Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)
Carlos Costa Gomes*
A bioética não é um poder que se impõe, é apenas um serviço que se presta e se oferece.
QUAL A RAZÃO DO SUCESSO DA PALAVRA BIOÉTICA?
Sem discorrer sobre o seu significado linguístico e semântico, que joga com a raiz BIOS acoplada ao termo ETHOS, porque tal análise está realizada embora na opinião de alguns autores não tenha contribuído muito para a explicação do neologismo e do seu sucesso. Pelo contrário, cada um que se encontra com este vocábulo apropria-se dele com a significância que lhe atribui.
Será que a bioética é, afinal, uma palavra que naturalmente despega uma ideia feliz?
Como escreveu Pessoa: “às vezes tenho ideias felizes. Ideias subitamente felizes, em ideias e nas palavras em que naturalmente se despegam.” (Álvaro de Campos)
Diremos que sim. A palavra Bioética despega uma ideia feliz. Não foi a palavra que fez a ideia, mas as ideias se albergaram na palavra (Walter Osswald).
Quando Potter falou de bioética como estratégia de sobrevivência humana e Hellegers como forma de humanizar dos cuidados de saúde, estas duas ideias felizes encontraram a palavras adequada para que se despegassem e fossem acolhidas com entusiamos, um pouco por todo mundo. (Daniel Serrão)
Para Potter, a bioética haveria ser uma nova disciplina científica, pois como investigador, só confiava na metodologia científica para alcançar resultados.
Para Hellegres, tinha que ser um debate da sociedade – e não apenas dos profissionais de saúde – sobre como usar as novas tecnologias científicas para o melhor bem das pessoas, sãs ou doentes.
Nem um nem outro tiveram um sucesso comparável ao sucesso da palavra bioética nos meios de comunicação social.
A bioética não veio a ser uma disciplina científica. Ela, para muitos é uma reflexão interdisciplinar, para outros, transdisciplinar. Também o debate de sociedade não foi muito longe e o que temos hoje é uma rotina de apoio a decisões dos profissionais de saúde cristalizadas em princípios formais, não raras vezes, desligados da realidade concreta da vida dos seres humanos.
Walter Osswald dá-nos um “Fio de ética” para que consigamos encontrar a saída neste labirinto de dúvidas que é o exercício de viver; o seu ensinamento é singular e estará sempre presente na reflexão bioética.
Daniel Serrão, no seu pensamento bioético, afirma que a pensar bioética é fruto da liberdade essencial do espírito humano que se exprime por uma atividade reflexiva e simbolizadora sobre a vida, em todas as sua manifestações e sobre o homem, em todas as suas dimensões.
O pensamento bioético não é subsumível à teologia, ou teologia moral (católica) a quem tanto deve, nem a sistemas filosóficos, políticos, ecológicos, económicos, jurídico ou outros. Mas deve dialogar com todos, respeita-os a todos, mas ocupa o espaço que lhe é próprio: o da reflexão racional, livre, bem informado e que procura a verdade que não a tem mas a ela aspira.
A bioética não é um poder que se impõe, é apenas um serviço que se presta e se oferece.