Sáb. Set 18th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

CRITÉRIOS HERMENÊUTICOS

José Vicente Rodrigues*

  1. Os livros de João da Cruz, di-lo com autoridade a Bula de Canonização do Santo, estão «cheios de sabedoria celestial». E no Breve do Doutoramento afirma-se que «contêm tão copiosa doutrina espiritual e adaptam-se tão bem à inteligência dos leitores que com razão podem ser considerados como o código e a escola da alma fie desejosa de empreender uma vida mais perfeita». Chama-se também no Breve aos escritos sanjoaninos «límpida fonte do sentido cristão e do espírito da Igreja».

Todos ficamos impressionados gratamente pela importância e o valor atribuído por sua Santidade João Paulo II ao magistério sanjoanino no Discurso-Homenagem tributado ao Santo em Segóvia a 4 de Novembro de 1982.

  1. De acordo com todos estes louvores e apreciações, concordes com a experiência, os estudos e as investigações de tantas pessoas, podem formular-se algumas perguntas bastante óbvias:

Primeira pergunta: como descobrir essa sabedoria celestial e beber ou assimilar essa doutrina?

Segunda pergunta: Como se deve ler São João da Cruz?

Respondendo a estas perguntas praticamente ao mesmo tempo pode-se afirmar com segurança: mantendo sempre a devida distância, que nas Obras do doutor místico se encontram duas qualidades fundamentais que também aparecem juntas na Sagrada Escritura: a maior simplicidade e a mais sublime profundidade.

  1. Por esta razão, no estudo ou leitura destes livros ninguém se deve admirar de encontrar neles tanta franqueza e, ao mesmo tempo, se sentir cada vez mais estimulado a lê-los e relê-los comprovando que nunca se termina de os estudar e sempre se descobrem novas riquezas em razão da profundidade do pensamento. Esta comprovação faz-nos entender que existem dois modos de ler São João da Cruz: um, mais simples e corrente; outro, mais aprofundado.

No primeiro caso, o leitor fica com uma visão geral da sua doutrina. A sua mente vagueia ou evolui em todas a direcções e avança apoiando-se e detendo-se sobretudo nos símbolos – um pouco superficialmente captados – nos exemplos, nas comparações, nas figuras…

  1. No segundo caso, vai-se ao mais profundo, ao alto (em mística alto e profundo é o mesmo) e procura-se sobretudo a doutrina pura e o conteúdo vital das comparações, semelhanças, símbolos, figuras, etc. Estes dois modos ou estilos de leitura não são contrários, mas integram-se reciprocamente. Assim, penso, que faz o Santo ao escrever. Procurou dar a doutrina pura, «vertical», «substancial» diz ele (Subida, prólogo, n. 8); mas sabendo muito bem que tratava temas difíceis e de difícil compreensão, procurou o modo de os tornar mais fáceis e acessíveis. Para conseguir isto serviu-se de comparações, semelhanças, metáforas, símbolos, etc., e de um modo quase representativo e até encenado, dramatizado, como encontramos, por exemplo, no Cântico Espiritual, na Subida e na Noite (cf. CB prólogo, n. 1-2).
  2. Dois exemplos concretos destes modos de escrever e, portanto, de ler.

1º 2 S, c. 5: «Em que se declara o que é a união da alma com Deus. Põe uma comparação». Juntamente com a doutrina directamente exposta e expressa «para que se entenda melhor uma coisa e outra, ponhamos uma comparação» (ibid., n. 6): o raio do sol e a vidraça. É a única comparação prometida no título do capítulo. Mas, para que fique mais claro, acrescenta outra: a imagem primorosa e esmaltada e quantos a olham com mais ou menos claro e limpo poder visual.

2º 2 N, c. 10: explica de raiz a purificação da noite do espírito pela comparação do fogo e do madeiro «para maior claridade do dito e do que se há-de dizer» (n. 1).

