Qua. Out 27th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

CARISMA POÉTICO E CONTEMPLAÇÃO

José Vicente Rodrigues*

  1. Antes de penetrar na espessura da doutrina e da mensagem sanjonina quero, como fiz já há alguns anos, dizer algo sobre o título desta ficha. Tema imenso e difícil por três lados: pelo carisma, pela poesia e pela contemplação. Agora, quero recordar, de modo positivo, como o carisma poético de João da Cruz com as suas derivações na área da contemplação foi realçado e com autoridade por Paulo VI na sua Carta Apostólica Altissimi Cantus – com ocasião do sétimo centenário do nascimento de Dante Alighieri, 7 de Dezembro de 1965 –. Ao fazer menção dos poetas cristãos o Papa cita entre os mais eminentes a São João da Cruz.

Nessa mesma carta pontifícia dedicam-se algumas reflexões ao tema: a relação entre a teologia e a poesia; a oração e a poesia. Não há dúvida de que essas reflexões são muito mais verdadeiras no caso do doutor místico do que no de Dante, pois João da Cruz é muito mais santo, muito mais teólogo, muito mais contemplativo e não menos poeta do que Alighieri, embora as comparações sejam odiosas.

  1. No documento pontifício sublinha-se o facto de que «os contemplativos, isto é, os homens religiosos por excelência, mais do que ninguém, são candidatos à Poesia, à grande Poesia; e propõem-se como modelos dela, assim julgados por todos, os vaticínios dos profetas e os Salmos de David.

E o Papa acrescenta:

«… em realidade entre os místicos e os verdadeiros poetas e, em geral, entre os cultivadores das belas artes, das quais a poesia é animadora e mãe, existe um secreto parentesco. O dom poético corresponde na ordem natural ao que na ordem sobrenatural é o dom profético e místico; e, nos dois casos, quando se dão esses dons, existe um processo psicológico análogo. Os dois procuram a morada mais escondida da alma, o ponto mais alto do espírito, o centro do coração, onde uns sentem a presença de Deus e os outros, os poetas, embora não plenamente compreendida, mas sim suspeitada e intuída (ou pressentida) a presença de um dom do autor da Beleza».

  1. No caso de João da Cruz, o místico e o poeta encontram-se na mesma pessoa. Daí o poder da sua palavra poética, que, pelo menos nos grandes poemas: Numa noite escura, nas 40 canções do Cântico, nas quatro da Chama, em Que bem sei eu a fonte…, se transformou em «ditos de amor em inteligência mística» (CB prólogo, n. 1).

A confissão de Santa Teresa, falando de si mesma, confirma como diante das urgências interiores da experiência mística religiosa mesmo pessoas que não são poetas por dom natural são capazes de se expressar em poesia (Vida 16, 4).

Os poemas sanjoaninos são o fruto do encontro misterioso do dom poético e da experiência mística: o melhor veículo das suas vivências psicológicas naturais e sobrenaturais.

4.Um poeta doutor da Igreja?

A biografia de João da Cruz refere-nos, nalguns casos com abundantes detalhes, como nasceram os seus poemas e os comentários posteriores em prosa. Em comparação com muitos dos que escrevem há muito poucos que sigam ou tenham seguido o método adoptado pelo Santo: declarar, comentar em prosa os próprios poemas, saturados de sabedoria contemplativa.

Quando se procurou que a Santa Sé declarasse doutor a São João da Cruz, os dois teólogos que ex officio apresentaram os seus Votos ou pareceres tiveram que responder a uma objecção que se referia precisamente à forma poética e literária usada pelo Santo. Ao primeiro destes teólogos apresentou-se-lhe assim (em latim):

«A forma usada por São João da Cruz nos seus escritos não parece tão conveniente num Doutor da Igreja («minus decet Ecclesiae doctorem»); pois como costuma comentar alguns poemas por ele compostos, a sua exposição torna-se menos clara e menos teológica e científica de quanto seria de desejar».

