Pe. Georgino Rocha

Maria e José são noivos. Têm um projecto de vida definido e estável, de amor mútuo fiel e definitivo. Sabiam o que pretendiam e observavam as normas que configuravam o seu estatuto na sociedade judaica. A sua opção pelo casamento era reconhecida oficialmente. Viviam o sonho feliz de constituir uma família. Apenas aguardavam o tempo de receber, segundo os ritos religiosos, as bênçãos de Deus, de celebrar,  com os familiares e amigos, a festa do amor recíproco, de iniciar a vida em comum e a convivência na mesma casa. Que actualidade mantém este modo de viver o noivado, de fazer os esponsais, de se inserir na sociedade, de ser membro da comunidade religiosa e cristã! Que exemplo para os noivos de todos os tempos!

É neste projecto de vida que ocorre o “inesperado”. O enviado de Deus convida Maria para ser a Mãe de Seu filho. Esta fica perturbada e faz perguntas. Recebe respostas esclarecedoras que a levam a assentir. E entrega-se incondicionalmente a esta sublime missão. José, seu noivo, fica perplexo. Não sabe o que fazer. Sofre em silêncio o desconforto em que se encontra. Congemina saídas airosas e legais. Quer salvaguardar o mais possível a honra da sua noiva. A sua atitude é compensada num sonho em que o enviado de Deus lhe dá explicações de tudo.Mt 1, 18-24.

Estas explicações constituem uma excelente catequese sobre Jesus, catequese desenvolvida na comunidade de Mateus. E que exemplo nos dá quando temos de tomar decisões: não se precipita, pondera, escuta a voz de Deus, salvaguarda princípios éticos e religiosos, acolhe conselhos clarificadores, vence perplexidades, toma a melhor solução. Que lisura de consciência, humildade de coração, transparência de atitudes!

Não temas, José! É obra de Deus o que está a acontecer em Maria, tua noiva. O menino que vai nascer é fruto do Espírito Santo e tu dar-lhe-ás o nome de Jesus, colocando-o na linhagem de David. Ele será o salvador do povo, libertando-o dos seus pecados. Tudo isto é o cumprimento da promessa anunciada pelo Senhor. E José deu o nome a Jesus, deixando-nos a indicação de que também nós estamos chamados a fazer brilhar, em cada palavra e gesto, pela presença e pelo olhar, a salvação – contida no nome – que Deus nos oferece e pretende realizar.

José, homem bom e justo, acata a explicação dada e, cheio de convicção e amor, aceita incondicionalmente esta reorientação do seu projecto de vida. E daí em diante, o seu agir é mais eloquente que o seu falar. Acolhe Maria em casa, como mandam as normas rituais, vela pela novidade que está a tomar corpo, procede em tudo como o responsável pelo “bom andamento” do que Deus havia iniciado e, tão solicitamente, lhe confiara: acompanhar o nascimento, garantir o sustento, educar com desvelo, ensinar a arte do trabalho e da convivência, rezar a Deus, em família, participar na oração da sinagoga e nas peregrinações ao Templo. E, quando a missão está cumprida, adormecer na paz do Senhor a quem se doará inteiramente.

Obrigado, José, noivo de Maria, a Mãe de Jesus. Deus faz-se humano para nos ensinar a ser verdadeiramente humanos. Deus está connosco na vida de cada dia, nas actividades e nos divertimentos, nos laços de comunhão familiar, nos gestos de bem-fazer, na ternura do olhar e na franqueza do sorrir. Deus está connosco na doação generosa, na certeza de um futuro melhor, que desde já começa a desabrochar. Obrigado, José, pelo teu silêncio fecundo, pela tua confiança sem limites, pelo teu testemunho exemplar

O Papa Francisco, na recente carta apostólica sobre o Presépio, afirma: “Ao lado de Maria, em atitude de quem protege o Menino e sua mãe, está São José. Geralmente, é representado com o bordão na mão e, por vezes, também segurando um lampião. São José desempenha um papel muito importante na vida de Jesus e de Maria. É o guardião que nunca se cansa de proteger a sua família”.

 Imagem: S. José com o Menino Jesus nos braços – Guido Reni (1575-1642)