GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Um discurso de Ivan Illich –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 34. A «vaca sagrada» (cont.) – «A escola tornou-se a Igreja estabelecida dos tempos seculares. A escola moderna tem as suas origens no impulso para a escolarização universal, que começou há dois séculos como uma tentativa de incorporar a todos no Estado industrial. Na metropolis industrial a escola era a instituição integradora. Nas colónias, a escola inculcava nas classes dominantes os valores do poder imperial e confirmava nas massas o seu sentido de inferioridade diante desta elite escolarizada. Nem a nação, nem a indústria da era pré-cibernética podem ser imaginadas sem o baptismo universal na escola. O falhanço nesta era é semelhante ao marrano que decai na fé na Espanha do século XI.
Estamos, assim espero, a ultrapassar a era do Estado industrial. Mas, em todo o caso, não seremos capazes de continuar a viver se não conseguirmos substituir o anacronismo da soberania estadual, da autarquia industrial, e do narcisismo cultural – que estão misturados num ensopado de restos servidos pela escola. Só dentro dos seus sagrados recintos pode um semelhante caldo requentado ser servido aos jovens porto-riquenhos.
Espero que os vossos netos vivam numa ilha na qual a maioria dê tão pouca importância à assiduidade à escola como se dá agora à frequência da missa. Estamos ainda bem longe deste dia e eu espero que vocês assumam a responsabilidade para que tal ocorra, sem receio de serem condenados como heréticos, subversivos, ou criaturas ingratas. Talvez vos conforte saber que aqueles que assumirem a mesma responsabilidade em países socialistas serão igualmente denunciados.
Muitas controvérsias dividem a nossa sociedade porto-riquenha. Os recursos naturais são ameaçados pela industrialização, a herança cultural pela comercialização, a dignidade é subvertida pela publicidade, a imaginação pela violência que caracteriza os mass media. Aqui estão aqueles que querem menos indústria, menos inglês, e menos Coca-Cola, e ali os que querem mais. Mas todos concordam que Porto Rico precisa de muitas mais escolas.
Isto não quer dizer que a escola não seja discutida em Porto Rico. Bem pelo contrário. Seria difícil encontrar uma sociedade cujos líderes políticos e industriais estivessem tão preocupados com a educação. Todos querem mais educação, dirigida para o sector que representam. Semelhantes controvérsias servem apenas, no entanto, para firmar a opinião pública na ideologia escolar que reduz a educação a uma combinação de salas de aula, curricula, financiamento, exames, e graus.
Espero que por altura do fim de século, aquilo que hoje chamamos escola seja uma relíquia histórica, desenvolvida no tempo da ferrovia e do automóvel particular e descartada com ambos. Tenho confiança de que em breve será evidente que a escola é tão marginal para a educação como um curandeiro o é para a saúde pública.»
(Continua.)
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