GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Fenomenologia da escola (cont.) –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 24. Tempo. – Mas é pela prolongado tempo de escola que esta consegue obter particular impacto sobre todos os que nela participam: «A escola, pela sua própria natureza, tende a ter uma pretensão sobre a totalidade do tempo e da energia dos seus participantes. Isto, por seu lado, torna o professor um tutor, um pregador, e um terapeuta.» (Deschooling, p. 28)
A caracterização dos professores escolares nesta tripla vertente – certamente nem sempre aplicável (felizmente!), mas bem longe de inusual – é feita nos seguintes termos:
«O professor-enquanto-tutor [custodian] age como um mestre de cerimónias que guia os seus pupilos através de um prolongado ritual labiríntico. É responsável por julgar o cumprimento das regras e administrar as intrincadas rubricas relativas à iniciação na vida. (…)
O professor-enquanto-autoridade moral [moralist] é o substituto para os pais, para os deuses, ou para o Estado. Doutrina o pupilo acerca do que é certo e errado, não só a respeito da escola, mas da sociedade em geral. Encontra-se in loco parentis [no lugar dos pais] para cada um e assim assegura que todos eles se sentem filhos de um mesmo Estado. (…)
O professor-enquanto-terapeuta sente-se autorizado a mergulhar na vida pessoal do seu pupilo por forma a ajudá-lo acrescer como pessoa.» (Deschooling, pp. 30-31)
Até que ponto é forte o imaginário em torno da figura do «professor» é visível na já referida circunstância de, entre nós, durante a maior parte dos últimos 100 anos, ora o chefe de governo, ora o chefe de Estado, não abdicarem dessa forma de tratamento (mesmo se o exercício de funções políticas em nada tem a ver com essa qualidade).
Todas estas vertentes encontram-se estreitamente relacionadas com a distensão do tempo da escola. Um professor pode assumir tais funções apenas na medida em que tem ao seu dispor a possibilidade de gozar de uma audiência que durante um forte prolongado de tempo se encontra compelida a escutá-lo. A autoridade do professor não é carismática, mas funcional, resultante de um quadro institucional que lhe permite exercer uma posição de poder sobre um grupo de crianças ou de jovens.
É pelo condicionamento do espaço tempo que a escola consegue interferir de modo especialmente profundo com a intimidade da pessoa. «A pretensão de que a uma sociedade liberal se pode fundar na escola moderna é paradoxal. As salvaguardas da liberdade religiosa são eliminadas na relação de um professor com o seu pupilo. Quando o professor funde na sua pessoa as funções de juiz, ideólogo, e médico, o perfil fundamental da sociedade é pervertido pelo preciso processo que deveria preparar para a vida. Um professor que combina esses três poderes contribui para deformar uma criança muito mais do que as leis que estabelecem a sua menoridade legal ou económica, ou restringem o seu direito a livre assembleia ou residência.» (Deschooling, p. 31)
Semelhante exaltação da pessoa do professor tem lugar somente desde o profundo estreitamento de mundo que se dá em ambiente escolar. Se a quase integralidade do tempo de vida é vivido em ambiente escolar, então quem nele assume especial protagonismo tende a esgotar o horizonte: «Sob o olhar de autoridade do professor, múltiplas ordens de valor desintegram-se numa só. As distinções entre moralidade, legalidade e a parte pessoal esbatam-se e chegam mesmo a ser eliminadas. Cada transgressão é feita para ser sentida como uma ofensa múltipla.» (Deschooling, p. 32)
Consumindo uma parte significativa do tempo da população escolarizada, a escola afigura-se então como um território separado, sujeito a uma lógica própria distinta da do mundo profano: «A frequência das aulas retira as crianças do mundo do dia a dia da cultura ocidental e mergulha-as num ambiente bem mais primitivo, mágico, e mortalmente sério. A escola não conseguiria criar um tal enclave no qual as regras da realidade comum são suspensas, a não ser encarcerando fisicamente os jovens durante muitos anos sucessivos num território sagrado. A regra de presença torna possível à escola servir como um útero mágico, ao qual a criança é entregue periodicamente para cumprir o dia de escola ou o ano escolar até que é finalmente expelida para a vida adulta.» (Deschooling, p. 32)
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