Dom. Nov 28th, 2021

Rosto de Misericórdia

PADRE MANUEL AUGUSTO DA SILVA FRADE

Pe. Georgino Rocha

 

Padre Manuel Augusto da Silva Frade nasce em Calvão, Vagos, a 28 de Agosto de 1934 e é ordenado na Sé de Coimbra a 15 de Agosto de 1959. Aveiro só vem a ser restaurada diocese em 1938, facto que se repercute na vida do P. Frade (como será mencionado neste “Rosto de Misericórdia”) pela sua ligação ao P. António Baptista, então pároco de Calvão. Com efeito, começa a contactar com ele ainda criança, levado pelo Pai Eugénio, a frequentar a “escola” que cria e a pertencer à obra de educação que organiza. Nesta obra se alicerça o Seminário de Nossa Senhora da Apresentação, hoje Colégio diocesano de Aveiro, em Calvão.

Faz os estudos eclesiásticos nos Seminários de Coimbra e é destacado para servir a Igreja em várias e enriquecedoras missões: Professor e prefeito, coadjutor e pároco, arcipreste, reitoria do Colégio Pontifício Português, em Roma, cidade onde faz a licenciatura canónica em Música Sacra, director diocesano da Escola de Música Sacra, animador dos grupos litúrgicos e dos coros em muitas paróquias, responsável pelo Coro da Sé de Coimbra, entre outras mais discretas, mas não menos fecundas. Recolho testemunhos eloquentes em relatos breves numa tentativa de traçar o seu perfil.

Música: A escolha do P. Baptista

“Sabes por que se chama «Frade» à minha família? pergunta-me o P. Manuel Augusto, no último encontro anual dos padres de Calvão. E, como fiquei calado, esclarece: O apelido tradicional é “Saragoça”, mas como meu Pai e o meu Tio andavam muito com o P. Baptista e se envolviam nas suas iniciativas, surgiram vozes a darem-lhes, pejorativamente, o nome de frades. E assim ficou.”

Reproduzo este breve diálogo como homenagem ao P. Baptista e evocação da memória de um dos seus discípulos fiéis, o P. Manuel Augusto, falecido a 03 de Fevereiro de 2017… O coração do P. Baptista ardia em fogo de amor por Jesus que nos salva e queria anunciá-lo pelos meios mais eficazes. Recorre a vários modalidades, destacando-se a música por lhe parecer o mais aliciante para  “captar” o interesse dos rapazes. E por haver experiências com sucesso neste área. Padre Georgino: Luz a irradiar, Páscoa2017.

Recordar é Viver

O P. Frade atribui grande valor à função da memória histórica, sobretudo na área que tanto aprecia. Escreve no início do Anuário com o programa de 2013-2014: “A Escola Diocesana de Música Sacra tem a sua sede provisória, desde Outubro de 1991, no Seminário Maior de Coimbra, onde desenvolve a sua actividade formativa de agentes da pastoral litúrgica, quer nas paróquias quer em comunidades de vida consagrada. Com a partida dos nossos seminaristas para o Porto, onde foram continuar a sua formação teológica, desde o ano 2012-13, o Seminário abriu as portas à realização de outras actividades formativas, também aos sábados e destinadas a leigos, a nível diocesano, tais como estes cursos: Básico de Teologia, Ministério Extraordinário da Comunhão, Ministério de Leitores e Formação de Catequistas. Esta simultaneidade acarretou alguma perturbação no ritmo habitual dos nossos trabalhos. Porém, com a dedicação do corpo docente, o esforço empenhado dos alunos e a compreensão de todos, a EDMS cumpriu a sua missão. Dos principais acontecimentos vividos ao longo do ano escolar 2013-14 aqui guardamos este registo para memória futura.”

E segue-se o relato breve de cada uma, com nomes e temas, com carga horária e exigências, pois afirma na nota de Apresentação: “Precisamos de nos convencer de que, como gostava de dizer Bento XVI, «a música é capaz de abrir as mentes e os corações à dimensão do espírito e conduzir as pessoas a olhar para o Alto, a abrirem-se ao Bem e ao Belo absolutos, que têm a nascente última em Deus. A alegria do canto e da música são também um convite constante, para os crentes e para todos os homens de boa vontade, a empenhar-se para dar à humanidade um futuro rico de esperança» (Discurso em 29.04.2010). Somos chamados a dar esse testemunho.”

No serviço paroquial

Deus contemplou-me com a graça de ter trabalhado com ele, durante alguns anos, no serviço paroquial, afirma o Padre Rodolfo Leite. A imagem que dele guardo, nesse tempo, é a de um «homem de Deus» e a de um «bom amigo do homem»! Com ele, aprendi um pouco mais profundamente que as «fraquezas» – sejam elas quais forem – não impedem o serviço, a entrega e a bondade para com os outros e para com Ele!…Talvez, muitos não entendam! Mas, é algo tão simples como exigente, tão belo como envolvente. Tudo passa pela nossa entrega ao Amor que é mais forte até que as fraquezas do desamor que, frequentemente, vivemos!”. 16Nov2016 facefook.

Obrigado pelo testemunho de entrega

“Obrigado, P. Frade, pelo testemunho de entrega a Deus e à sua Igreja; obrigado pelo trabalho persistente e fiel ao serviço da liturgia celebrada e vivida, e, especialmente, ao serviço da música litúrgica como sua parte integrante, segundo o materno e sábio ensino da Igreja. Dos muitos desafios que nos deixa, destaco dois: primeiro o de nos entregarmos confiadamente ao Senhor, para Lhe pertencermos, sacerdotes, consagrados e leigos, pois a nossa pertença ao Senhor na fidelidade e na alegria são meios privilegiados de pastoral vocacional; segundo, o de investirmos muito na renovação da liturgia, para que sejam um só o culto do altar e o da vida, com especial incidência na renovação da música litúrgica, para que corresponda aos critérios definidos pela Igreja no que toca à qualidade, ao estilo, à linguagem, à espiritualidade, ao momento celebrativo… D. Virgílio, bispo de Coimbra.

Atencioso até ao fim

A 10 de Fevereiro envia para o meu telemóvel a seguinte mensagem (que teria gravada para quem lhe ligasse): “Muito obrigado. Fui internado no IPO no dia 29. Já não consigo falar ao telefone. Se quiser saber alguma coisa de mim pode ligar para um destes números… Muito obrigado/a. Deus o/a abençoe. P. Frade.” Esta atenção manifesta-a em todos os pormenores da sua vida. Não deixa nada que possa ser problema. “Prepara-se como São Luís Gonzaga”, diz um colega padre.

Amanhã serei internado no IPO. Entrego-me nas mãos de Deus e ofereço… Quero agradecer-vos todo o apoio e a amizade manifestados nesta fase. Dou graças a Deus por ter encontrado um grupo de amigos tão bem dispostos, generosos e sinceros. Foi um gosto trabalhar convosco ao longo de tantos anos. A Virgem Maria vos ampare e Deus vos encha de luz e força para continuardes em serviço, sem esquecer que «um é o que semeia e outro o que recolhe». Ad maiorem Dei gloriam…escreve o P. Frade ao Secretariado Nacional de Liturgia.

Padre com o «coração de fora»

“Agora, ao ver o Padre Frade numa situação de tão grande «fraqueza», senti-me abalado! Mas, ao mesmo tempo, desafiado ao que o Apóstolo gritava: «tudo posso, n’Aquele que me conforta» (cf. Fil. 4, 13). Talvez por isso, ache que, ao longo do seu ministério, o Padre Frade viveu sempre com «o coração de fora», não só por que nunca tivesse nada a esconder, nem fraquezas, mas pelo facto de sempre ter vivido desse Amor maior, que o faz dar-se de coração a todos e a Ele! P. Rodolfo Leite, testemunho citado.

O P. Rodolfo vive ainda a emoção da pergunta surpresa da velhinha na sacristia da sua Igreja: “Porque tem a imagem de Jesus o coração de fora? E como fica pensativo, a bondosa senhora prossegue: “Não será, senhor prior, porque se deu todo por nós e nos convidou a ser mansos e humildes, a aliviar-nos uns aos outros, a levar a cruz da vida e a segui-Lo”? E ocorre ao P. Rodolfo este belo exemplo o mais expressivo para dar o seu testemunho sobre o P. Frade. Também esta sabedoria, fruto do Espírito Santo e do esfoço humano, é rosto humano de misericórdia irradiante.