6.Critérios mais particulares

Deixando de lado os critérios mais gerais aplicáveis à leitura de qualquer texto – não se deixar levar por preconceitos, entrar na mente e géneros literários do autor, etc. –, convém prestar atenção nalguns mais particulares e próprios de João da Cruz.

Perspectivas práticas

João da Cruz, ao escrever, tem uma intenção prática incontornável: por exemplo, veja-se Subida, todo o prólogo, que confirma isto; 2 N 22, 2; Cautelas, n. 1; Avisos a um religioso n. 1 e 10. Estas duas pequenas obras são do princípio ao fim uma proclamação da intenção prática do autor; mas, além disso, nos números citados di-lo do modo mais contundente. «Ditos de Luz e Amor», prólogo redigido em forma de oração a Deus Pai. Leia-se especialmente a última parte.

Em virtude desta intenção de utilidade prática que se pode rastrear mil vezes nos seus livros, o autor, conscientemente, deixa de parte muitas coisas que, na sua opinião, não vêm ao caso, mas que um leitor demasiado exigente na linha teórica poderia desejar ou exigir. Destas perspectivas ou intenções práticas deriva o facto de que escreva para ser prático-prático, quase sempre com a preocupação de ensinar o caminho mais recto, e, portanto, mais breve (ou, se quisermos ao contrário: mais breve porque mais recto) para chegar à perfeição: veja-se Cautelas: «… chegar em breve» (n. 1). Avisos a um religioso: «… muito em breve» (n. 10). Subida-título: «… trata de como poderá uma alma dispor-se para chegar em breve à divina união» (1 S 13, nn. 1, 2, 4, 7, etc.).

Esta preocupação pesa continuamente sobre ele levando-o a ser claro e breve, embora nem sempre p consegue, como ele próprio confessa em 2 S 14, 14.

Desde o cume

Com esta epígrafe, que provavelmente não contém bem o que quero dizer, procuro lembrar que João da Cruz escreveu, ou, pelo menos começou a escrever, as suas Obras maiores supondo que a alma cuja «ditosa ventura» ou aventura espiritual ia cantar e contar tinha já chegado à meta, ao cimo ou cume da perfeição, do Monte da Perfeição, à união perfeita com Deus.

Veja-se: Subida-título das «canções em que a alma canta a ditosa ventura que teve em passar pela noite escura da fé, em desnudez e purgação sua, à união do Amado». Os próprios tempos dos verbos o mostram. Pense-se no «sai» que é o verbo principal das três primeiras canções de Subida-Noite, embora só apareça escrito na primeira estrofe, Este mesmo verbo, neste mesmo tempo passado surge no Cântico, na primeira estrofe: «saí trás de ti».

O texto mais explícito na Noite: anotação imediata à transcrição destas canções. As expressões seguintes, numas afirmações tão explícitas, reforçam este critério: «estando já na perfeição»; «tendo já passado», «grande dita e ventura ter passado por ele»; «gozosa de ter passado»; ‘tanto bem se seguiu». Em CB 1, 2-5 observa-se também esta suposição subjacente.

Em CH B, prólogo, e em CH A, prólogo, n. 4, nas duas redacções fica também claro que a alma que fala está «já tão transformada e qualificada interiormente em fogo de amor que não só está unida neste fogo, mas faz já viva chama nela». Portanto, quando João da Cruz escreve as suas grandes Obras fá-lo com um olhar retrospectivo. Uma espécie de recordação, de reconto de algo já sucedido. Como alguém depois – e valha a comparação – de ter subido aos Alpes, olho desde o alto, desde o cume, e revê com os olhos e indica com o dedo os caminhos percorridos, os perigos superados, os estorvos ou inimigos ou dificuldades encontradas, as emoções sentidas, etc.

Juntamente com este modo de escrever, que podemos chamar histórico biográfico, João da Cruz procura aproximar-se da alma que quer ensinar (veja-se, por exemplo, CB 1, 6), e segue-a, precede-a ou acompanha-a, sempre como indicador do caminho e guia, na sua caminhada para a meta.

