Sáb. Out 23rd, 2021

70 ANOS DUDH | REFLEXÕES

Inclusão social e diversidade nas comunidades atuais

Valéria Meneses*

De acordo com o segundo artigo da Declaração Internacional dos Direitos Humanos, reconhecem-se as pessoas como “iguais, independentemente da raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.”

No entanto, vemos constantemente situações onde este direito é violado. Na Europa estamos a assistir a um aumento dos movimentos de extrema direita, nos quais há pessoas que rejeitam com ódio os que não são iguais a eles. Vemos também o que está a acontecer na América, em que as autoridades estão a proibir que pessoas atravessem uma fronteira geográfica, chegando a colocar em risco a vidas das crianças.

Por que temos a tendência de rejeitar o que é diferente de nós? Como podemos evitar as constantes discriminações? Como mudar mentalidades em que as pessoas consideram que são superiores aos outros por algum fator alheio à vontade humana?  O caminho para a não discriminação é o conhecimento. Só o conhecimento da realidade do outro fará com que questionemos porque os outros estão numa situação diferente da nossa e assim criaremos empatia.

Embora vivamos numa era de excesso de informação, onde somos constantemente bombardeados com notícias do que acontece em cada canto do mundo, na realidade é fácil ignorar os dados e estatísticas. Sabemos cada vez mais de tudo e aprofundamos cada vez menos. Neste contexto, é crucial o envolvimento, a união das comunidades e a reconexão entre as pessoas. Este vínculo de pessoa a pessoa é o que se tem perdido na era digital e que temos de recuperar. Só desta maneira, e através da inclusão social, conseguiremos tornar as nossas diferenças em fortalezas, nossos desacordos em debates sãos.

Atualmente refugiados, exilados, estudantes ou trabalhadores estrangeiros enfrentam várias dificuldades quando chegam a um novo país. A inexistência de uma rede informal de suporte ou simplesmente o facto de não compreenderem a língua do país e cultura local cria equívocos e dificuldades de comunicação entre migrantes e locais. Estes fenómenos aumentam o preconceito e o racismo, criando ambientes hostis nas sociedades.

Marcelo Rebelo de Sousa afirma que “a crise dos dias de hoje (…) é uma crise de falta de coesão. Onde não há coesão há populismo, onde não há coesão há xenofobia, onde não há coesão há demagogia”. Precisamos gerar espaços de convívio, espaços onde as pessoas se deem à oportunidade de conhecer o “outro”, onde explorem interesses comuns — espaços destinados a criar uma ligação entre os participantes e onde há espaço para o diálogo, festa e amizade.

Existem algumas iniciativas com o objetivo de aproximar pessoas, quebrar preconceitos e equívocos e construir pontes (não muros!), que procuram promover a compreensão e a cooperação. O SPEAK é um programa social para a partilha de línguas e culturas que tem como objetivo a integração dos migrantes ao seu novo país de residência através da ligação com os residentes locais.

Como Pedro Calado, o Alto Comissário para as Migrações em Portugal, diz, “(…) a vivência plural e intercultural são valores fundamentais em tempos desafiantes na Europa e no Mundo e iniciativas como o SPEAK são parte dos ingredientes que geram o cimento de sociedades hiperdiversas do século XXI”.

Semear conhecimento e combater a ignorância é o caminho para quebrar preconceitos, valorizar a diversidade e, por consequência, criar comunidades mais fortes. Trabalhemos num mundo que reconhece que há problemas sociais que não respeitam fronteiras e cujas soluções requerem o mundo no pleno da sua diversidade. Como Saint-Exupéry afirmava: “Na minha civilização, aquele que é diferente, não me empobrece; enriquece-me.”

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SPEAK foi criado em 2014, em Leiria, e está hoje em 12 cidades, 4 delas fora de Portugal: em Espanha, Alemanha, Itália e Bélgica. Mais de 17,400 pessoas de 153 países têm participado neste projeto, que é apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e foi nomeado pelo ACM como uma das entidades responsáveis pelo ensino de português aos refugiados. O SPEAK procura, de uma forma positiva, abordar a diversidade e o multiculturalismo e, acima de tudo, abordar as diferenças.

Mais informações no site: www.speak.social

*Fundadora da SPEAK Aveiro

(Artigo que se insere no âmbito das comemorações do 70º Aniversário da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos – Plataforma “Aveiro Direitos Humanos” / Diário de Aveiro)