Seg. Jun 14th, 2021

8 1/2′ – Rubrica de Cinema 

A alma de Dorian Gray

Pe. Teodoro Medeiros

                O adágio é invariável: gostei do filme, mas achei o livro muito melhor. Nem é um ponto negativo, a escrita permite subtilezas infindas e a expansão livre do narrador (justamente considerado como intruso na linguagem cinematográfica). O tempo do cinema é também uma experiência mais curta e concentrada; a estrutura tem de ser mais sucinta e menos repetitiva. Cinema e literatura são linguagens diferentes e aproximam-se da nossa imaginação usando instrumentos distintos.

                É este último aspeto o mais essencial: os livros escondem o aspeto visual, uma caraterística que proporciona a quem lê um papel mais ativo e muito mais gratificante. Em contraponto, os livros maus desembocam em filmes desinteressantes e fáceis de fazer: foi tudo tão descrito, tão visualizado, que o filme só acrescenta um pouco de cor ao que já foi imaginado, não tem interesse nenhum.

                Nada disso acontece em “O retrato de Dorian Gray”, filme de 1945 e que se baseia no livro homónimo de Oscar Wilde, de 1890. Realizado por Albert Lewin, é um interessante modelo da adaptação: são tomadas algumas liberdades em relação à obra original, sim, mas para aproveitar melhor o as potencialidades do uso do som: no cinema, uma peça musical pode evocar valores e sentimentos que envolvem irresistivelmente o cinéfilo.

                Dorian Gray é um gentleman jovem, idealista, impulsivo e pouco experiente: o ponto de partida para a sua estória é tão irrealista quanto intrigante, o retrato feito pelo amigo Basil que envelhece enquanto o próprio modelo permanece imutável. Aonde nos pode levar este MacGuffin? Longe, a um percurso de vida em que o desejo de permanecer jovem de Dorian, realizado prontamente, se converte em maldição.

                Lord Henry é o aristocrata especializado na arte de “não fazer rigorosamente nada”: homem bem falante, péssima pessoa, expõe os seus valores desprovidos de qualquer moralidade em trocadilhos bem conseguidos e que denunciam uma atividade cerebral febril, genial, abominável. Ele proporciona muitos dos momentos mais irónicos:

                Lord Henry: Eu escolho os meus amigos pela sua boa aparência e os meus inimigos pelo           seu bom intelecto: nunca se é cuidadoso demais na escolha dos próprios inimigos…

                Basil: Harry, eu desprezo os seus princípios, mas aprecio mesmo assim a sua forma de               os exprimir!

                Lord Henry: Eu gosto mais de pessoas do que de princípios e de pessoas sem princípios              acima de tudo!

                Este personagem maquiavélico assegurará a queda do anjo: a sua influência sobre Dorian Gray levará o jovem a descer a um inferno existencial, à exclusão de qualquer felicidade do horizonte da sua vida. Destruirá pessoas, isolar-se-á de todos, sobretudo dos amigos e do amor: colherá os benefícios da sua maldição, mas quebrá-la significará deixar de existir.

                E quando a justiça parece ir fazer contas com ele, na figura do irmão de Sybil Vane (uma muito jovem Angela Lansbury), a noiva cuja vida ele destruiu, Gray apresenta o seu rosto jovem como prova de que não é ele a pessoa procurada: o verdadeiro culpado, depois de todos estes anos, não tinha como não ser bem mais velho do que ele.

                A apresentação a preto e branco será interrompida em momentos breves, catárticos, em que o famoso quadro é apresentado em plano próximo: o efeito deste truque é tremendo porque a figura evolui, afinal, segundo não a idade mas a condição ética de um monstro. A montagem é neste particular muito feliz e não seria possível atualmente (uma vez que não se privilegiam nem os diálogos longos, nem o retardamento das surpresas).

                Tudo atrai aqui: o ritmo que faz só as paragens necessárias; o comedimento dos atores; o não decorativismo do cenário (é um filme de época); a pluralidade dos contextos evocados e sobretudo o ato final, apresentando uma reviravolta que funciona a mais do que um nível e que justifica por si só a condição de filme filosófico.

                “O retrato de Dorian Gray” é profundamente moral e moralizante, expondo e ridicularizando alguns dos mitos pós-modernos mais lancinantes, como a beleza, a juventude e o hedonismo. Se a obra literária que lhe deu origem causou inicialmente escândalo, isso só prova que lhe leram mais a forma que o conteúdo.