Aqui surge a pergunta ou dúvida, àa vezes: a passagem actual da alma corresponde sempre com quanto se diz ou escreve a um ponto determinado do caminho? A dificuldade está em averiguar qual destes dois homens que o escritor leva dentro prevalece: o historiador-biógrafo espiritual ou o prático-guia actual e montanhista da alma que vai sendo encaminhada. Exemplo: 1 S 15, 2. Sendo João da Cruz um poeta e a alma dos seus poemas alma enamorada, pode surpreender-nos em cada momento com antecipações mentais ou desiderativas e estar a cantar como já possuído o que ainda é algo por vir. Assim sucede em CB 20-21, em que fala, melhor, veio a falar de virtudes perfeitas como já possuídas «pelo desejo que tem desta perfeita união e transformação».

Às voltas com o inefável

Nos livros de João da Cruz, especialmente nos mais extensos, abordam-se argumentos ou temas obscuros e difíceis: mistérios de fé, da vida divina em nós, etc. Estas realidades sobrenaturais conservam sempre a sua obscuridade nativa intacta. Por isso, não nos devemos admirar de encontrar nos livros de João da Cruz coisas não tão claramente expostas. O autor sabe-o de sobra, melhor do que o leitor, e sente a incapacidade de se expressar: veja-se: 2 S 26, 1; 2 N 17, 3-5; CH B 3, 1; CH B 4, 7; CB 39, 5. Além do desgosto de não se poder explicar melhor, também ironiza quando no prólogo da Subida, n. 8, diz: «E, porque esta doutrina é sobre a noite escura, pela qual a alma há-de ir a Deus, não se admire o leitor se lhe parecer algo obscura».

Pede-lhe que não julgue impossíveis certas comunicações de Deus às almas: veja-se, CH B, prólogo, n. 2; CH B 1, 5: leia-se todo o texto, advertindo na força do Santo quando diz: «Mas a todos estes eu respondo…». Os destinatários da sua resposta são aqueles que «não o entendendo por ciência nem o sabendo por experiência, ou não o acreditarão, ou terão por demasia, ou pensarão que não é tanto como é em si». Pede novamente ao leitor que não pense que quem conta estas experiências ou vivências está a inventar ou a exagerar: CH B 2, 5 «não vos admireis que Deus chegue algumas almas até aqui».

É válido o conselho ou a ordem posta na Subida, prólogo, 8, de ler e reler o escrito. Além disso, quando nos encontramos com temas ou realidades que tocam mais de perto ou em cheio o inefável e ante o qual o Santo auto4 se sentiu aniquilado, perdido e incapaz de explicar mais as coisas, essa mesma incapacidade é um novo testemunho da realidade sentida ou experimentada.

Partículas explicativas e ponderativas

Um modo muito simples para descobrir os argumentos ou temas mais interessantes e candentes para o autor e para o leitor é ir seguindo as partículas exclamativas ou ponderativas que usa com tanta profusão: «Oh!”, “ah”, «ai”, “quão”… O próprio João da Cruz explica o valor ou alcance destas partículas: «A alma emprega nas quatro canções os termos oh e quão para encarecer o sentimento e apreço com que fala, pois eles denotam grande afecto. Os quais, cada vez que se dizem, dão a entender do interior mais do que o que se diz com a língua» (CH B – CH A 1, 2).

Em João da Cruz, portanto, estas partículas exclamativas ou ponderativas não são puras fórmulas ou simples recursos retóricos, mas servem para +encarecer», e diz mais com alguma delas, estrategicamente situadas, que com muitas palavras. Servem concretamente para encarecer e ponderar o inefável e para sublinhar o mais importante.

Exemplos: Nas canções da Chama: na primeira usa “Oh!” uma vez; na segunda usa “Oh!” quatro vezes; na terceira usa “Oh!” uma vez; na quarta usa “quão!” duas vezes. Isto na poesia. Nos comentários há um verdadeiro dilúvio de exclamações: veja-se CH B 2, nn. 5-8; nn. 16-20.