  1. Era esta a objecção. A resposta foi a seguinte: «Como antigamente Platão encerrou a suma filosofia nos seus diálogos e mitos, assim São João da Cruz pôde expressar a sua altíssima doutrina mística em poemas e canções e em comentários às mesmas; e isto vale, sobretudo, porque por este caminho se podem comunicar melhor, quanto é possível, as luzes infusas e os ímpetos de amor infuso que constituem por assim dizer a “mística experimental” e dos quais trata a “mística especulativa”: e nisto São João da Cruz é grande místico ao harmonizar na sua pessoa as duas coisas: a experiência e a doutrina mística».
  2. A segunda objecção (em francês), diz assim em castelhano (=português):

«Poder-se-ia objectar que São João da Cruz não fez obra de teólogo, porque se exprime numa linguagem poética e simbólica».

O teólogo encarregado desta objecção respondeu assim:

«Distingamos: o nosso Santo usa os versos e as figuras para descrever as experiências místicas; mas usa a linguagem própria quando dá a explicação teológica dos mesmos- Por outro lado, para o uso das figuras, autoriza-se com o exemplo da Sagrada Escritura; no prólogo do Cântico Espiritual mostra admiravelmente a razão de ser deste procedimento».

  1. Poderíamos dar como «suficiente» e «bastante» a resposta dos dois teólogos. Mas hoje, vendo as coisas numa altura superior e sobrevoando as mesmas questões e objecções – por mais que tenham todo muito de puro trâmite – e integrando-as nos critérios fornecidos pelo mesmo Paulo VI que acabamos de citar, transformaríamos a forma poética e simbólica não numa objecção mas num mérito particular e num valor excelso e positivo.
  2. A mensagem do Concílio aos artistas, entre eles «aos poetas e pessoas de letras», manifesta o valor da palavra, e, muito concretamente, da palavra poética, para traduzir a mensagem cristã.

Entre estes receptores-transmissores há que colocar, sem dúvida, em lugar eminente a João da Cruz, um daqueles que os padres conciliares chamaram «guardiães da beleza no mundo».

As várias referências nos documentos conciliares, particularmente na Constituição sobre a Liturgia e na “Gaudium et Spes”, às artes, realçam uma vez mais o valor destes homens singulares e a riqueza dos seus contributos para o humano.

  1. Enquadra-se bem com as palavras de João da Cruz, poeta, quanto escreve Karl Rahner sobre as por ele chamadas «protopalavras» ou «palavras originais» que se vão configurando como «palavras unificantes e conjuradoras, mensageiras antes de tudo da Realidade, proclamadoras»; as quais são «a casa encendida da qual saímos, embora de noite. Estão sempre repletas como de um leve som de infinidade». Por estas palavras «abre-se-nos a porta que conduz à insondável profundidade da autêntica realidade».

E tem toda a razão quando diz que «ao poeta foi confiada a palavra. O poeta é, pois, um homem que sabe dizer profundamente (verdicht) palavras originais… O seu falar torna-as belas, porque a autêntica beleza é a manifestação pura da realidade, e esta acontece, sobretudo na palavra». E o destino e o dom do poeta, acrescentemos nós aqui: e, em concreto, de João da Cruz, resume-se em «falar estas palavras profundamente, de modo que as coisas, como redimidas e nomeadas essencialmente, penetram na luz de quantos escutam».

  1. As reflexões de Rahner sobre o sacerdote e o poeta, sobre o poeta que clama pelo sacerdote e sobre o sacerdote que clama pelo poeta, sobre «a palavra poética que clama pela Palavra de Deus e do raro prodígio de que o sacerdote se torne poeta e o poeta sacerdote» adquirem um valor particular no caso de João da Cruz. Assim, as suas palavras, especialmente os seus «ditos de luz e amor em inteligência mística» (CB-CA, prólogo, n. 1), são «as protopalavras do homem, sublimadas pelo Espírito divino, e podem chegar a ser palavra de Deus, porque um poeta se fez sacerdote. Estas mesmas reflexões servem apara avaliar o contributo de João da Cruz, por meio da sua palavra poética, à teologia e ao cristianismo, sendo verdade que «o poético é, na sua essência última, um dos supostos do cristianismo».
  2. O próprio Rahner pergunta: «Por quê não existirá uma teologia da palavra?». E admira-se de ninguém se ter lançado ainda a escrevê-la «suscitando assim uma teologia viva da palavra». A pergunta e a resposta eficaz, que consistiria na sua elaboração, têm que ser referidas mais do que nada à palavra poética.

