Rosto de Misericórdia – DIÁCONO AUGUSTO SEMEDO

Rosto de misericórdia – DIÁCONO AUGUSTO SEMEDO

Georgino Rocha (Texto)

Augusto Manuel Gomes Semedo nasce em 1936 na Vacariça, Mealhada, vem para Águeda e casa catolicamente com Maria Edite Marques de Castilho Soares, exerce o magistério de professor em vários escalões, vai progressivamente manifestando o seu “interesse” pelo que se passa na sociedade e na Igreja, intervém activamente na área educativa e de solidariedade para com os mais pobres, colabora nos serviços da paróquia, sobretudo na conferência vicentina de Santa Eulália, prepara-se para o exercício dos ministérios eclesiais, designadamente o diaconado permanente, vindo a ser ordenado a 22 de Maio de 1988, na Sé de Aveiro, por D. António Marcelino. Prossegue e reforça a sua dedicação, disponibilizando-se para o que, de acordo com a família, sobretudo a esposa, lhe vai sendo confiado pelo Bispo da Diocese ou solicitado pelo pároco de Águeda. Especialmente, porque o seu desejo de chegar mais longe não tem medida, a não ser a limitação humana e algumas circunstâncias ocasionais.

Ocorrências que são oportunidades
O Diácono Semedo (assim designado de agora em diante) vive um período histórico marcado pela turbulência da guerra nas ex-províncias ultramarinas portuguesas; acompanha o 25 de Abril de 1974 e sofre as derivas da revolução, sobretudo na orientação pretendida para a “nova” escola, para a família e para o trabalho. A turbulência sentida contrasta com a sua arte de lidar com situações difíceis. A serenidade e a lucidez do seu espírito “fazem-no” conselheiro muito apreciado por muitos.
Águeda, zona em grande desenvolvimento, converte-se em pólo de atração laboral e a ela chegam pessoas em demanda de trabalho e melhores condições de vida. Fábricas de vários produtos prosperavam devido ao esforço dos proprietários, muitos simultaneamente empregados, à localização e às condições favoráveis. Surgiam novas formas de pobreza material, que se vêem juntar a outras mais tradicionais como o desconhecimento de direitos básicos, a desconsideração social e as desavenças familiares, a ignorância religiosa. Pobreza que subsiste actualmente e faz sofrer as famílias que procuram ajuda para pagar a renda de casa, a água, luz e medicamentos; que se manifesta na perda de emprego e no número crescente de pessoas com necessidade de apoio, na perda do Rendimento Social de Inserção “por incapacidade de gerirem a sua vida”, declara Gomes Ladeira, presidente do Conselho Central, em entrevista ao jornal «Região de Águeda», a 06.10.2010. E conclui: “O perfil das pessoas a recorrer a ajuda mantém-se mas há também a pobreza envergonhada”. E com tendência agravar-se.

Cristão empenhado e professor competente
A força da fé e da bondade impelem o diácono Semedo a manifestar o seu ser no seu agir. Vive a lógica da coerência. Aprecia e cultiva a autenticidade. Irradia as convicções mais profundas que dão sentido ao que faz.
“Vem, desde há largos anos, dedicando à Igreja, sobretudo nos serviços socio-caritativos, esforçadas iniciativas comunitárias e diocesanas”, afirma, em 1987, o P. Manuel A. Carvalhais “Considerado na Escola professor competente e muito trabalhador, goza aí e na comunidade humana de boa aceitação e alargado prestígio”. E o, pároco de Águeda, depois de enumerar as áreas de serviço eclesial, designadamente a presidência de Assembleias Dominicais na ausência do presbítero, conclui dizendo: “Tem manifestado uma profunda consciência de corresponsabilidade laical”.

Vida espiritual séria
A vida espiritual séria é a fonte donde jorra a irradiação apostólica do diácono Semedo. Na família, na escola, no envolvimento social, na participação eclesial, na comunhão com o clero, designadamente os diáconos permanentes e o bispo diocesano. “Esforça-se por ser cristão de vida espiritual séria”, testemunha o P. Alberto Nestor, seu acompanhante pessoal e confidente amigo durante anos. E cita a fé prática, a frequência dos sacramentos, o cultivo do espírito de oração. “Posso afirmar que existe uma grande preocupação neste campo”.
A fé prática toma o rosto da caridade em obras que incansavelmente realiza ao longo de mais de cinquenta anos nas conferências vicentinas e em tantas outras formas espontâneas que ficam no segredo de Deus, apenas escritas no livro santo do Seu coração.