O “Oh!” aparece muito frequentemente como detector de temas e realidades de uma importância singular na vida e na conduta do crente, do espiritual. Dou apenas alguns inícios: «Oh, se soubessem os espirituais…!» (1 S 5, 4); «Oh, quem pudesse aqui agora dar a entender…!» (2 S 7, 5); «Oh, quem pudesse dar a entender até onde…!» (2 S 7, 6); «Oh, se se acabasse já de entender…!» (CB 36, 13). O “oh!” serve também, esclarece o Santo, «para desejar muito e muito rogar persuadindo» (CH B 1, 2). Com esta dupla função de desejar e rogar persuadindo usa-o dirigindo-se a Deus e ao leitor. Como exemplo inigualável este último pode-se citar a grande interpelação: «Oh almas, criadas para estas grandezas e a elas chamadas, que fazeis? Em que vos entretendes? As vossas pretensões são baixezas e os vossos haveres misérias. Oh! miserável cegueira dos olhos da vossa alma, pois para tanta luz estão cegos e, para vozes tão sublimes, estão surdos, não vendo que ao procurar grandezas e glórias vos tornais miseráveis e baixos, ignorantes e indignos de tantos bens!» (CB 39, 7; CA 38, 5).

Podem ver-se outros lugares parecidos: CH B 2, 28; 2 N 16, 7, 12; CH B 3, 38, 68, etc. Além destes casos, e muitos outros, em que se dirige aos leitores, à alma, um dos textos mais fortes quando se dirige a Deus para lhe falar dos homens encontra-se em 2 N 19, 4, no qual, em lugar do “Oh!” usa o “ai!” e o “quão!”. Inicia assim o seu lamento sobre a pouca generosidade e o pouco agradecimento dos mortais: «Ai, Deus e Senhor meu! Quão muitos há que andam a buscar a sua consolação…».

Na poesia «Numa noite escura», o “oh!” está a indicar o coração da vivência da alma que canta a sua ditosa ventura e, por isso, diz com todo o encarecimento e efusão: «Oh ditosa ventura!», repetindo este terceiro verso na primeira e na segunda estrofe. De igual modo, a estrofe quinta deste poema contém três vezes a exclamação, como em apóstrofe, à noite personificada:

Oh noite que guiaste!

Oh noite amável mais que a alvorada!

Oh noite que juntaste

Amado com amada,

amada no Amado transformada!

Algo parecido ao que dissemos das exclamações e ponderações há que dizê-lo das interrogações, seis, por exemplo, usadas na «Oração de alma enamorada», além do sinal de exclamação com que têm que adorná-la para captar o ímpeto e o ardor oracional, de vocativos, das segundas pessoas, etc. Todo deste conjunto significa algo e não só para quem escreve mas para quem lê e toma nota e interpreta simples mas inteligentemente.

Qualquer leitor pode encontrar muito facilmente muitos outros exemplos de exclamações, ponderações, interrogações. Encerro este ponto com um último exemplo de ponderação pelo qual se vê como o Santo sabe insistir e sublinhar as coisas. Já no fim dos capítulos em que fala dos danos dos apetites desordenados (1 S c. 4-10) assiná-la fortemente a situação: é grande lástima considerar como os apetites têm a pobre alma.

Quão desgraçada consigo mesma, quão seca para o próximo e quão pesada e preguiçosa para as coisas de Deus» (1 S 10, 4). Noutro lugar, comentando a força do «quão!» evangélico do texto de São Mateus 7, 14, enfatiza o que com aquela pequena partícula se significa: na qual autoridade devemos muito notar aquela exageração e encarecimento que contem em si aquela partícula quam (quão!). Porque é como se dissesse: de verdade é muito estreita, mais do que pensais» (2 S 7, 2). Também no texto sobre os apetites, antes citado, o leitor aprenderá que são muitos mais os males do que se pode pensar. A atenção neste campo a elementos tão diminutos como são, de facto, as palavras exclamativas e ponderativas põe nas mãos do leitor todos estes temas: importantes, inefáveis, e, sobretudo, põem-no em sintonia com o autor, dando-lhe com grande facilidade o seu contexto mental, psicológico e espiritual mais do que lógico em muitas ocasiões.

