GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

A propósito de Ivan Illich

– 1. Um autor marginal. – Recordo que ouvi falar pela primeira vez em Ivan Illich (1926-2002) no ano de 2020. Desse desconcertante Ivan Illich. O nome era-me estranhamente familiar, embora por razões que em breve se revelariam obviamente erradas: a forte proximidade fonética (em parte mesmo homonímia) àquela personagem cujo nome Tolstói inscreve no título de uma sua obra («A Morte de Ivan Ilitch»). Mas recordo também que desde então fui deparando com o respectivo nome em diferentes contextos, o que é especialmente de sublinhar atendendo a que tais referências foram surgindo desde fontes com filiações muito distintas.

Mas será de perdoar aquela minha ignorância. Tendo eu nascido perto do fim da década de 80 do século passado, ainda para mais numa geografia distante daquela que está na origem de Ivan Illich e do espaço em que exerceu a sua actividade, é natural que só tardiamente o haja conhecido. De facto, fora nas décadas de 60 e 70 – décadas de particular relevância para a formação do mundo contemporâneo – que Ivan Illich estivera no centro de alguns debates da época.

Desde então, a presença de Ivan Illich como protagonista na «cena cultural» como se foi eclipsando, mesmo se a respectiva actividade de estudo, reflexão e publicação tenha continuado a desenvolver-se, e chegado então aos seus resultados mais acabados. Mas, como é usual, o mundo recorda apenas os seus. É disso exemplo o obituário composto pelo The New York Times (de 4 Dez 2002) aquando da morte de Ivan Illich, que como ignorava as décadas finais da respectiva vida. Tudo como se passava como se apenas o mediático Ivan Illich houvesse existido.

Àquela fase de protagonismo seguiu-se, na verdade, uma outra de bem maior discrição. Nela cultivou a amizade, o diálogo, o cuidado das relações humanas, a convivialidade. De resto, foram justamente aqueles que tomaram parte nessas relações que ajudaram a trazer Ivan Illich para o nosso tempo, resgatando-o do sempre natural olvido da memória, e permitindo que a respectiva obra pudesse ser redescoberta já para além do momento do estrelato, já para lá da própria morte.

E foi assim que cheguei ao conhecimento de Ivan Illich no ano 2020 – e que me propus, agora, a reflectir sobre a respectiva obra.

– 2. A obra de Ivan Illich: dos muitos temas às grandes linhas de fundo. – Não é fácil, porém, sintetizar de forma breve o objecto da obra de Ivan Illich.

Por um lado, porque a obra se cruza de modo muito estreito com a sua vida: o que faz, o que escreve, o que publica, é, em primeira linha, resposta a solicitações que lhe são dirigidas ou a problemas com os quais concretamente se debate.

Por outro lado, porque o alcance de matérias sobre os quais num ou noutro momento se debruçou é extremamente vasto.

Uma sua colaboradora próxima numa fase avançada, a universitária alemã Barbara Duden, elenca os seguintes temas: «educação, medicina, política de energia, conhecimento por especialistas, subsistência, obsessão com o crescimento, trabalho feminino, história do trabalho, interpretação de cânticos na antiguidade anterior à escrita, oralidade no confronto com a cultura escrita, a ruminação da palavra oral mediante a piedosa murmuração no séc. XI, a água e a deusa da memória, a economia da morte, “housing by people”, amizade, crítica da bioética, história da fronteira, velocidade, historicidade do olhar, declínio da proporcionalidade nos sécs. XVII e XIII, história dos sentidos, ascese, hospitais no cristianismo primitivo, tecnologia, ciência da língua, universidade e formação ascética, história dos instrumentos e da instrumentalidade, história da causa, origem da necessidade de educar a pessoa, sistemas de transporte e paralisia da viagem, convivialidade, monolinguismo e ingerência estatal nos dialectos das pessoas, saúde».

O elenco é imenso.

Para dificultar um pouco mais a pronta enunciação do teor específico da obra de Ivan Illich, acresce a circunstância de renunciar a uma utilização da linguagem neutra, imparcial, anódina, como é próprio do discurso universitário ou científico modernos, não hesitando em escrever com colorações proféticas, com exagero, provocação, interpelação. Chegando mesmo, a espaços, ser insuportável, como um Jeremias a quem os seus, por já não o poderem ouvir, lançam no fundo de um poço (Jr 30, 1-13).

É de evitar, portanto, uma leitura linear da obra de Ivan Illich. Não o «espírito de geometria», mas o «espirito de sageza» (Pascal) há-de guiar a respectiva interpretação. De facto, parece possível individuar-se algumas linhas directrizes que justificam a investida sobre tantas matérias que, sem elas, seriam totalmente indiferentes: denunciar algumas das características de uma modernidade que se rendeu de modo quase total ao pensamento técnico e instrumental, com consequências desumanizantes sobre a pessoa, e, tanto quanto possível, restaurar em termos conviviais o tecido das relações humanas colocado fortemente em causa por uma sobreinstitucionalização das relações sociais.

*

É à análise de diferentes dimensões da obra de Ivan Illich, com o pano de fundo enunciado, que se dedicará o presente ciclo semanal de textos. Terá por base as principais obras publicadas em vida por Ivan Illich, uma reflexão conjunta sobre a vida e a obra de Ivan Illich da autoria do radialista (e amigo) David Cayley e dois ciclos de entrevistas dadas a este último autor.

Serão usadas as seguintes abreviaturas (nem sempre se trata da primeira edição):

ABC: Ivan Illich/ Barry Sanders, ABC. The Alphabetization of the Popular Mind (Marion Boyars, 1988)

Awareness: Celebration of Awareness. A Call for Institutional Reform (Marion Boyars, 1971)

Conversation: David Cayley, Ivan Illich in Conversation, Anansi: Toronto, 1992

Deschooling: Deschooling Society (Marion Boyars, 1970)

Disabling: Disabling Professions – em co-autoria (Marion Boyars, 1977)

Energy: Energy and Equity (in: Toward)

Gender: Gender (Marion Boyars,1982)

H2O: H2O & the Waters of Forgetfulness (Marion Boyars, 1986)

Journey: David Cayley, Ivan Illich – An Intellectual Journey, The Pennsylvania State University Press: Pennsylvania, 2021

Limits: Limits to Medicine. Medical Nemesis: The Expropriation of Health (Marion Boyars, 1995)

Past: In the Mirror of the Past: Lectures and Addresses 1978-1990 (Marion Boyars, 1992)

Rivers: David Cayley, The Rivers North of the Future. The Testament of Ivan Illich as told to David Cayley, pref. de Charles Taylor, Anansi: Toronto, 2005

Shadow: Shadow Work (Marion Boyars, 1981)

Tools: Tools for Conviviality (Marion Boyars, 2009)

Toward: Toward a History of Needs (Bantam Edition, 1980)

Unemployment: The Right to Useful Unemployment (Marion Boyars, 2009)

Vineyard: In the Vineyard of the Text, (The University of Chicago Press, 1993)


Foto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Illich#/media/Ficheiro:I.I.jpg