Qui. Out 28th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

CAUTELAS – QUATRO AVISOS A UM RELIGIOSO – GRAUS DE PERFEIÇÃO

José Vicente Rodrigues*

1 – Para compreender correctamente o conteúdo destas poucas páginas temos de saber o que significa exactamente o termo «cautela». Aqui significa a prudência e a precaução com que devemos proceder e o cuidado com que devemos comportar-nos e prevenir-nos para não nos deixarmos enganar «e evitar os perigos ou impedimentos que podem ocorrer com cor de virtude».

2 – O fim prático-prático do Santo, e que já aparece no título, domina e dirige todas estas normas de vida espiritual do princípio ao fim, que se tornam num prontuário de vida espiritual religiosa.

3 – Pura estratégia. A estrutura literária é simplicíssima: uma pequena introdução ou prólogo. Seguem-se nove cautelas: 3 contra o mundo; 3 contra o demónio e 3 contra a carne.

4 – Caracteriza os inimigos da seguinte maneira: o mundo, o menos dificultoso; o demónio, o mais obscuro de entender; a carne, o mais tenaz e duram os seus ataques duram enquanto dura o homem velho (n. 2).

O método é este: formula a cautela, indica os danos ou prejuízos de não a observar e indica os frutos ou vantagens de a observar. Este método de apresentar o seu ensino é muito usual no Santo, por exemplo, em 3 S 18-20; 21-23; 24-26; 27-29, etc.

5 – Não abordamos aqui todo o texto. Sublinhamos que em todas as cautelas estão muito presentes as virtudes teologais alimentando com esta verdadeira substância as profundas exigências da vida religiosa, pois inicialmente foram escritas para a comunidade das carmelitas descalças de Beas de Segura (Jaén).

De facto:

a) A primeira contra o mundo é a aplicação concreta e encarnada da caridade para com aqueles que fIcaram fora do convento.

b) A segunda contra o demónio, põe em acção a esperança.

c) A terceira contra a carne, acciona novamente a caridade mais fina e delicada no convento e com os do convento, dentro de portas.

d) A primeira contra o demónio e a segunda falam da obediência, cujo fundamento e razão de ser é a .

e) A terceira contra o demónio fala da humildade, mas em ordem à verdadeira caridade, ou melhor ainda, fala-se do exercício da caridade humilde, dessa humildade que, segundo o Santo, tem os efeitos da caridade (cf. 1 Cor 13, 4-7).

f) A primeira contra a carne exige para aceitar este modo de vida e as exigências espirituais que traz consigo.

g) A segunda e a terceira além da fé – fundamento da obediência e de toda a vida religiosa –, tornam presente a esperança nos conselhos de não buscar, nem apegar-se ao gosto e ao sabor, e isto é pobreza de espírito igual à actuação da esperança. Por fim, e de modo mais pleno, encontra-se a caridade, o objectivo final: o princípio, o meio e o fim de tudo.

Quatro avisos a um religioso

1 – Um irmão da Ordem pediu ao Santo uma instrução para a sua vida, para saber equilibrar o seu trabalho com a sua vida de oração. Frei João responde-lhe resumindo a sua doutrina em quatro avisos: a resignação, a mortificação, o exercício de virtudes, a solidão corporal e espiritual.

a) A resignação não tem um sentido negativo ou pessimista, mas alcança-se com a santa indiferença em relação ao que e aos que nos rodeiam.

b) A mortificação: não esqueça «que não veio para o convento senão para que o lavrem e adestrem na virtude». Daqui hão-de nascer as atitudes e os comportamentos que há-de ter na relação com os outros.

c) O exercício das virtudes: agir em tudo «só por Deus» e, consequentemente, ter em conta a razão teologal para fazer as coisas por Deus, sem elevar a norma de conduta o gosto ou o desgosto que se pode sentir. Além disso, procurar a humildade com todo o coração.

d) A solidão: fazer o que tem a fazer sem se sentir culpado de nada «pois não é isso o que Deus e a obediência quer». Para isto, há que procurar «ser contínuo na oração» e não a deixar no meio dos exercícios corporais. «Ande sempre desejando a Deus e afeiçoando a Ele o seu coração, que é coisa muito necessária para a solidão interior».

2 – Este pequeno tratado tem um grande paralelismo com as cautelas. O primeiro aviso é muito semelhante na letra e na doutrina à terceira cautela contra o mundo; o segundo é semelhante, embora este seja mais extenso e abundante, à primeira cautela contra a carne. O terceiro, na sua primeira parte (n. 5), é semelhante à segunda cautela contra a carne; na sua segunda parte (n. 6) parece-se à terceira cautela contra a carne as palavras «procure também»… até ao fim do n, 6 é semelhante à terceira cautela contra o demónio. O quarto ensina o modo de se comportar em relação às coisas deste mundo, semelhante ao paulino «usar deste mundo como se não se usasse» (1 Cor 7, 31).

3 – Na conclusão indica-se a interdependência destes avisos, quer dizer, das virtudes e atitudes propostas neles. E recorda-se, em pleno estilo sanjoanino, a eficácia e a rapidez santificadora das mesmas: «muito em breve será perfeito».

Graus de perfeição

O Santo pode ter enviado este «graus de perfeição» à mesma pessoa a quem dedicou os «quatro avisos». Entre os 17 graus, exorta a viver a presença de Deus (n. 2), a imitar a Cristo (n. 3), a não deixar a oração mental, pois «é sustento da alma» (n. 5; cf. também o n. 9). As últimas palavras lembram que «muito se aborrece Deus com os que não antepõem o que Lhe agrada ao beneplácito dos homens» (n. 17).


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 207 -209.


Imagem de Peter H por Pixabay