Questões acidentais

Há nas Obras de João da Cruz questões acidentais, digressões, nascidas de uma intenção prática bem determinada. Tais questões constituem uma espécie de pequenos tratados dentro das grandes obras e há que tê-las muito em conta.

Exemplos:

– 1 N, c. 1-7: defeitos dos principiantes.

– CH B 3, nn. 27-67; CH A 3, 26-58: sobre os três cegos que podem induzir a engano a alma. Os três cegos são o pai espiritual, o demónio, a própria alma. Pela presença dos cegos, a digressão é conhecida, já correntemente, como a digressão dos três cegos.

– 2 S c. 5: a união da alma com Deus. Escreve-se para que o leitor entenda melhor o que se vai dizer daí em diante e o que se disse até ao momento.

– CH B 2, 27-30; CH A 2, 23-26: porquê há tão poucos que chegam à perfeição da união com Deus. 2 N c. 19-20: dos dez graus de amor.

O próprio Santo dá-se perfeitamente conta de que, por vezes, sai do contexto lógico ou do comentário que está a fazer, mas, cede à utilidade prática que é o que mais lhe interessa. O caso mais claro é a digressão dos três cegos. Luta consigo mesmo, quer e não quer falar do caso. Por fim, fá-lo, com a intenção de ajudar os outros. E começa com uma exclamação: «Oh, que bom lugar era este para avisar as almas…» (CH B 3, 27; CH A 3, 26). É um exemplo perfeito do que são as digressões, da sua razão de ser e da sua importância para o autor e o leitor.

As dúvidas

Semelhantes às digressões são as dúvidas, metódicas ou metodológicas, que suscita deliberadamente ou a propósito, e às quais costuma responder extensamente.

A sua consciência de escritor fá-lo explicar a razão de ser dessas dúvidas. Preparando-se para escrever um dos melhores capítulos da sua obra (2 S c. 22), confessa:

«As dúvidas vão-nos saindo das mãos e, por isso, não podemos correr com a pressa que queríamos. Porque, assim como as levantamos, estamos necessariamente obrigados a esclarecê-las, para que a verdade da doutrina fique sempre clara e na sua força. Mas este bem há nestas dúvidas sempre, que, ainda que nos impeçam um pouco o passo, todavia servem para mais doutrina e claridade da nossa intenção como será a dúvida presente» (2 S 22, 1).

As dúvidas servem-lhe para reordenar ou reelaborar, às vezes, argumentos tratados, programar ou antecipar outros e com elas uma vez que as «desata», como ele diz, ficam abertas na exposição novas fontes de luz.

Exemplos:

– «Porquê Deus concede às almas visões sobrenaturais?» É a substância da dúvida proposta em 2 S 16, 13, à qual responde, conforme promete no n. 14 do mesmo cap. 16, no seguinte 2 S 17, declarando o fim e o estilo que Deus tem em comunicar à alma bens espirituais por meio do sentido. Na resposta, depois de voltar a pôr a dúvida (2 S 17, 1), ultrapassa, e muito, beneficamente, os limites da dúvida proposta; e assim, é um dos melhores e mais importantes capítulos, centrado todo ele na pedagogia de Deus.

– «Como não será lícito agora na lei da graça perguntar por via sobrenatural, como o era na lei antiga» (2 S c. 22: título). Capítulo extraordinário sobre a missão de Cristo na economia da história da salvação.

Desejo e posse de Deus: CH B 3, 23-26; CH A 3, 22-25.

Sobre a glória essencial: CB 38, 5.

