GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Laïcité ou séparation –

(pp. 48-82)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 18. A chegada do Islão. – Justamente a chegada do Islão – a chegada em massa de comunidades muçulmanas ao coração do continente europeu bem mais de um milénio após a Batalha de Poitiers (732 d.C.) – permite confrontar o regime da separação com o contexto cultural-religioso próprio do Islão. Trata-se, como se sabe, de um tema muito delicado: entre a sua não tematização ou a abordagem estritamente polemística, é matéria que queima, e que um receio disfarçado de prudência convida a que não se aborde. Nas linhas que se seguem, as páginas de Marion serão lidas como colocando em análise uma posição – a islâmica – que, marcando a presença no espaço público, tem o direito a ser devidamente considerada, mas está igualmente sujeita a deixar-se examinar publicamente.

Ora, é característico da intenção religiosa própria do Islão justamente a não separação ideal entre o político e o religioso:

«Não se trata de um julgamento polémico, mas da constatação de que, para o Corão, a separação não apenas é duvidosa, mas mesmo contraditória com aquilo que um crente autêntico e sério deve a Deus: a organização da comunidade dos crentes implica necessariamente submeter-se a práticas sociais e políticas includentes.» (p. 65)

É justamente o ponto – observa Marion de modo tão pertinente – que capta a atenção de um Rousseau que, acabado de delinear o modelo do seu Contrato Social, propõe uma religião civil destinada a gerar a perfeita identificação de todos com todos e, portanto, com a realidade política. A visão islâmica provoca-lhe admiração. A respeito do contraste entre a religião cristã e islâmica, lê-se (na recente tradução portuguesa de Alexandre Franco de Sá, Edições 70, 2023, p. 221-222):

«Foi nestas circunstâncias que Jesus veio estabelecer na terra um reino espiritual; o que, separando o sistema teológico do sistema político, fez com que o Estado deixasse de ser uno e provocou divisões intestinas que nunca deixaram de alvoroçar os povos cristãos. (…) Muitos povos, todavia, inclusive na Europa ou em países vizinhos, tentaram conservar ou restabelecer o antigo sistema, mas sem sucesso; o espírito do cristianismo triunfara. O culto sagrado manteve-se sempre ou tornou-se independente do soberano e sem um vínculo necessário ao corpo do Estado. A visão de Maomé foi bastante acertada e montou correctamente o seu sistema político; e tanto que a forma do seu governo subsistiu sob o domínio dos califas, seus sucessores, mantendo-se uno e bom por esse facto.»

Esta questão – da recepção do Islão, e não a do lugar do cristianismo nas sociedades europeias – é que constitui hoje, escreve Marion, o desafio central a um regime de não separação. A questão, di-lo com grande crueza, é de «saber se o Islão permanecerá em França e, portanto, na Europa (…) semelhante ao que é noutros lugares» (p. 68), ou se encontrará o seu modus vivendi com o regime de separação.

(Continua.)

 


Imagem de Nabil Najem por Pixabay