Dom. Jun 13th, 2021

ROSTO DE MISERICÓRDIA

MARIA HELENA RODRIGUES MARQUES

Pe. Georgino Rocha

Maria Helena Rodrigues Marques (Helena neste texto de memória abençoada) é filha de Manuel Marques e de Júlia Rodrigues, nasce em Valmaior, Albergaria-a-Velha, em 1932 e vem a falecer a 14 de Janeiro de 2018. Faz parte de uma família de oito irmãos. A terra natal, situada num vale verdejante, vai-a marcando de grande serenidade e confiança. O amor do lar, a leveza do ambiente, ainda que assaltada pelo peso das névoas ocasionais, densas e frequentes, o convívio dos moradores da aldeia, a harmonia dos sinos da igreja paroquial, a par da educação recebida em casa e na escola, na catequese e em grupos de apostolado, “moldam” um modo de ser irradiante de bondade contemplativa e de serviço abnegado. O jeito pastoral do pároco, P. Augusto Marques da Cruz, enraíza a sua formação cristã, enriquecendo este substrato natural cheio de humanidade, a que não falta um notável esforço pessoal.

O período longo da sua vida permite-lhe ser testemunha de factos históricos e de grandes acontecimentos acolhidos no silêncio do lar e partilhados no círculo de amigos/as que cultivava. O irmão, P. Manuel Armando, nos seus livros recentes, faz-se eco poético dos tempos de antanho, dos valores cultivados com desvelo e transmitidos com zelo, do amor à família e do húmus colhido nos atalhos, vielas e caminhos que os habitantes de Valmaior iam assumindo como património cultural e religioso. E, em testemunho de gratidão fraterna, realça traços marcantes do perfil da sua irmã e madrinha que o acompanha na vida paroquial, realizando uma “verdadeira diaconia em favor da Igreja e para glória de Deus”.

Esta “diaconia” surge com diversas tonalidades que, nesta memória abençoada, são dadas em testemunhos gratificantes de quem conviveu com a Helena e sabe apreciar os dotes de que usufruía para bem dos outros. E o seu rosto biográfico vai surgindo e ganhando consistência à medida que situações lhe criam novas exigências. Por isso, não descura a preparação e recorre à Obra de Santa Zita; frequenta acções de formação e presta serviços em famílias e nas paróquias que a ajudam a desenvolver capacidades; está atenta ao ritmo da vida, vê a realidade com olhos de fé cristã, cria familiaridade com a Palavra de Deus e com os ensinamentos da Igreja que gosta de transmitir, ao jeito de quem conversa.

Associada à Obra de Santa Zita

“Associada à Obra de Santa Zita, aprendeu superiormente a arte de cozinhar, bem como ainda, alta costura”, afirma o irmão e afilhado, entreabrindo a janela de acesso ao mundo interior da Helena e que se espelha no seu estilo de vida.

A Obra é uma fundação do P. Alves Brás que, em 1933, dá corpo à sua preocupação humana e apostólica pela situação precária das criadas. Da cidade da Guarda irradia progressivamente para o nosso País e para outras terras. Chega a Aveiro em 1956, abrindo a Casa/sede a 29 de Julho no local onde ainda hoje se encontra. Organiza-se em vários serviços, sendo de destacar o da formação das criadas (empregadas domésticas), o apoio ao seu trabalho nas famílias e a sua inserção no ambiente citadino. Formação integral, a acompanhar o ritmo do tempo.

O P. António Henriques Vidal, padre da diocese de Aveiro, está presente na cerimónia, vive apaixonadamente esta causa e é nomeado Assistente local da Obra. Escreve em vários jornais, especialmente no “Voz das Criadas”, e no “Jornal da Família”. É sua a observação pertinente sobre as três famílias em que se vê envolvida a rapariga/senhora: a de origem, para que se mantenha sempre em relação com os pais, a que vai servir para que tenha cuidado e esteja atenta ao que a rodeia e influencia, a que quer constituir um dia, se for essa a sua escolha e tiver oportunidade.

A Obra de Santa Zita, em acolhimento e encaminhamento, encontros e cursos, dias de oração e retiros, proporciona a milhares de empregadas domésticas a formação qualificada de que a Helena é rosto singular.

 A alegria de servir: opção pela família

Animada pelo espírito de servir as famílias deixa a terra natal e parte em missão. “ Nesse trabalho, assistiu uma família, temente a Deus, em Lisboa, a quem ajudou a educar 5 filhos do casal. E, de seguida, de acordo com os «patrões» onde se encontrava, a um senhor idoso, homem de uma fé profunda e esclarecida, que faleceu na serenidade de Deus”, aduz o P. Manuel Armando. São famílias com um ambiente humano e cristão reconhecido. Necessitadas a que a Helena deu o seu melhor: na educação dos filhos do casal, no acompanhamento sereno de uma pessoa idosa que vê chegar o encontro definitivo com o Senhor da Vida.