Mortificação total dos apetites pequenos e grandes: 1 S 1-2. Relativamente a esta mesma matéria propõe outras duas dúvidas: 1 S 12, 1-3.

Se os aproveitados já não têm nunca que se aproveitar da via da meditação e discurso e formas naturais: 2 S 15, 1-5.

– «Como pode a alma sofrer tão forte comunicação na fraqueza da carne?»; CH B 4, 11-12.

– «Porquê, pois, a luz divino que, como dizemos, ilumina e purga a alma das suas ignorâncias, a chama aqui a alma noite escura?». Esta dúvida posta nos termos transcritos em 2 N 5, 2, ocupa-o ao longo deste capítulo e dos seguintes, incluído o 10, escrito «para maior claridade do que se disse e do que se há-de dizer» (n. 1). Mas, não termina aqui, continua a ramificar-se até ao cap. 15, de modo que, toda a primeira estrofe, no seu comentário, está construída sobre a dúvida.

João da Cruz enamorado do diálogo, a sua forma pedagógica predilecta no magistério oral, não se desmente no magistério escrito e continua com o mesmo sistema pedagógico. As suas dívidas são, na prática, perguntas e mais perguntas. Manifesta-o com fórmulas como estas: «parece que há muito que o leitor deseja perguntar» (1 S 11, 1); «dirá alguém» (3 S 2, 7-8); «dirás porventura» (3 S 2, 13); «e se me disseres» (3 S 3, 4); «dirás também» (Ibid.,); «e se ainda réplicas» (3 S 3, 5). A digressão dos três cegos está cheia destes incisos, perguntas e respostas, réplica e contra-réplica: «Portanto não digas» (CH B 3, 47); «ou dirás que» (Ibid., n. 48, 49): «Mas já que queres dizer» (Ibid., n. 57).

Declarações gerais

As grandes Obras (Subida-Noite, Cântico, Chama) são, como já se disse, comentários a algumas das suas poesias. Segue este método: pô-las-ei (as canções) primeiro juntas, e depois pondo cada canção, declará-la-ei brevemente; e depois, pondo cada verso, declará-lo-ei de por si» (CH B, prólogo, n. 4: cf. Subida, argumento; CB, prólogo, n. 4). É este o seu estilo, como comentador dos seus próprios poemas. É no Cântico e na Chama onde mais e melhor do que na Subida e Noite segue as canções, ajustando-se a elas nos comentários, mesmo quando se conceda as suas digressões, se encontram estas declarações gerais a cada uma das estrofes, ou ao grupo de duas, como no caso da 14-15 (CB) ou 13-14 (CA), e 20-21 (CB) ou 29-30 (CA).

Para repassar rapidamente o conteúdo das Obras, especialmente do Cântico e da Chama, bastaria ler a canção e a declaração geral corrrespondent5e. E no CB as anotações prévias, a estrofe e a declaração geral. Consegue-se assim uma visão sintética sucessiva e rápida dos temas com o menor esforço e o maior proveito, como já dissemos noutra ficha.

Recapitulações

Além das declarações gerais sintéticas mencionadas, o mesmo Santo oferece recapitulações muito concisas. Têm a vantagem de ser não antecipações ou adiantamentos de algo que deseja ou promete dizer ou expor. São passagens nas quais se esforça – e costuma consegui-lo – por redizer, sucintamente, o que já foi exposto.

Exemplos:

– 3 S 15, 1: do modo de governar a memória. É um resumo bem conseguido de todos os capítulos anteriores sobre a memória e a esperança. «Embora no que foi dito fica bem dado a entender, todavia, resumindo-lho (ao leitor, aceitá-lo-á mais facilmente».

– 2 N 21, 11: do ofício das virtudes teologais. Não se pode dizer mais nem melhor em menos palavras.

– 2 S 6, 2-4: a dinâmica teologal.

– 2 N 22, 2: porque se pôs a escrever Subida-Noite.

– 1 S 14, 1: resumo apertadíssimo de tudo o que foi dito anteriormente.

