Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XIII Passo | O Silêncio de um Olhar Luminoso

 

Teresa apressa-se a tornar urgente o encontro com Cristo e a oferecer-nos um meio de educarmos o nosso olhar para nos relacionarmos com Ele por meio da oração.

EDUCAÇÃO PARA O OLHAR CONTEMPLATIVO

A oração, como a relação entre dois amigos, é uma linguagem do coração que se exprime no silêncio de um olhar luminoso. Daí a importância que tem para a Santa a pedagogia deste olhar interior. Numa só página do seu livro Caminho de Perfeição (26, 3) encontramos todo um tratado de oração como olhar:

“Não vos peço agora para pensardes n’Ele, nem que formeis muitos conceitos, nem que façais grandes e deliberadas considerações com o vosso entendimento; não vos peço senão que olheis para Ele. Pois, quem vos impede de volver os olhos da alma, mesmo que seja só um instante, se mais não puderdes, para este Senhor? Pois podeis olhar para coisas muito feias, não podereis olhar para a coisa mais formosa que se pode imaginar? E nunca, filhas, o vosso Esposo desvia de vós os olhos… e será muito que, desviados os olhos dessas coisas exteriores, olheis para Ele algumas vezes? Olhai que não está aguardando outra coisa… senão que olhemos para Ele”.

O uso de uma imagem, a recordação de um texto do Evangelho, são coisas que favorecem esta atitude contemplativa. Tudo se apoia nesta convicção: O Senhor está presente e olha-nos. ORAR é devolver-Lhe este olhar de amor.

Vamos deixar-nos olhar pelo Senhor e aceitarmos o seu convite a nos alegrar-mos n’Ele, a conhecê-l’O como Pai e como Mãe.

Alegrai-vos e rejubilai

«Alegrai-vos com Jerusalém, rejubilai com ela, vós todos que a amais; regozijai-vos com ela, vós todos os que estáveis de luto por ela. 11Como criança amamentando-se ao peito materno, ficareis saciados com o seu seio reconfortante e saboreareis as delícias do seu peito abundante. 12Porque, assim diz o Senhor: «Vou fazer com que a paz corra para Jerusalém como um rio, e a riqueza das nações, como uma torrente transbordante. Os seus filhinhos serão levados ao colo e acariciados sobre os seus rega­ços. 13Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei; em Jerusalém sereis consolados. 14Ao verdes isto, os vossos cora­ções pulsarão de alegria, e os vossos ossos retomarão vigor, como a erva fresca.» (Is 66, 10-14)

Jerusalém aqui significa cada um de nós e Deus quer convidar-nos a fixar o nosso coração na alegria e no gozo que surge depois das dificuldades que vivemos e da confiança que n’Ele depositamos.

Podemos perguntar: quem se alegrará e gozará? E a resposta é: aquele que amou e que sofreu; dois aspectos da mesma realidade não há amor que não implique sofrimento, porque o amor para ser forte tem que ter as suas raízes no sacrifício. O convite à alegria: «Regozijai-vos vós que estivestes em tristeza e sofrimento» é já uma antecipação da palavra de Jesus: «Felizes os que choram porque serão consolados».

Com esta alegria de coração não podemos por limites ao amor, nem deixar que o medo do sofrimento nos atrofie o coração. Para permanecermos firmes temos de como a criança pequena nos amamentarmos ao seio materno para sermos reconfortados e saborearmos as delícias abundantes do seu peito. Estamos a falar o seio abundante das verdades da fé que se abrem para nós como promessa de terra prometida, onde corre leite e mel. E S. Pedro dirá: «Como crianças recém-nascidas desejai o leite espiritual para que ele vos faça crescer para o céu».

No céu é onde viveremos imersos num oceano de paz, respiraremos a paz e seremos impelidos por ela, como rio que corre suavemente. Lá veremos a glória que Deus destinou às nações como comunhão e participação da glória de Deus, que transborda para nós e nos faz ser um com Ele. «Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei; em Jerusalém sereis consolados».

Aqui  estamos em caminho e não podemos baixar os olhos do horizonte onde vai brilhar a luz. Aqui a paz é muitas vezes atribulada pelas circunstâncias efémeras da vida, em Deus a paz é a sua energia de vital, emana da Sua presença e envolve-nos, tal como o líquido amniótico envolve a criança no seio de sua mãe. Aqui as águas facilmente se turvam e são fortemente agitadas pelo vento. Lá o rio que desce do trono do Cordeiro é de águas doces.

Ajuda-nos ao longo do caminho, sentir-nos como caminhantes, porque não esqueceremos, pelo contrário buscaremos os sinais da nossa pátria sem desfalecer, porque aquele rio de paz que rega as ruas e as praças da Jerusalém celeste deixa correr para cá algum riacho de água. E nós chegamos a esta água pelo cumprimento da vontade de Deus. Diz o salmista: «Muita paz têm os que amam a vossa lei» (Sl 118). A paz vem-nos da intimidade com o Deus da paz, vem de nos abandonarmos por inteiro nos braços de Deus, de confiarmos n’Ele, porque não cai nenhum cabelo da nossa cabeça sem que Ele o saiba. Mais uma vez nos diz o salmista: «Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Tu, SENHOR, me fazes viver em segurança» (Sl 4,9).

O Senhor quer encher-nos de confiança e enraizar-nos na segurança e na força que vem da certeza destas verdades e para isso usa uma forma muito terna de nos falar ao coração: «serão levados ao colo e acariciados sobre os seus rega­ços. Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei.»

Deus não é apenas nosso Pai, mas é também nossa Mãe. A mãe que nos consola, que está connosco e nos anima, por isso «os vossos cora­ções pulsarão de alegria, e os vossos ossos retomarão vigor, como a erva fresca. Ele espera-nos para nos fortalecer. Ele espera-nos para nos dar a Sua alegria. Ele espera-nos para nos pegar ao colo, isto é, elevar-nos até Ele e acariciar-nos com o amor do Seu Coração, com a Luz da Sua Presença, com a Paz e a segurança de quem se entrega e confia totalmente a Ele.

Façamos silêncio para acolher esta presença materna de Deus e nos deixarmos acariciar por Ele, com o seu Amor, a Sua Luz, a Sua Paz.

Carmelo de Cristo Redentor

Imagem de Paul Cornec por Pixabay