GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

– Os mitos da escolarização –

 [Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 26. Os mitos do sistema escolar.Recuperemos brevemente a lógica da reflexão de Ivan Illich: de um lado, teríamos as conhecidas pretensões do sistema educativo; de outro, o seu potencial danoso (nn. 14 e ss.), que uma análise «fenomenológica» do sistema escolar ajuda a colocar em evidência (nn.º 21 e ss.). Importará agora explicar o que sustenta uma tal dissonância, isto é, a crença depositada numa instituição que, para Ivan Illich, manifestamente incumpre aqueles que são os seus propósitos declarados.

É assim que Ivan Illich se propõe a identificar uma série de «mitos» em que assenta o sistema de escolarização. Mito é usado, não no sentido técnico relativo a um específico género literário, mas no de «falsidade» que, apesar de o ser, legitima (indevidamente) determinadas práticas.

A escola inicia, primeiro, ao mito da institucionalização de valores, isto é, de que a medida de valor é dada pelo procedimento de produção. «A escola também inicia ao mito do consumo constante. Este mito moderno funda-se na crença de que qualquer processo cria inevitavelmente qualquer coisa valiosa e, por isso, a produção produz necessariamente procura. A escola ensina-nos que a instrução produz aprendizagem. A existência de escolas produz a procura de escolarização. A partir do momento em que aprendemos a ter a necessidade da escola, todas as nossas actividades tendem a tomar a forma de relações de clientela em relação a outras instituições especializadas. Assim que um homem ou mulher autodidacta foi desacreditado, toda a actividade não profissional foi tornada suspeita. Na escola é-nos ensinado que a valia do ensino é o resultado da assiduidade; que a valia da aprendizagem aumenta com os meios que se lhe destinam; e, finalmente, que este valor pode ser mensurado e documento por graus e certificados.» (Deschooling, pp. 38-39)

Tais valores poderão ser objecto de cálculo – é o mito da mensuração de valores.  «Os valores institucionais que a escola promove são quantificados. A escola inicia os jovens num mundo em que tudo pode ser mensurado, incluindo as suas imaginações e, de facto, o próprio ser humano. (…) As pessoas que se submetem ao padrão de outros para medirem o seu próprio crescimento pessoal rapidamente aplicam o mesmo critério a elas próprias. (…) A partir do momento em que as pessoas foram escolarizadas no sentido de que os valores podem ser produzidos e medidos, tendem a aceitar todos os tipos de rankings. Há uma escala para o desenvolvimento das nações, outra para a inteligência dos bebés, e mesmo o progresso em direcção à paz pode ser calculado de acordo com a contagem de corpos. Num mundo escolarizado, o caminho para a felicidade está pavimentado com um índice de consumidor.» (Deschooling, p. 40)

Relacionado com a institucionalização e mensuração de valores, está a crença na possibilidade do seu empacotamento, mediante o curriculum (n.º 25). «A escola vende o curriculum – um conjunto de bens feito de acordo com o mesmo processo e tendo a mesma estrutura que qualquer outra mercadoria. (…) É um conjunto de significados planeados, um pacote de valores, um produto cujo equilíbrio [balanced appeal] o torna comercializável para um número suficientemente vasto de pessoas que justifique o custo de produção. Os pupilos-consumidores são ensinados a tornar os seus desejos conformes aos valores no mercado. São assim feitos sentir culpados se não têm um comportamento conforme às previsões da investigação de consumo de obterem os graus e certificados que os coloquem na categoria profissional que foram levados a esperar.» (Deschooling, p. 41)

Finalmente, todo o procedimento escolar, uma vez assente nestes pressupostos, é autojustificante. Eis o mito de um progresso que se autoperpetua: «Mesmo quando acompanhada de resultados negativos na aprendizagem, paradoxalmente o aumento dos custos de instrução aumenta o valor do pupilo a seus olhos e a olhos do mercado. A todo o custo, a escola leva o pupilo para o nível de consumo competitivo de currículos, progredindo para níveis cada vez mais altos. As despesas para motivar o estudante a permanecer na escola disparam como um foguete à medida que sobe a montanha. (…) Se a escola não ensinar mais nada, ensina o valor de escalar: o valor do modo americano de fazer as coisas.» (Deschooling, p. 42)


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