Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra…

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato…)

Alberto Ferreyra*

 

– ‘Comove-me ouvir esta peça de Bach. Um luterano que se decidiu a compor uma missa católica soma, à beleza da obra, uma mensagem intemporal: sempre que alguém ouvir cada nota destes coros saberá que nos falam de uma harmonia possível.’
M. contemplava e meditava sobre a vida, dando graças, como se em plena eucaristia, melodiosamente celebrada ao som da missa em si menor do barroco compositor de Leipzig.
As sextas-feiras da Quaresma despertavam, no espírito de M., a abertura ao eterno que a alienação dos dias parecia embotar. E aquela era uma grande sexta-feira. Preparava-se para participar na via-sacra que a levaria a percorrer as ruas e vielas de uma aldeia próxima da casa dos tios, onde vinha passar uns sumidos dias de férias.
A casa tinha a cor já esmaecida pelo tempo. (Não será, certamente, fortuito que, para os gregos antigos, Cronos, filho de Úrano e Gaia, seja pensado como um titã pré-olímpico que devorava os seus filhos. Ah, como parece devorar-nos o temível tempo!…)
Um rosa-salmão com janelas debruadas a branco. No rés-do chão, cinco portas abriam a casa para a rua que levava à estação, a maior delas integrada no recanto mais nobre da fachada, em que se contavam, ainda uma pequena balaustrada e duas trabalhadas janelas de maior dimensão. Nos dois andares superiores, duas filas compostas por cinco belas aberturas fenestrais cada uma. No interior, adivinhava-se alguma sobriedade, mas de bom gosto. As cortinas ligeiras prenunciavam um toque delicado. O ligeiro vento que ousava entrar pela pequena fresta de uma das janelas denunciava a leveza dos tecidos.
M. estava sentada a um canto da sala maior, no primeiro andar, num belo e ornamentado canapé que a família mantinha, desde longa data. Os temas lembravam os frisos do palácio de Wawel, herança dos tempos em que um antepassado combatera, pelos polacos, nos tempos napoleónicos, permitindo a Cracóvia manter-se uma cidade de liberdade perante o apetite voraz dos seus sempre sedentos vizinhos. O reconhecimento eterno tinha a forma do descanso efémero.
De olhos fechados, M. ouvia o longo diálogo de flautas que preparava o ‘domine Deus’. O eterno parecia fazer ali morada fugaz.
O tempo estendia-se, atrabiliário, como tapete de barregana repousado na madeira do soalho.
A realidade acabaria, porém, por impor-se. Ouvia-se, como o aproximar de um ladrão na socapa da noite, o arrastar dos passos do irmão que subia o escadório de madeira. Ainda que pretendesse passar despercebido, tudo rangia.
As sobrancelhas de M. uniram-se, temendo o breve finar daquele momento.
– Devíamos preparar-nos para sair. Ainda demoramos a chegar…
O entardecer tornava vizinho o sábado e era necessário partir das margens do Antuã rumo ao lugar onde a montanha beija o Vouga.
M. deixou, prontamente, a sua atitude ignávia e, ligeira, desceu as escadas.
J. esperava-a, com ar complacente.
Fizeram-se à estrada, traçando um percurso oposto ao do sol, que se punha, nas suas costas.
Como desejavam aquele momento! A via dolorosa levava-os a caminhar, interiormente, pelas dores maiores da humanidade, criando um oásis na alienação quotidiana.
– É um regresso à nascente! – Confidenciava J.
Partiram da igreja, descendo até à pequena, mas moderna, capela de Nossa Senhora da Saúde. O recente restauro da cúpula devolvera o brilho metálico que lhe permitia fazer-se vista ao longe.
As estações sucediam-se, entre descidas e longas subidas, por cristelos e lugares de antigas forcas.
A derradeira estação estava reservada para o ermo lugar do calvário. Dali, avistavam as serranias em que se acomodavam, lânguidas, as águas nascidas na Lapa.
Os olhares estavam baixos, meditativos.
Uma pequena capela, onde mal cabia uma família de dois filhos, tinha a perene companhia de um cruzeiro, o lugar onde, qual ergástulo eternizado, Cristo cumprira a pena de nos redimir.
A pequena multidão, ofegante, recuperava forças.
Um homem de tez morena, fundamente sulcada pelo correr da história, saindo como que do lugar onde nasce o sol, e trazendo no olhar o desejo de perdão entre andrajos velhos de tempo, encaminhou-se para o cruzeiro. Depositou, na pedra maior, uma pequena bolsa de atilhos, mais pequena do que um saco de pão. Inclinou-se como se fizesse uma subtil vénia e correu, monte abaixo. Não mais foi visto.
Ao respirar ofegante sucedera, agora, a silenciosa surpresa.
Ninguém parecia saber quem seria aquele andrajoso estranho de sobrecasaca feita de pedaços e movimento rápido.