Temos de ter em conta também as considerações de outros autores contemporâneos, em particular de Hans Urs Balthasar sobre a revelação e a beleza, e, sobretudo, as páginas dedicadas a João da Cruz na sua obra Glória. Subscrevo com gosto a conclusão do autor: «João da Cruz tem toda a razão apresenta a parte doutrinal da sua obra como um comentário desajustado e inferior às poesias, onde têm lugar os autênticos pronunciamentos de que nenhuma prosa é capaz».

Se dermos crédito e aprovarmos a justeza desta autocrítica, resulta que é Doutor da Igreja mais como poeta do que como prosista. Exige assim, de modo singularmente valioso, a atenção sobre o carácter do mesmo Verbo de Deus (= a mesma Palavra divina), que tão-pouco é mera prosa, nem é adequadamente traduzível em simples prosa, mas, na sua simplicidade, habita a plenitude da divindade, como o sentido num símbolo insondável».

  1. Com o impulso recebido do ensino de Paulo VI sobre o carisma poético e a contemplação e as luminosas reflexões de Rahner e Hans Urs von Balthasar fica bem esclarecido o universo poético de João da Cruz no seu aspecto mais profundo.

Não me vou entreter a enumerar e apreciar os valores poéticos de João da Cruz. Aqui dou apenas um simples apontamento. Depois dos já conhecidos elogios da poesia sanjoanina feitos por Menéndez y Pelayo, qualificando-a de «angélica, celestial e divina», etc. escreveu-se muitíssimo sobre João da Cruz poeta. Com a ocasião do quarto centenário do seu nascimento em 1942, apareceu o livro de Dâmaso Alonso A poesia de São João da Cruz (Desde esta ladeira), que supôs um novo avanço nos estudos da poesia sanjoanina. A maior parte do livro se dedica a investigar as fontes da poesia sanjoanina.

O autor fala de «raízes» e encontra:

  1. – Raiz espanhola. A tradição culta: Garcilaso, Boscán y Garcilaso ao divino.
  2. – Raiz espanhola. A tradição castelhana: Elementos populares e do cancioneiro. Os elementos populares nos poemas decassílabos.
  3. – Raiz bíblica: O Cântico dos Cânticos.

Dâmaso Alonso examina nos últimos capítulos do livro o estilo e os poemas. A temática e a estrutura dos poemas maiores e menores e concluirá dizendo: «São João da Cruz é um maravilhoso artista literário e o mais alto poeta de Espanha; este máximo poeta ganha tal cume literário […] com uma obra mínima; quatro ou cinco poemas em decassílabos e uma meia dúzia de composições em metro menor».

Este pequeno livro supôs um novo impulso nos estudos sobre a poesia de frei João. Noutro centenário, o IV da morte do Santo, 1991, voltou-se à análise e contemplação da sua obra literária, em verso e em prosa. Quero referir-me apenas a dois autores tão prestigiados como Cristóvão Cuevas e Maria de Jesus Mancho. Os dois ofereceram os frutos das suas investigações: detendo-se o primeiro na cronologia do processo criativo, na experiência e misticismo que envolvem a origem dos poemas, nas leituras e canções que também o puderam inspirar, nas suas formas poéticas. «Em última instância, dirá, a lírica de São João da Cruz emociona-nos, sobretudo, pela magia verbal que nela late. […] É a sensibilidade, os anelos de infinito, o anseio de um mundo ignoto mas, paradoxalmente, sempre suspirado, o que estes versos excitam. Daí a sua insondável profundidade poética, o seu poder embriagador, o seu incontaminado lirismo».

Maria Jesus Mancho no seu trabalho Criação poética e componente simbólica na obra de São João da Cruz, não se limita ao mundo poético da João da Cruz mas também à sua prosa, afirmando a inefabilidade da experiência mística, vai examinando a relação entre a mística e a poesia, estudas as figuras, imagens e símbolos, a multivalência, o dinamismo, a bipolaridade, e a função criadora dos símbolos, e as raízes afectivas dos mesmos, para concluir falando dos símbolos e arquétipos. «A obra de São João da Cruz, arrebatada de mistério e poesia, continua, ainda, a atrair e a desafiar interpretações, derivadas primordialmente do seu inerente e significativo simbolismo».

Escreveu-se e continua-se a escrever muito sobre a produção literária de João da Cruz, que nos sentimos ultrapassados e, pelo que se refere ao repertório poético do Santo, desistimos de tratar disto. É este o meu caso.

