António Capão – Membro da Academia Portuguesa da História

Aveirense Ilustre

António Capão – Membro da Academia Portuguesa da História

Cardoso Ferreira (Textos)

O historiador e membro da Academia Portuguesa da História, António Tavares Simões Capão nasceu no dia 27 de agosto de 1930, na Palhaça, concelho de Oliveira do Bairro, onde faleceu no dia 6 de novembro de 2012. Foi professor de liceus, do Seminário de Aveiro e do Magistério Primário, vivendo grande parte da sua vida em Aveiro.

Apesar de não ser natural de Aveiro, António Capão estudou, trabalhou e residiu nesta cidade, a qual também lhe serviu de inspiração para alguns dos seus trabalhos de investigação histórica e etnográfica.

Depois de completar o ensino primário na Palhaça, António Capão prosseguiu o ensino liceal no então Liceu José Estêvão, em Aveiro, após o que se licenciou em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo apresentando a tese “A Bairrada – Estudo Linguístico, Histórico e Etnográfico”.

Terminada a licenciatura, António Capão dedicou-se à docência, dando aulas no Liceu da Covilhã, no Liceu Sá de Miranda (Braga), no Liceu D. Manuel II (Porto), Liceu da Figueira da Foz e no Liceu Nacional de Aveiro (atual Escola José Estêvão). Do liceu aveirense partiu em comissão de serviço para o Liceu de Nampula (Moçambique). Regressou em 1974 a Aveiro, onde, por concurso público, foi nomeado professor do Magistério Primário.

A sua competência foi reconhecida ao ser convidado a integrar o grupo de trabalho para a estruturação dos currículos da Formação Superior de Professores do Ensino Básico.

Uma marca que sempre caraterizou António Capão foi a sua fé cristã, o que o levou a colaborar ativamente com a Igreja Católica em inúmeras ocasiões, fé que também ficou patente na sua obra literária.

Como passatempos, tinha um gosto especial pelo colecionismo, nomeadamente de selos, moedas, medalhas e conchas, entre outras temáticas.

Promotor da cultura popular

António Capão foi, desde muito novo, um defensor da preservação e valorização da cultura popular, dedicando muito do seu saber e tempo a essa tarefa, o que fez dele um profundo conhecedor das tradições, dos usos e costumes e da etnografia da região, tanto da Bairrada como também de Aveiro.

Dos utensílios agrícolas e de uso rural, até aos moinhos, passando pelos teares e pelos jogos infantojuvenis de outros tempos, tudo isso foi pesquisado e registado por António Capão em textos que publicou em livros e na imprensa.

A par dessa pesquisa e inventariação do património cultural popular, António Capão era defensor da valorização dessa memória passada, pelo que desempenhou funções diretivas no Museu de S. Pedro, da Palhaça. No entanto, o seu sonho era que cada aldeia possuísse o seu próprio museu. Esse desejo ficou bem expresso num seu texto, que apresentou no 2.º Encontro de Escritores e Jornalistas da Bairrada: “Cada aldeia deveria possuir um pequeno museu englobando todas as atividades que lhe são inerentes e cujas peças nele guardadas deveriam ser estudadas e devidamente catalogadas; cada sede de Concelho deveria possuir também um museu, mas representativo de todas as aldeias que lhe pertencem e de acordo com os vectores incidentes sobre as suas actividades características; em zona a estudar, dentro da própria região, com características próprias bem definidas, surgiria então o Museu da Região onde estariam representados todos os Concelhos dentro dos aspetos considerados mais representativos, em estreita ligação com todas as suas povoações”.

Também a história local motivou a atenção de António Capão, o que o levou a escrever vários livros sobre essa temática, com destaque para a publicação de diversas “carta de foral” de algumas terras da região.

Membro da Academia Portuguesa da História

No dia 13 de junho de 2011 António Capão foi eleito como membro da Academia Portuguesa da História. A sessão solene da sua “entronização” como académico ocorreu no dia 12 de outubro desse ano, na qual estiveram presentes personalidades da vida cultural do país, bem como familiares e amigos.

Nessa cerimónia, António Capão não esqueceu as suas origens humildes nem a sua formação religiosa. Depois de realçar a sua dedicação a áreas como Literatura e Língua Portuguesa, Etnografia, Geografia Linguística, Antroponímia e Toponímia, terminou o seu discurso dizendo que “ora, esta criança que nasceu há mais de 80 anos, que descalça pisou solos macios e barros gretados, que atrelou bois aos tradicionais instrumentos agrícolas e os guiou, que pegou nas arrabelas da charrua e na rabiça do arado, que estudou e se licenciou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que investigou, registou e escreveu milhares de páginas, essa criança, sou eu: António Tavares Simões Capão que, se Deus me der vida e saúde, continuarei a contribuir para o prestígio da Academia”.

Obra publicada

António Capão publicou inúmeros livros, entre os quais: “Os nomes Populares do Chapim e da Codorniz”, “Comunicação do XXVII Congresso Luso-Espanhol para o progresso das ciências”, “Dante, apóstolo, leigo do catolicismo”, “O Folclore Religioso em algumas aldeias Portuguesas”, “Dr. José Pereira Tavares, um grande professor do ensino liceal – Sua paixão pelo teatro”, “Freguesia da Palhaça – Contribuição para a sua monografia” – coordenação, “Carta de Foral da Vila de Frossos”, “As Cartas de Foral de Miranda do Corvo”, “Da Criação, evolução e Encerramento da Escola de Magistério Primário de Aveiro – 35 anos de labor fecundo”, “Carta de Foral de Oliveira do Bairro”, “Bodas de Ouro sacerdotais do Padre Manuel de Oliveira”, “Relance Histórico-Linguístico sobre a Região da Bairrada – Influências arábicas”, “Relíquias da Tecelagem”, “A Cultura Popular em Terras de Aveiro”, “Os Moinhos da Nossa Região – Sua Vida e Decadência”, “Três Palestras”, “O meu país das Libélulas”.

Venceu o prémio Literário Região da Bairrada em 1990, com o estudo “Relance Histórico-Linguístico sobre a Região da Bairrada – Influências Arábicas”.

Para além dessas obras originais, traduziu ainda diversos livros, nomeadamente “Deixem as Redes e Venham”, de René Voillaume, e “Despertar para Deus (O Despertar Religioso da Crianças) de Danielle Monneron”, em parceria com o P.e Dr. José Martins Belinquete.

Fez ainda introduções literárias para a coleção Clássicos de Bolso da Paisagem Editora e da Estante Editora sobre autores nacionais.

Colaborou em inúmeros jornais, com destaque para “Aveiro e o Seu Distrito” (Aveiro), “Aqua Nativa” (Anadia), “Boletim da ADERAV” (Aveiro), “Mundo da Arte” (Coimbra), “Jornal da Bairrada” (Oliveira do Bairro), “Soberania do Povo” (Águeda), “Correio do Vouga”, “O Ilhavense” (Ílhavo), “Voz do Norte” (Nampula – Moçambique), “Diário de Moçambique”.

 (A rubrica «Aveirenses ilustres» é promovida em parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga)