ALIANÇA PROMETIDA
Pe. Georgino Rocha
O universalismo da aliança da criação concentra-se na opção por um povo. Não porque se fechem os horizontes das origens, mas para que haja um “sinal” público do sonho primeiro do Criador. Este povo vai configurando o Deus que o chama com vários rostos e que são mais retratos dos sentimentos humanos e das narrativas de factos do que a sua revelação autêntica que se faz de muitos modos, sobretudo na pessoa de Jesus de Nazaré, o Cristo morto e ressuscitado. Até lá, há muito caminho a percorrer.
As representações de Deus são diferentes nas duas religiões iaveístas do Antigo Testamento, defende Frei Francolino, dominicano da Escola Bíblica de Jerusalém. Este investigador afirma que numa destas representações, ele é o Deus criador que abençoa todos os seres vivos; na outra, ele é o Deus que está ligado a Israel, o seu povo, a quem protege e salva; aquele pode chamar-se iaveísmo cósmico; a este iaveísmo histórico.
“Qual é a importância da descoberta de dois iaveísmos?», interroga-se Frei Banto no Jornal «Público» de 25 de Junho de 2017. E responde: Julgo-a de grande alcance para todos os leitores do AT e considero-a uma das raízes do universalismo cristão. É a diferença entre um Deus universalista, Deus de todos os seres humanos e da criação, casa comum de todos, e a representação de um Deus nacionalista que confunde o Mundo com os interesses de um povo, capaz não só de o defender, mas de se tornar inimigo dos outros povos, podendo até mandá-los exterminar.
É esta distinção que nos pode ajudar a compreender o sentido e o absurdo da violência de muitas páginas da biblioteca do povo de Israel. Colocaram-se na boca de Deus os interesses de um povo contra os outros povos. Não pode ter sido o Deus do Universo a escrever essas blasfémias.”
À suficiência dos homens que pretendem construir a torre de Babel e tomar o rumo dos acontecimentos nas suas mãos, responde Deus com a chamada de Abraão para que se faça peregrino e vá para uma terra estranha, pois será pai de um numeroso e abençoado povo. A marca deste povo e a garantia desta promessa tornam-se visíveis na circuncisão.
A Abraão se referem as três religiões do “Livro”: a dos Judeus, a dos cristãos e a dos islamitas. O que se articula com o diálogo inter-religioso. “Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades religiosas”, reconhece o Papa Francisco na exortação «A Alegria do Amor» 250.
E consequente com este modo de ver a realidade, toma iniciativas paradigmáticas como o encontro de oração nos jardins do Vaticano com Shimon Peres e Mahmoud Abbas, respectivamente presidentes de Israel, e da Autoridade Palestina; e a visita ao Cairo; iniciativas acompanhadas de significativas mensagens e com forte impacto na opinião pública.
Na citada exortação, nº 253, convida a um olhar e a uma atitude diferentes: “Nós, cristãos, deveríamos acolher com afeto e respeito os imigrantes do Islão que chegam aos nossos países, tal como esperamos e pedimos para ser acolhidos e respeitados nos países de tradição islâmica… Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afeto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem a toda a violência”.