Colocado na mesma aventura há anos optei por juntar algumas observações de autênticos poetas sobre os versos de João da Cruz. O poeta entende o poeta, compreende-o melhor, em igualdade de circunstâncias, do que outros sem este dom das musas. Agora continuo a acreditar cada vez mais na empatia artística e deixo ao leitor que escute algumas destas apreciações primorosas feitas pelos poetas seus irmãos.

Gerardo Diego, por exemplo, diante da produção poética de São João da Cruz, na qual tudo são «canções», «coplas», «glosas», «romances», dizia esta palavra definitiva: «Partamos da verdade inquestionável de que a poesia nasceu com pleno direito à vida acústica e sonora. Em rigor, a poesia lírica, o mesmo que a épica, foi na sua origem, não já recitada ou declamada mas cantada. Só mais tarde experimenta essa amputação que supõe ver-se despojada da música. Para os letrados e afeiçoados dos primeiros séculos da poesia culta em cada cultura idiomática, a audição de poesia não cantada, simplesmente recitada, supunha o mesmo obscurecimento, recato e intimidade descolorida que para nós a sua comunicação silenciosa desde o livro, rezada em voz baixa ou acaso inteiramente áfona e confiada só aos olhos e ao ritmo enganoso da tipografia».

Tem toda a razão este nosso grande poeta montanhês que, desde a história e desde dentro de si mesmo, sabe tanto desta vinculação da poesia com a música. A poesia sanjoanina, nascida, como poucas, para a música, deve ser tirada da sua mudez recitando-a em voz alta e deixando-se invadir por toda a musicalidade que contém. Neste campo «o ideal é que o próprio poeta seja o seu intérprete». João da Cruz, logo que saiu do cárcere toledano, cumpriu o ofício de recitador, intérprete ou declamador de alguns dos seus versos, que contagiaram «da sua pessoal emoção corporal de poesia» a comunidade de carmelitas descalças na mesma cidade de Toledo. As ouvintes desse primeiro recital testemunham que «era um gozo do céu ouvi-lo». Gozo do céu e da terra ouvir também frei João noutras ocasiões recitar os seus poemas e cantá-los pelos caminhos de Castela e Andaluzia. O mesmo Gerardo Diego escreveu: «O que não daríamos para ouvir e ver a Lope de Veja dizendo os seus versos, ou a São João da Cruz rezando os seus celestes!».

À parte destas nostalgias, para intuir o que é poesia e o que é a poesia sanjoanina há que lê-la, particularmente os grandes poemas, em voz alta. Não é poesia para surdos, embora também para eles. O encantamento sonoro, a melodia, a euritmia é parte da alma sinfónica de João da Cruz que vive nos seus versos.

Os poetas movidos pela empatia para com São João da Cruz foram descobrindo cada vez mais primores nos versos do seu padroeiro.

Assim, por exemplo, o mencionado Gerardo Diego dirá: «O encantamento musical causado pela leitura dos grandes poemas encerra-se em grande parte na fonética rítmica, especialmente na acentuação nos seus dois aspectos, o obrigatório e o livre. Além de acentuar bem, João da Cruz prefere – quase diríamos usa exclusivamente – os vocábulos mais belos e musicais da nossa língua».

«Nas dez primeiras canções do Cântico Espiritual não há nenhum adjectivo propriamente dito. A alma enamorada que sai clamando atrás do seu Amado, assim como não colhia as flores nem temia as feras, tampouco adjectivava as coisas. Não repara em nenhuma coisa nem se detém a qualificá-la; o único que lhe interessa é a pessoa amada».

«Passado o período de busca, quando encontra o seu Esposo «estala a mais esplêndida sinfonia de adjectivos que se tenha nunca orquestrado: solitários, nemorosos, estranhas, sonorosas, amorosas, sossegada. E depois os adjectivos contraditórios, transtornados, reflexos do terramoto sensorial produzido na alma: a música calada, a solidão sonora. É que já tudo saboreia, cheira, pesa, apalpa, alegremente, recuperado em Deus. Quando ia na sua busca, todos os substantivos lhe pareciam poucos, porque todos podiam ser sua imagem. Agora que o encontrou, todos os adjectivos lhe parecem poucos, porque todos são seu resplendor».

– Acrescente-se que o uso relativamente parco do adjectivo na totalidade da sua obra, comparado com outros poetas do seu tempo, caracteriza-se pela preponderância do adjectivo adiado. Este simples facto faz que o adjectivo estenda o significado do substantivo.

