Sáb. Nov 27th, 2021
Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)

Carlos Costa Gomes*

  1. No passado dia 19 de outubro comemorou-se o dia mundial da Bioética. A origem desta nova área do saber ou “disciplina” surge em 1970 nos EUA por Van Potter e Hellgers. O primeiro proponha o saber bioético como uma ciência da sobrevivência, que combine o conhecimento biológico e dos sistemas de valores éticos, cujo objetivo era (é) sobrevivência do homem num mundo. A sua proposta visa construir um conhecimento novo de como usar o conhecimento novo. Por sua vez, o segundo autor, situa-se num plano médico no âmbito do desenvolvimento biotecnológico aplicado às ciências da saúde, particularmente a biomedicina. Dois modos diversos mas ambos complementares.
  2. O grande desafio deste século XXI, que nos coube habitar é, segundo Daniel Serrão, o de construir a paz universal e permanente. Que a par da ecologia natural se abra caminho para uma ecologia humana ou, no dizer de João Paulo II, numa “ecologia da pessoa humana” em que se desenvolva uma cultura e uma “civilização do amor”; que se abra outras dimensões que permitam, por exemplo, associar a eucaristia e bioética. Isto é, uma bioética capaz de lavar-os-pés, uma bioética de serviço e cuidado pelo outro.

O trabalho bioético, que é um diálogo transdisciplinar e interdisciplinar, realiza-se pela discussão de ideias e conhecimento de cada um envolvido neste diálogo. Por isso, a prática da bioética em Portugal pode, por vezes, não coincidir em nada ou apenas parcialmente, com uma determinada forma de agir num outro país. Porém, a Bioética como ética aplicada às ciências da “Vida” deve fundamentar e basear a sua decisão nos princípios da ética fundamental e não basear a substância da ética na decisão circunstancial.

A nossa esperança, na linha de J. Ladrière (filósofo da esperança) é de que a Bioética, na sua missão de revelar os prós e contras das opções, das escolhas e das regulamentações deve continuamente manter a sua relação com a verdade. Uma “verdade” que ela não possui, mas cujo desejo a habita e a inspira.

*Presidente do Centro de Estudos de Bioética

Professor e investigador do Instituto de Bioética da UCP | Membro da Academia ‘Fides et Ratio’

Imagem de PublicDomainPictures por Pixabay