Ter. Dez 7th, 2021
Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)

Carlos Costa Gomes*

  1. Peço à medicina e à enfermagem que apesar de empolgadas pela ciência biomédica, seduzida pela tecnologia e carregada de burocracia, nunca percam a face humana; nunca esqueçam cada pessoa que sofre. Pois por mais engenhos tecnológicos e novas terapias que se descobrem, ainda não descobrimos o modo tecnológico de aliviar e eliminar o sofrimento sem as virtudes éticas empatia, da compaixão e do amor pelo próximo.
  2. Numa das aulas recentes sobre ética e relação dos profissionais de saúde com a pessoa doente, falava aos estudantes das virtudes pessoais dos profissionais na prática clínica, entre elas o altruísmo e a coragem na medida em que o clínico com estas virtudes não renega a sua responsabilidade sempre que solicitado ainda que tenha de abdicar do seu conforto; bem como da heroicidade (dos clínicos ou não) quando envolvidos no trabalho humanitário.
  3. coragem e o altruísmo, não sendo valores absolutos, quando presentes no profissional de saúde conferem-lhe mais lealdade ao princípio ético responsabilidade, mais autenticidade à relação assistencial e mais despreendimento de si próprio e mesmo financeiro.
  4. Por fim alguém me perguntava sobre as questões éticas que se poderiam colocar face à epidemia (agora pandemia). Respondi: Na verdade, face a situações como esta que a sociedade está a viver, as questões éticas que se colocam no interior do clínico são: o que posso fazer e o que devo fazer! E vemos que ao longo da história os profissionais de saúde sempre trataram e cuidaram os doentes, mesmo aqueles que não podiam pagar; e sempre se expuseram ao contágio e ao dano físico para responderam ao apelo da pessoa doente.
  5. Sobre do COVID-19 cada profissional de saúde a questão ética – o que posso fazer saberá e poderá responder bem com base nos dados científicos que se conhecem sendo tecnicamente competente e humanamente prudente; mas perante a questão o que devo fazer, a problemática ética é outra, porque entramos não apenas na decisão pessoal de cada um, mas sobretudo tudo na tomada de decisão sobre o outro: isto é, quem vou tratar primeiro, com que critérios de seleção no sentido de quem vai ter ou não acesso ao ventilador e que não vai poder contar com ele.
  6. que devo fazer é de facto, neste cenário, a questão ética fundamental que nenhum profissional deseja colocar.
  7. Mas a todos eles a nossa homenagem e o nosso agradecimento pela coragem e pelo profissionalismo competente, como tem que ser, e pelas virtudes éticas pessoais que lhe outorgam a solicitude e compromisso ético no conselho prudente, na escuta atenciosa e afetiva e na dedicação aos que servem…
*Presidente do Centro de Estudos de Bioética
Professor e investigador do Instituto de Bioética da UCP | Membro da Academia ‘Fides et Ratio’
Imagem de Tumisu por Pixabay