Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


V Passo | Orar é possível…

Nos nossos dias muitas pessoas pensam que orar não faz sentido, outras atormentadas pelas dificuldades que ao princípio podem surgir acham que não é possível antes mesmo de experimentarem, outras ainda têm medo de se encontrarem consigo e com a sua verdade e por isso não aceitam o desafio, mas há aquelas que se determinam a ultrapassar todos os obstáculos e dificuldades e aceitam percorrer o caminho do encontro com o Deus que as habita. Teresa de Jesus é uma dessas pessoas, é ela que desde a sua experiência nos vai falar da transformação que a oração produziu na sua vida.

O MEU MODO DE ORAÇÃO

“Tinha eu este modo de oração: como não podia discorrer com o entendimento, procurava representar Cristo dentro de mim e sentia-me melhor, a meu parecer, nos passos onde O encontrava mais só… Em especial achava-me muito bem na oração do Horto… ficava-me ali com Ele o mais que me permitiam os meus pensamentos” (V 9, 4). Finalmente, o encontro com uma imagem de Cristo muito chagado levou-me à minha conversão mais profunda, “e fui melhorando muito desde então” (V 9, 3) e “pude comprovar que sempre saía consolada da oração e com novas forças” (V 29, 4). De facto, “é nela que o Senhor dá luz para entender as verdades” (F 10, 13), “porque ali o Senhor ensina a quem se quer prestar a ser ensinado por Ele” (C 6, 3). Reconheço, assim, que o tempo em que vivi sem oração, andava muito mais perdida a minha vida (V 19, 11), pelo que rogo eu a quem já a tenha começado que não a deixe, pois que ali entenderá o que faz e obterá do Senhor arrependimento e fortaleza (V 15, 3). E “digo-o para consolo de almas fracas como a minha” (V 19, 3).

AMOR E COSTUME

Quero ainda dizer, pois isto vi-o por experiência, que não são necessárias forças corporais (V 7, 11) para a oração, mas apenas amor e costume, porque não está a coisa em pensar muito, senão em amar muito (4M 1,4). E nisso está o aproveitamento da alma (F 5, 2). E que o importante é “representar-se que está diante de Cristo e acostumar-se e enamorar-se muito da sua Sagrada Humanidade, trazendo-O sempre consigo. E fale com Ele. É pedir-Lhe ajuda para as necessidades e queixar-se-Lhe dos trabalhos. É alegra-se com Ele nos contentos… Isto sem procurar orações compostas, mas palavras conforme aos seus desejos e necessidade” (V 12, 2). Foi fazendo assim que cheguei a receber tão grandes mercês de Deus.

Não resta, portanto, qualquer dúvida. A oração é possível. Teresa no-lo confirma a partir da sua própria experiência. E sabemos que “o seu testemunho é verdadeiro”.

Desafio-te agora a parares e a dares início ao teu caminho de oração começando por meditar e refletir na partilha orante que te é proposta e escutares o que Jesus te vai dizer no íntimo do teu coração.

«Eis que faço novas todas as coisas»

«Esta é a morada de Deus entre os homens.

Ele habitará com eles;

eles serão o seu povo

e o próprio Deus estará com eles

e será o seu Deus.

4Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos;

e não haverá mais morte,

nem luto, nem pranto, nem dor.

Porque as primeiras coisas passaram.»

«Eis que faço novas todas as coisas.»

(Ap 21, 3-5)

A primeira vez que tive oportunidade de escutar dentro de mim a palavra de Jesus: «Eis que faço novas todas as coisas» parecia-me que Jesus me falava de uma nova criação. Porém a força desta palavra, desta nova criação, não estava no facto de O ver como Senhor do mundo com poder para tudo, mas no facto de O ver caído no chão sob o peso da cruz. Era o peso da cruz que lhe permitia fazer esta desconcertante afirmação. Era o peso da cruz que O fez dizer à sua Mãe, que naquele momento via o Filho de Deus oculto num rosto desfigurado, sem aparência humana: «Eis que faço novas todas as coisas». Sob o peso da cruz Jesus realiza a nova criação, as coisas antigas passaram e tudo foi renovado.

Sob o peso da cruz encontramos esta fonte de vida nova. Esta morada de Deus entre os homens. Este habitar de Deus com o seu povo e ser o seu Deus é já nova criação. Não se trata duma criação material, mas da presença de Deus no nosso caminho. Deus no caminho do homem, de cada pessoa, ao lado de cada vida, sustentando-a com o Seu amor, isto é nova criação. A presença de Deus enxuga todas as lágrimas, liberta da morte, do luto, do pranto e da dor, porque faz passar da aparência dos acontecimentos, para o que eles são e significam de verdade. A presença de Deus faz passar as primeiras coisas, fazendo-as novas.

É Deus que nos explica como faz novas todas as coisas. Escutemo-lo com o coração e sintamos em nós a mesma força que levou Jesus a fazer novas todas as coisas sob o peso da cruz:

«Nada temas, porque Eu te res­gatei, e te chamei pelo teu nome; tu és meu. 2Se tiveres de atravessar as águas, estarei contigo, e os rios não te submergirão. Se caminhares pelo fogo, não te queimarás, e as chamas não te consumirão. 3Porque Eu, o Senhor, sou o teu Deus; Eu, o Santo de Israel, sou o teu salvador. Entrego o meu ‘Filho Unigénito’ por teu resgate, em troca de ti. 4Visto que és precioso aos meus olhos, que te estimo e te amo, sustento-te com o meu amor. 5Não tenhas medo, que Eu estou contigo.» (Is 43)

Nada nos pode separar do amor de Deus e é neste amor que Deus faz novas todas as coisas. Temos de deixar que Ele nos esconda mais dentro do seu amor, do seu coração, da Sua vontade, da Sua ternura de Pai.

Um destes dias aconteceu que aquilo que Deus tinha pensado e desejado para mim foi alterado dum momento para outro, pela acção humana. Aparentemente perdi tudo, o sentido para o que estava a viver, o horizonte que Deus apontava e o apoio humano que Deus me tinha dado para me acompanhar. Aparentemente era um momento de morte, de lágrimas, de dor, mas Deus sustentou-me aí com o seu amor. Escondeu-me mais dentro do seu coração, revelando-me quem era eu para Ele. Ao dar-me a conhecer a minha verdadeira identidade de filha de Deus muito amada, Ele fez novas todas as coisas e o que era morte converteu-se em vida. E quando Lhe perguntava o que era aquilo que tinha acontecido, o Espírito Santo fazia-me entender que: “Aquele ‘momento’ não era um momento de morte mas para maior glória de Deus.”

Temos de deixar que Deus entre na nossa vida diária e nos faça entender que tantas coisas que consideramos de dor, sofrimento, morte, são para que Deus manifeste em nós a força do seu Amor e faça nova a nossa vida e em nós faça novas todas as coisas.

Sugiro-te que te coloques na presença de Deus e rezes lentamente para saborear as palavras do Profeta Isaías (Is 43) e deixes que Deus enxugue as lágrimas que guardas no teu coração, a dor de te sentires incompreendido e sozinho, a morte de tantas feridas que arrastas contigo. Deixa que Deus faça novas em ti todas as coisas e não te esqueças de fixar os olhos em Jesus, que fez novas todas as coisas sob o peso da cruz.

Carmelo de Cristo Redentor

Imagem de Pexels por Pixabay