Dom. Jun 13th, 2021

70 ANOS DUDH | REFLEXÕES

A estatística do bem-estar

 Margarida Gonçalves*

 

Conseguirá a estatística revelar-nos o impacto emocional que um evento traumático pode assumir no nosso quotidiano? Ou quantificar o impacto quotidiano do aperto no peito e do role de pensamentos automáticos que aparecem ao passar naquela rua, ao ver aquela pessoa, ao sentir aquele cheiro? Resposta clara, certo?

Por muito que os números nos ajudem a desenhar um panorama geral da frequência dos acontecimentos – e isso seja o que basta para chamar a atenção – não nos podemos ficar pelos números, da mesma forma que não nos ficamos pelos números quando o evento traumático sucede a “um dos nossos”. E da mesma forma que percebemos o quão a estatística pode condicionar a nossa interpretação dos acontecimentos, também os nomes/adjetivos podem ter a sua quota parte neste condicionamento. Se pensarmos bem, o que nos diz a palavra Esquizofrénico sobre a pessoa com que nos cruzamos na rua? Ou Alcoólico, Sem-abrigo ou Bipolar? O que nos dizem estas palavras sobre o seu percurso de vida? Onde estudou? Com quem viveu? O que gosta mais de ler, de ver na televisão ou de jogar? O que sente quando é, desta forma tão restrita, limitado a uma condição? Não estaremos à priori, a limitar as potencialidades da pessoa quando a definimos à luz da sua característica mais proeminente e da frequência com que essa característica se revela?

No Bairro procuramos ver o indivíduo como um todo. Um ser humano que cresce diariamente na interação que estabelece consigo próprio, com os seus pensamentos e os seus sentimentos. Na interação que estabelece com os outros nas suas mais variadas vertentes (académica, profissional, familiar, social) e no impacto que esta interação assume na sua capacidade de querer ser mais e melhor. E aqui chegamos a um dos pontos fundamentais deste artigo: em certo ponto, todos temos a nossa quota parte de responsabilidade pelo bem-estar de quem nos rodeia. Ilusório? Ora, quantos de nós, num dia em que sentimos a tristeza a assolar-nos o humor, vimos “a luz ao fundo do túnel” apenas (!) porque o padeiro, o revisor, a cabeleireira, o colega no escritório com quem nunca falamos ou o próprio vizinho nos fez esboçar um sorrio que seria, à priori, impossível de obter? Pessoas que à partida não seriam “um dos nossos” conseguiram ter um impacto positivo, mesmo que pontual e residual, no nosso bem-estar.

Até certo ponto, todos temos a nossa quota parte de responsabilidade pelo bem-estar de quem nos rodeia. E esta responsabilidade assume-se de forma mais intensa quando falamos em pessoas vulneráveis pela idade ou pela condição física/psicológica em que se encontram. Por isso, hoje, dia em que se celebra o Dia Europeu para a Proteção das Crianças contra a Exploração Sexual e o Abuso Sexual, estejamos atentos aos sinais que as crianças transmitem.

Sejamos capazes de parar, dar-lhes voz e aprovar todas as suas emoções que, tal como as nossas, são válidas e necessárias para o crescimento saudável e responsável. Como? Que tal começar por perguntar se “está tudo bem”? Se a resposta lhe colocar dúvidas, pergunte duas vezes. E se se sentir incapaz de conseguir ajudar, perceba que é comum esse sentimento surgir e para isso existem profissionais treinados. Na dúvida, encaminhe. Porque de facto, cuidar do nosso bem-estar e atentar ao bem-estar de quem nos rodeia, na lógica de que crescemos todos nesta interação individual e comunitária que se quer salutar e compassiva, é cuidar dos nossos próprios direitos enquanto seres humanos.

*Psicologia no Bairro

(Artigo que se insere no âmbito das comemorações do 70º Aniversário da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos – Plataforma “Aveiro Direitos Humanos” / Diário de Aveiro)