. Em Julho de 2015, foi ordenado padre, tendo estado, desde então, ao serviço no Seminário de Aveiro, onde atualmente é o Reitor. É, desde setembro de 2024, Pároco da Branca e da Ribeira de Fráguas, no arciprestado de Albergaria-a-Velha.

Imagem de Gordon Johnson por Pixabay