Corajosa, M. abeirou-se da bolsa e leu um pequeno bilhete, preso a um dos atilhos. Dizia, apenas: ‘bolsa de Teódico’.
No seu interior, brilhava uma moeda antiga.
M. olhou para o senhor Abade – assim chamavam ao prior da terra, evocando os tempos em que aquelas terras viviam sob a luz de um renomado mosteiro -, como que pedindo assentimento para ficar com aquele súbito presente. O abade fora, em tempos, missionário nas terras do Islão. Difíceis, mas robustecedores tempos!
Os seus olhares suspenderam-se.
O prior encaminhou-se para M., aproximou-se do seu ouvido, e, tomando as suas duas mãos, fechou-as, com a bolsa: – Descobre quem é este ‘Teódico’.
– Parece-me um ‘dinar’ mongol. – Sussurrou J. – Encontro uma inscrição árabe que parece evocar a derrota destes às mãos dos homens das estepes asiáticas.
Depois daquela Via-sacra, M. não mais dormira descansada. Pretendia corresponder ao pedido que lhe formulara o senhor prior, entre a curiosidade e o assombro, mas o mistério adensava-se à medida que desempoeiravam a História.
– É estranho que haja uma inscrição árabe, sendo a moeda mongol.
– Não era invulgar que os mongóis assim o fizessem.
– Tem sentido. Vejo, nesta moeda, o que parece ser a derrota de um exército de soldados munidos de cimitarras. Mas não se percebe a inscrição árabe sob a imagem dos derrotados.
M. e J. sentiam-se sem rumo.
Talvez fosse de assumirem a derrota e reconhecerem, perante o prior da paróquia, a impossibilidade de desvendar este mistério.
No dia seguinte, regressariam às terras do Vouga, devolveriam a bolsa e dariam por finalizado o seu trabalho.
Cabisbaixos, deixaram, na caixa do correio, a bolsa, esperando não serem vistos. Regressaram a casa.
Mal regressados, receberam uma chamada telefónica.
– Tenho novidades. – Disse-lhes, entusiasmado, o prior da terra.
Não se demoraram. Já os esperava, à porta, o pároco, que os recebeu, feliz e de braços abertos, pronto para partilhar com eles a surpresa.
Encaminhou-os para a sala de visitas, onde uma lareira acesa permitia aquecer as mãos. Pois que frias vinham as suas almas.
– Penso ter desvendado a nossa enigmática bolsa de atilhos. As minhas reservas de grego permitem-me chegar à conclusão de que esta bolsa se referirá à ‘justiça de Deus’, resumida no nome que o nosso estranho visitante deixou escrito no bilhete. Deixo para o fim o alcance de tão significativo nome. E conto, ainda, com o meu amigo Iussuf, conhecido dos tempos em que missionei pelas terras do Islão, para nos ajudar a desvendar os restantes traços enigmáticos.
Iussuf tomou a moeda.
Logo o seu olhar se deteve na inscrição sob o exército de cimitarras tombado no chão.
Uma grossa lágrima sulcou-lhe a face.
– ‘Haxaxin’! – A voz embargada deixou brotar esta solitária palavra. Seguiu-se um longo silêncio.
E prosseguiu, recuperado.
– Esta moeda traz-me memórias duras. Muito dolorosas para o meu povo. Esta batalha fala da derrota de uma seita cruel de que ainda hoje permanecem, entre nós, as marcas. Por volta do ano mil, o ‘Velho da Montanha’ – assim o recorda a história – criou a seita dos ‘Haxaxin’, homens cruéis, que passavam tudo ao fio das suas cimitarras: os ‘assassinos’. Acabaram tombados à mão dos Mongóis. Nunca, até hoje, porém, se tinham reconciliado com o bem. O seu nome é dado a todos os que vivem da morte dos outros: assassinos! – E repetia o nome, como que procurando redimir cada um dos titulados.
– Quando vencidos, os mongóis depositaram, na sobrecasaca do único sobrevivente, uma pequena bolsa. Nela, repousava, apenas uma moeda. Multiplicar-se-ia, se fizesse o bem. Sumiriam, porém, todas as moedas acumuladas se voltasse a praticar o mal.
– No alto do calvário, quem vistes foi o derradeiro herdeiro dos ‘haxaxin’. Convertido, pois depositara, aos pés do Redentor, a moeda do início, intacta. Fechava-se, assim, o ciclo do mal.
M. e J. olharam um para o outro, adivinhando a interrogação que assaltava o fraternal interior.
– Quem possuir tal bolsa tem enorme responsabilidade.
– Chamem-lhe ‘alma’. Ela é a bolsa de Teódico que habita em cada um de nós. Vede quantos dinares ainda tendes. No dia definitivo, abrireis a bolsa e contar-se-á o que acumulastes. Entretanto, devolveremos a bolsa de Teódico ao local onde o derradeiro herdeiro do ‘Velho da Montanha’ no-la ofereceu. Talvez olhando o alto do Calvário os dinares da humanidade se multipliquem.


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se ‘silêncio’ (‘mystério’ alude à etimologia grega da palavra, que remete para o ‘fazer silêncio’, ‘emudecer-se’…) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito ‘branquinho’, fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra…