Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Leão XIV sonhado

António Jorge Pires Ferreira

É um exercício que faço por curiosidade: juntar nomes de papas que nunca existiram, pontífices que aparecem em obras ficcionais, quer de passagem, quer sejam protagonistas, como o Papa Celestino VI e as suas cartas, de Giovanni Papini. Tenho um Sisto VI, um Urbano IX, um Pio XIII e até um Mentiroso I. Havia um Francisco fictício (a partir do livro “Habemus Papam, Francesco I”, de Paolo Farinella, publicado em 2000), mas em 2013 deixou de fazer sentido com o Francisco real. E por estes dias encontrei um Leão XIV sonhado em 1914, antes do conclave que elegeria Bento XV.

Aparece no livro “A cada um o seu denário”, de Bruce Marshall (edição em português na Civilização, livro de 1970). O cardeal de Paris atravessa a Suíça, de comboio, e sonha que é eleito papa. “Os seus irmãos cardeais, inspirados pelo Espírito Santo, haviam decidido que só um homem jovem poderia dirigir um mundo dilacerado [a Grande Guerra começara uns meses antes]. Era tão alto que, quando o deão do Sacro Colégio lhe experimentara as três batinas brancas já prontas, somente a mais comprida lhe servira. Escolhera para reinar o título de Leão XIV e acordou precisamente quando estava prestes a dar a bênção «urbi et orbi». Sentira-se mal disposto ao pequeno-almoço nessa manhã [no comboio], em parte porque ainda era apenas cardeal e em parte porque não havia bastante marmelada”.

É só uma curiosidade, mas fica o apontamento de um Leão XIV ficcionado. Já Bruce Marshall, o autor, é um caso interessante e penso que pouco conhecido de romancista católico (escocês, convertido). Merece umas notas mais alargadas numa próxima ocasião.