– E o substantivo deste modo, sobretudo nalgumas estrofes, aumenta a sua função preponderante, em detrimento do adjectivo e em detrimento da função verbal.

– A exploração estética das estrofes 13-14 (1-4-15 Cântico B) nas quais se dá a acumulação de adjectivos: solitários, nemorosos, sonora, calada, etc., fez, somados outros valores poéticos, que São João da Cruz, grande mestre de imagens visionárias, fosse qualificado de poeta “contemporâneo”, poeta do século XX, e da segunda metade do século XX».

– E quem não ouviu ponderar o fascínio que produz o um não sei quê, tão tradicional, quando dele se apodera São João da Cruz e o incorpora no seu Cântico naquele verso um não sei quê que ficam balbuciando? «Nada mais ingenuamente expressivo da inefabilidade da emoção que este celeste tartamudeio…; a eficácia sonora do que que, que aumenta como nas ondas concêntricas ao estar envolvido por outras duas aliterações satélites simples, isto é, de duas vezes em vez de três.

– «São João da Cruz consegue a poesia que é tudo: iluminação e perfeição. Mas a poesia nunca chegou a ser a tarefa eminente, mas algo superabundante, surgido de uma vida consagrada ao afã religioso, cujo nome pleno não é outro senão “santidade”. Ao cume mais alto da poesia espanhola não ascende um artista principalmente artista, mas um santo, e pelo mais rigoroso caminho da sua perfeição; e a Noite escura, o Cântico espiritual, a Chama de amor viva devem-se a quem nunca escreve o vocábulo “poesia”».

– No campo eclesial João da Cruz é um dos doutores da Igreja que menos escreveu e que mais chama e chamará a atenção. Proporção inversa: quanto menos escreve, mais atenção desperta. Quanto à produção poética sucede-lhe algo parecido; «acaso nenhum outro poeta chegou aos cumes da fama com uma bagagem tão exígua. Somente aquele Gutierre de Cetina, celebrado pelos oito versos de um madrigal». Pouca massa poética e enorme capacidade de audiência e de provocar entusiasmo. A maravilha que suscita deixou-a condensada Manuel Machado naquela efusão:

«Oh, o mais poeta de todos os santos… e o mais santo de todos os poetas!…».

Na Ordem do Carmo as poesias de São João da Cruz foram sempre consideradas como tesouro de família. Foram provadas, e saboreadas, serviram para alimentar a oração pessoal, e agora mesmo servem, felizmente, com grande profusão como hinos da solenidade do próprio Santo no dia 14 de Dezembro. Assim, a grande poesia está ao serviço da liturgia.

Já Santa Teresa, que procurava fazer alguma composição poética, embora não tivesse boa preparação para isso, gozou escutando parte das poesias do seu senequita e ela mesma levou para o convento de Medina del Campo parte das canções do Cântico espiritual «e pediu às religiosas que ficaria satisfeita se se entretivessem com elas e as cantassem, e assim se fez, e desde então se cantaram e se cantam».

  1. Na liturgia carmelitana, como dizemos, a presença das composições de João da Cruz nos hinos trasborda precisamente no dia da sua solenidade: 14 de Dezembro com os poemas: Um pastorinho (I Vésperas); as oito estrofes da Noite (Ofício de leitura, e como alternativa neste mesmo Ofício: que bem seu eu a fonte…); oito canções do Cântico (Ofício de Vigília); as quatro estrofes da Chama (II Vésperas).
  2. Embora tarde, chegou também a vez de alguns poemas sanjoaninos estar presentes entre os hinos da liturgia universal das Horas.

Exemplos: as quatro canções da Chama na Solenidade do Pentecostes (Ofício de Leitura); e, além disso, entre os elementos comuns para o tempo pascal depois da Solenidade da Ascensão do Senhor, no Ofício de leitura; o delicioso poema: que bem sei eu a fonte…, na Solenidade da Santíssima Trindade (Ofício de leitura).

As vibrações destes poemas no corpo da oração litúrgica da Igreja fazem recordar como a pessoa inteira de Frei João se acomodava e sintonizava com os mesmos tempos litúrgicos, como declara Maria da Paz, sua confessada e dirigidas de Baeza (BMC 14, 35).


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 183 -190.


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