Dom. Nov 28th, 2021

Aveirenses notáveis

António Campos Graça – fotógrafo do quotidiano aveirense

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

António Campos Graça (1903 – 1991) foi um fotógrafo amador que fotografou o quotidiano aveirense e que conseguiu reunir uma imensa coleção de fotos. O espólio de décadas enriquece agora o acervo documental da Câmara Municipal de Aveiro.

Filho de Manuel Rodrigues Dilalma Graça e de Maria Bárbara Campos, António Campos Graça nasceu no dia 23 de novembro de 1903, na então Rua da Sé, atual Rua Capitão João de Sousa Pizarro, em Aveiro, cidade onde faleceu, no dia 11 de fevereiro de 1991.

António Graça fez a sua instrução primária na antiga escola da Glória, tendo feito o exame do segundo grau, no dia 19 de agosto de 1915. Mais tarde, teve aulas de desenho com o pintor e arquiteto Francisco da Silva Rocha, concluindo o curso com bons resultados.

A par da formação escolar, aprendeu a arte de sapateiro, seguindo os ensinamentos práticos do seu pai, que era um conceituado sapateiro na cidade. Por isso, exerceu a profissão de sapateiro, numa oficina situada na Rua Domingos Carrancho, rua paralela aos “Arcos”, onde se tornou um mestre nesse ofício artesanal.

No dia 23 agosto de 1942, na Igreja de Nossa Senhora da Glória, António Graça casou com D. Gloriosa de Jesus.

Desde a juventude, António Graça foi um interveniente ativo na vida social aveirense, tendo participado na organização de inúmeras manifestações aveirenses. Integrou a comissão executiva do “Arraial de S. José” (1940) e elencos diretivos da Sociedade Recreio Artístico, da qual foi vice-presidente no mandato 1969-1970.

Em 1973, quando das comemorações do primeiro centenário do nascimento de D. João Evangelista de Lima Vidal, o primeiro bispo da restaurada Diocese de Aveiro, António Campos propôs ao executivo municipal aveirense a execução de uma medalha de bronze comemorativa dessa data, proposta que foi aceite.

Colecionador, músico, pintor e fotógrafo

António Graça investia parte das suas poupanças, obtidas exclusivamente da sua atividade de sapateiro, no engrandecimento do seu gosto pelo colecionismo, com destaque para porcelanas, livros e imagens antigas relacionadas com Aveiro.

O gosto pelo desenho e pela pintura ficaram dos tempos juvenis, tendo executado alguns quadros, entre os quais, duas pinturas que o seu filho, António José Campos Graça, ofereceu à autarquia aveirense, em outubro de 2009, quando proferiu uma palestra sobre o seu pai, integrada no ciclo de conferências “Aveirenses Ilustres”, realizada no Museu da Cidade, local onde os quadros ficaram expostos.

Outra paixão que cultivou desde novo foi o gosto pela música, o que o levou a ser músico executante da Banda Amizade e da Banda José Estevão.

No entanto, o que mais notabilizou António Graça foi a sua atividade como fotógrafo amador e colecionador de fotos antigas de Aveiro, espólio que foi mostrando em diversas exposições que realizou, desde 1959, ano em que fez uma extraordinária exposição integrada nas festas do Milenário de Aveiro no Teatro Aveirense.

Monsenhor João Gaspar apelidou-o de “o fotógrafo da história de Aveiro”. No livro “Aveiro Antigo”, catálogo da exposição de António Graça, realizada de 5 a 14 de outubro de 1984, no Salão Cultural da Câmara Municipal de Aveiro, Monsenhor João Gaspar refere: “António Graça tornou-se conhecido pelo seu passatempo preferido: captar pela fotografia pormenores e quadros citadinos, além de colecionar imagens obtidas por outros fotógrafos amadores seus amigos. Assim, ao longo de muitos anos, conseguiu juntar uma documentação que passou a ser motivo de cobiça. Muita coisa ele tem patenteado em exposições e mostras…”.

Numa entrevista que António Graça cedeu a Amaro Neves, em outubro de 1980, publicada no jornal “Litoral”, este historiador caracterizou António Graça, dizendo que “não foi homem de discursos, de debates jornalísticos, de intervenções políticas, mas não faltava sempre que o Património Cultural da sua terra estava ameaçado, captando, pela imagem, as características relevantes da vida e do urbanismo da cidade.

Espólio cedido à Câmara Municipal de Aveiro

Em 1984, quando da realização da referida exposição, António Graça “quis que o fruto do seu trabalho não se perdesse, mas que tal espólio se guardasse para proveito de Aveiro. Consequentemente, nas vésperas de encerrar aquela exposição, acordou com a Câmara Municipal de Aveiro, por intermédio do vereador da Cultura, a forma de confiar à Edilidade a sua valiosa coleção de fotografias”, escreveu monsenhor João Gaspar, no livro catálogo dessa exposição.

No texto de abertura desse livro catálogo, publicado em 1985, o então vereador da Cultura, Custódio Ramos, escreveu: “…prestando homenagem ao homem simples que despendeu o melhor da sua vida recolhendo e preservando imagens da sua terra, tal como a viu e amou, é o objetivo da edição ora efetuada sob a responsabilidade dos Serviços de Cultura da Câmara Municipal de Aveiro. Trata-se de uma seleção que contém alguns dos mais interessantes trabalhos da preciosa coleção de António Graça, hoje propriedade do Município”.

No entanto, o espólio fotográfico de António Graça era muito maior do que o acervo que então doou ao município aveirense, uma vez que a grande maioria das fotografias da sua autoria ainda permaneceram na sua posse, acervo que foi aumentando com as fotos que foi captando nos tempos posteriores à referida exposição, totalizando cerca de 15.000 fotografias.

Por isso, na palestra que proferiu, em outubro de 2009 em homenagem ao seu pai, António José Campos Graça referiu que estava a inventariar, catalogar e digitalizar toda essa documentação fotográfica.

Em novembro de 2020, o executivo municipal aveirense aceitou “o legado em testamento de António José Campo Graça (falecido a 20 de setembro de 2020), composto por espólio fotográfico com cerca de 9.400 imagens e 3.300 fotografias, as quais irão integrar a Coleção do Museu da Cidade”, conforme uma nota informativa da autarquia aveirense, que realça “o espólio fotográfico em questão provém do titular do legado, conjugando imagens suas e do seu pai, o reconhecido fotógrafo aveirense António Campos Graça. Este espólio é um forte contributo para o melhor conhecimento de Aveiro ao longo do século XX”.