Testemunho do Delegado Episcopal
“Não imagina a surpresa agradável que tive ao folhear um dos meus livros – a tese de doutoramento – e encontrar a seguinte nota de informação: “Na introdução ao referido Relatório – estamos em 1987, é realçada a ordenação diaconal do presidente cessante, Dr. Augusto Semedo, e a atenção que o Conselho Central dispensa às Conferências Jovens, “amparando-as, fortalecendo-as e estimulando-as no sentido de se criarem novas conferências” E o texto continua: “ A adesão de jovens ao nosso movimento, tem-nos dado estímulo e constitui, hoje, uma realidade esperançosa”.
Este relatório refere um momento histórico da sua vida que se vinha a preparar há anos e se prolonga até aos dias de hoje. E oxalá por muitos mais! E sempre com o espírito que, desde o início, animava Frederico Ozanam. Como bem sabe, este santo leigo pretendia uma resposta prática, uma obra que desse visibilidade credível à beleza do ideal cristão E consegue-o por meio da atenção aos pobres”. ( Da mensagem enviada aquando da sessão de homenagem e reconhecimento ao Diácono Semedo pelos cinquenta anos de serviço vicentino).

Homem inquietado com o sofrimento dos outros
Quem ama sofre. Por não corresponder ao que o coração “manda”, por ver aumentar as necessidades que ficam sem resposta. Quem ama exulta. Pelo bem conseguido e convivido, pela solidariedade semeada a germinar.
“Partilho um pouco do que foi um dia de felicidade ao agradecer a Deus o privilégio de privar com um homem por Ele inspirado, dedicado à Igreja “mestra de humanidade” e ao serviço aos irmãos através das obras de misericórdia. Tantos escritos que nos chegam, palavras de anúncio, de denúncia profética, palavras de um homem inquietado com o sofrimento dos outros que, com uma coragem que nasce da fé, inquieta todos à sua volta. Obrigado diácono Augusto Semedo!”, afirma Fernanda Capitão, presidente do Conselho Central Vicentino. E conclui, renovando “a gratidão dos presentes ao Vicentino Augusto Semedo por mais de 50 anos ao serviço do Irmão que sofre”.

A voz dos colegas de ordenação
«Permitam-me uma palavra especial ao meu querido amigo Augusto Semedo, em recuperação pelo AVC que o atacou. Quero testemunhar-lhe a minha gratidão pela sua vida que ajudou a cimentar a minha fé. Em hora dolorosa para mim, deixou tudo para me acompanhar ao Hospital onde fui socorrido no momento exato de um enfarte. O Semedo foi e é um cristão de fé sem barreiras junto dos feridos da vida, integrado na Sociedade de São Vicente de Paulo e não só. Pela oração, pela exemplo, pela cultura, pela pastoral e pela ação sem alardes. Um muito obrigado, meu caro Semedo.» Fernando Martins
Em uníssono, pode fazer-se ecoar o reconhecimento dos colegas, felizmente evocado por este testemunho amigo.

O pobre na vida e missão da Igreja
O pobre ocupa um lugar central no coração de Deus e no agir de Jesus. Não é uma opção, mas um imperativo evangélico. Não é uma questão de modas, mas de coerência fiel à mensagem confiada à Igreja que explicita a solidariedade da natureza humana na sua criação original.
“O lugar do pobre na vida e missão da Igreja foi particularmente realçado no Ano Jubilar da Misericórdia”, continua o delegado episcopal na mencionada carta de congratulação. “E o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres a ser celebrado no domingo anterior à Festa de Cristo Rei, Senhor do Universo. Que maravilha! Que eficácia das “coisas” simples que vão fazendo o seu caminho. Que alcance teológico e eclesial, pois fica claramente indicado o tipo de realeza de Jesus a partir do pobre na sua situação existencial. Vale a pena ler toda a Nota Apostólica intitulada “Misericordia et Misera”, sobretudo no que se refere à instituição deste dia”.

A misericórdia tem feições próprias no rosto do diácono Semedo. A sua vida continua a irradiar presença serena e confiante. Em comunhão com os “feridos” humanos, sobretudo pelo sofrimento. A leitura do seu percurso existencial lança-nos a ponte com Carlos de Foucauld, o irmãozinho de Jesus, que repetia frequentemente: “que a minha alegria e felicidade sejam tais que quem me ver seja levado a dizer: se o servo é assim como não será o seu Senhor”.