– CH B 1, 36; CH A 1, 30: resumo de toda a canção em forma de oração: «Oh chama do Espírito Santo…».

– CH A 2, 31: recopilação da canção: Falta em CH B.

– No Cântico gosta de dar, ao princípio da nova canção, o conteúdo da anterior ou anteriores. Vejam-se: CB 3, 1; CB 4, 1; CB 7, 1; CB 22, 2 e também o n. 3 em que fala do esquema ou distribuição mais geral  de toda a obra.

Visões sintéticas

João da Cruz dá, às vezes, visões sintéticas de toda a vida espiritual, de todo o caminho para Deus, em duas ou três páginas e até em pouquíssimas linhas. Não são nem declarações gerais das canções nem as recapitulações já referidas. Estas sínteses são preciosíssimas para a compreensão dos seus ensinamentos e para ver o poder de síntese da mente do autor.

Exemplos:

– 2 S 5, 5: apoiando-se no prólogo do evangelho de São João (1, 13) reduz muito bem o itinerário espiritual a: renascer por graça, morrer a tudo o que é homem velho, levantar-se ou elevar-se sobre si ao sobrenatural.

– CB, 23: toda a estrofe, mas, sobretudo, no n. 6 apresenta as perspectivas da vida do baptizado e os ritmos humanos do seu desenvolvimento espiritual.

– CH B 2, 32-36; CH A 2, 28-30: o itinerário espiritual na base da dialéctica homem velho e homem novo.

– A poesia suma da perfeição é realmente um resumo do que se deve fazer.

– As Cautelas e o desenho do Monte da Perfeição há que catalogá-los entre as sínteses melhor conseguidas no seu género.

– CH B 1, 11-13; CH A, 11-13: o centro mais profundo da alma é Deus. O modo de caminhar e entrar n’Ele.

– CH B 4, 14-16; CH A 4, 14-16: a presença de Deus no ser humano e como se alcança a intimidade mais plena com este Deus tão presente e tão próximo.

– A carta de 12 de Outubro de 1589 a Dona Joana de Pedraza é também um modelo nisto: uma espécie de síntese e programa de uma grande vida espiritual à base das virtudes teologais: «fé obscura e verdadeira», «esperança certa», «caridade inteira» e sempre em tensão para o eterno, a partir da temporalidade.

10º Géneros literários

Para compreender bem o pensamento de João da Cruz, a importância, o alcance e os limites das suas afirmações é elementar ter sempre em conta o género literário usado por ele. Os géneros literários, comparados, felizmente, a estilos arquitectónicos, foram definidos como «formas gerais e artísticas do pensamento com as suas características e leis próprias; são as classes ou categorias em que se enquadram as obras do espírito» (C. Vincent).

Uma coisa é certa: João da Cruz quer sempre, directa ou indirectamente, ensinar, melhor ainda, ajudar a quem ler para utilidade pessoal ou também alheia, como no caso dos padres ou directores espirituais. Mas o modo que segue na exposição do seu pensamento não é sempre o mesmo. Portanto, uma frase directa e intencionalmente didáctica não tem o mesmo sentido de uma expressão poética ou de enamorado, ou de umas páginas altamente polémicas ou apologéticas (cf. CB 29, 1-4).

Nunca esqueçamos que estamos diante de um grande poeta, mesmo quando escreva na prosa mais plana. A poesia não é contra a mística ou contra a vida espiritual, mas, antes, a seu favor, mas há que entender e calibrar essa linguagem plena, repleta de figuras, comparações e semelhanças, como o próprio autor adverte no prólogo do Cântico (n. 1). O Santo é um contemplativo, enamorado e artista que fala, além de uma alma simplesmente enamorada que, como tal, se expressa.

