GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

­ – «Nulla salus extra scholam» (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 30. Um diferente lugar para a escola. – O disestablishment das escolas proposto por Ivan Illich (n.º 29) não constitui, portanto, o fim da própria escola – mas apenas o fim da sua índole compulsória. Fosse esta eliminada, logo a presença pública da escola passaria a depender somente dos seus méritos próprios, e não da autoridade que coage ao reconhecimento do seu valor.

Bem relevante é, a este respeito, uma conversa que Ivan Illich conta ter tido com Jacques Maritain. Incidiu ela a certo momento sobre uma palavra que via então emergir na língua inglesa: planning. Curioso a respeito da respectiva entrada na língua comum, apercebe-se Ivan Illich de que apenas foi recolhida nos dicionários no pós 2.ª Guerra Mundial. Eis o diálogo, contado na primeira pessoa: «Ele [Maritain] tinha uma chávena de chá na mão e estava a tremer quando eu lhe falei acerca de uma questão que me incomodava, de que em toda a sua filosofia não encontrava qualquer forma de aceder ao conceito de planning. Ele perguntou-me se esta era uma palavra inglesa para contabilidade, e eu disse-lhe que não… se era para engenharia, eu disse que não… e então, a certo momento, ele disse-me, “Ah! Je comprends, mon cher ami, maintenant je comprends.” Agora eu finalmente compreendo. “C’est une nouvelle espèce du péché de présomption.” Planning é uma nova modalidade do pecado da presunção.»

Talvez se possa interpretar a intensidade da investida de Ivan Illich contra o sistema escolar compulsório desde esta grelha leitura: uma luta comprometida contra o «pecado da presunção» (veja o que já se escreveu no n.º 17) e contra as consequências deletérias que ele, o pecado, tem nas relações humanas. A Illich assustam as pretensões que podem subjazer ao projecto de, na fórmula de Comenius (1592-1670), omnibus, omnia omnino docendia todos pretender ensinar tudo totalmente (The History of Homo Educandus, p. 114).

Mas é esta uma impossibilidade prática (não o fosse, não haveria nenhuma presunção, mas apenas um agradável realismo). Por isso, «as escolas são configuradas no pressuposto de que há para tudo um segredo na vida; de que a qualidade da vida depende de conhecer tal segredo; de que os segredos só podem ser conhecidos com uma sucessão ordenada; e de que apenas os professores podem revelar propriamente tais segredos.» (Deschooling, p. 76) E esta a realidade ritual que oculta a dissonância entre o fim declarado e a realidade concretizada.

O absurdo do totalismo da pretensão educativa é posto em evidência numa formulação de superior agudeza, no qual se serve dessa palavra grega, hybris, que servia para designar o comportamento insolente daquele que, cegamente, supunha situar-se acima da condição humana: «A natureza destrutiva e constantemente progressiva da instrução obrigatória cumprirá a sua lógica última a não ser que nos comecemos a livrar nós próprios, desde já, da nossa arrogância [hybris] pedagógica, a nossa crença de que o homem pode fazer aquilo de que Deus não é capaz, a saber: manipular os outros para a sua própria salvação.» (Deschooling, p.49)


Imagem de Cole Stivers por Pixabay