No prólogo do Cântico, n. 3, faz-se um dos maiores elogios possíveis da «teologia escolástica, com que se entendem as verdades divinas»; mas, acima dela, enaltece-se o exercício «da mística, que se sabe por amor, em que não somente se sabem, mas juntamente se gostam» as verdades. E precisamente para esta teologia mística pediu antes compreensão e alertou os seus leitores para que se saibam situar diante da mística, que podemos considerar também como género literário (cf. Ibid., nn. 1-2).

O género literário do aviso, sentença breve, apotegma pelo qual João da Cruz sentia predilecção, está bem representado nos seus «Ditos de Luz e Amor». A sentença rápida e urgente há que a saber integrar e interpretar pedagogicamente. Não é nenhum atentado contra as suas normas pedagógicas de ordem, suavidade, acomodar-se à pessoa humana, ao seu passo, ao seu ir pouco a pouco (2 S 17, 2-3; CB 23, 6). Os ditos são estímulos para empreender e seguir o caminho de Deus conforme a sua vontade.

Conselhos finais

Em plano de conselhos finais puramente práticos, recordaria: ler absolutamente tudo; semelhanças, citações da Escritura e as suas explicações, embora alguma vez possam parecer pouco pertinentes; pois acontece que às voltas com algumas destas interpretações que a alguns leitores lhes parecem pouco agradáveis, o Santo deixa cair frases, princípios, esclarecimentos muito importantes. Em O. C., pp. 37-38, podem ver-se outros conselhos além da leitura integral, tais como a sintonia espiritual, a sobriedade do discurso intelectual, a criatividade do leitor, a leitura sapiencial, a leitura existencial.

Segundo o leitor místico, «as almas limpas e enamoradas» são as mais capacitadas e habilitadas, em igualdade de circunstâncias, para sentir, gostar e entender a palavra de Deus contida na bíblia (CH B 1, 5). Acontece algo semelhante coma leitura de João da Cruz? É possível, tendo em conta a substância e a unção bíblica com que ele soube enriquecer e ungir os seus livros.

Mesmo quando se trate de uma breve poesia é de suma utilidade ter presentes as circunstância históricas e anímicas concretas, a situação vital do autor quando escreve. Exemplo singular: que bem sei eu a fonte…, composta na escuridão da prisão de Toledo com uma fome insaciada e insaciável de Eucaristia.

Tenha-se também presente na leitura d doutor místico essa espécie de “inspiração” divina que guiou a sua pena em circunstâncias e da qual ele tinha plena consciência (Cântico, prólogo, nn. 1-2; CH prólogo, n. 1).

Esta «inspiração» pode coincidir em parte com o que chamamos mais acima ciência infusa e pode também ultrapassá-la, pois não se refere só ao conteúdo mas ao estilo e à vibração com que escreve.

Embora pareça um conselho já embebido em todos os anteriores, há que ler, como conselho final, o conselho dado pelo próprio João da Cruz:

«E, porque esta doutrina é sobre a noite escura, pela qual a alma há-de chegar a Deus, não se admire o leitor se lhe parecer um tanto ou quanto obscura. Julgo que isso será apenas ao princípio, quando começar a ler. Depois, à medida que for lendo, irá entendendo melhor o que leu, porque vai-se explicando uma coisa com outra. E, se voltar a ler uma segunda vez, ainda lhe parecerá mais claro e a doutrina mais sadia» (Subida, prólogo, n. 8).

Este conselho referente a Subida-Noite tem valor universal em toda a leitura e em todo o estudo sanjoanino: uma primeira leitura, uma segunda, uma terceira, e o leitor irá descobrindo novos horizontes, novas riquezas.

Não se trata de livros que se possam despachar com uma simples olhar; há que aprofundá-los. Há que amá-los, há que saboreá-los e lê-los mil vezes, se quisermos beneficiar da luz e do calor que contêm. Finalmente, para entender a João da Cruz – não superficial, mas profundamente – é muito necessária a empatia, isto é, essa comunhão afectiva e intelectual entre ele e os seus leitores, entre ele e os seus seguidores.


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 162 -172.


Imagem: Sepulcro de S. João da Cruz, em Úbeda, Espanha