“Assim, no final dessa missão regressou à sua aldeia, a casa da família, onde «esperou» pelo irmão a quem seguiu, em companhia que duraria quase cinquenta anos”. O irmão padre vem a ser ordenado a 25 de Julho de 1965, iniciando de imediato a vida pastoral na Gafanha da Nazaré, indo depois para outras paróquias.

A casa paroquial, local de missão

A Helena presta ajuda, em gratuidade, à equipa sacerdotal de Águeda nos anos de 1968-69. E em 1970 acompanha o irmão nomeado pároco de Cacia. E aqui faz da casa paroquial, um local de missão. “Foram, aí, vinte anos de um serviço de Igreja, uma verdadeira diaconia”, confessa reconhecido o novo prior. Não apenas assume as lides domésticas, mas “o que era necessário a um pároco”.

O necessário na casa paroquial é muito diversificado, rico e, por vezes, complexo e exigente. Sirva de exemplo: Atender à porta e abrir-se à surpresa de quem chega; ir ao telefone e procurar entender a mensagem que se transmite e precisa de um “eco” sintonizado; anotar dados que venham a ser precisos para a gestão corrente da vida pastoral; criar e cultivar um ambiente relacional agradável; garantir o asseio da casa e o cuidado das roupas; e também do funcionamento atempado da cozinha e do serviço da mesa. O leque de funções pode aumentar com frequência, merecendo realce o acolhimento de familiares, colegas e amigos do prior.

Pude beneficiar do ambiente singular vivido na casa paroquial de Cacia. Regressado em 1973 de Madrid quis, com a anuência do bispo de Aveiro, D. Manuel Trindade, ir viver com o P. Manuel Armando e participar no trabalho pastoral em curso, designadamente com os movimentos católicos operários da LOC e da JOC. Tudo se conjugou e fiz uma experiência que resultou bem. Até 1976, residia na paróquia e vinha para o Centro de Acção Pastoral, em Aveiro, de que era responsável.

Fui recebido, desde o primeiro momento, como se fosse familiar. Testemunhei o desvelo da Helena em tudo o que era “necessário a um pároco”. Sempre disponível, sem olhar a horas de descanso, a “inventar” maneiras de ser prestável e positiva. Refiro apenas um episódio ocorrido comigo. Estávamos no pós 25 de Abril. A revolução andava na rua. O ambiente fabril fazia-se sentir com os tiques agudos de mudança. Fui convocado para uma assembleia popular. Apareci e dei conta que o assunto era sobre saneamentos a fazer. Declinei o convite para presidir, mas mantive-me. Intervim, sempre que julguei oportuno e me deram a palavra. O ambiente era tenso.

Chego a casa às tantas da noite. Sento-me e, logo de seguida, vem a Helena com a sua voz suave: “Precisa de alguma coisa? A estas horas, sabe bem tomar algo”. De facto, assim era. Enquanto comia o que me trouxe, ouço o seu desabafo conforto: “É tão bom estarmos juntos e podermos ajudar o meu irmão”. Sorrio em concordância plena.

Solicitude para com os sacerdotes

A Helena, conta o P. Júlio Grangeia, tinha sempre a mesa posta; mesa posta e …variada!” E no seu estilo literário inconfundível lembra os “jaquinzinhos”, os pastéis de bacalhau e outros petiscos que “tão bem sabiam depois do «trabalho» das confissões”. Mas sobretudo era o jeito de acolher, a alegria de nos ver, de sentir a nossa comunhão de padres. “Era assim, este, o seu sacerdócio…; sacerdócio em prol do irmão que era também… sacerdote; dos colegas e amigos do irmão… e de todos que, com ela, lidavam…”. 

A preocupação pelas vocações sacerdotais é uma constante da missão da Igreja que se expressa no amor ao Seminário e nos núcleos paroquiais, designadamente da Acção Católica na década de 50 e 60. Além de se construir o de Aveiro, foi necessário reerguer o de Calvão, hoje Colégio de Nossa Senhora da Apresentação. As ordenações eram numerosas e muito apreciadas pelo povo cristão, fruto sem dúvida do ambiente vivido e da acção de párocos notáveis no zelo pastoral. É deste tempo a geração do P. Manuel Armando.

Transmitir a fé: A força do testemunho

“Era necessário reorganizar a vida para uma nova etapa cuja duração se desconhecia. Foram vinte e sete anos na mesma toada de entrega total à mesma Igreja, embora em lugar diferente. Nenhuma queixa, nenhum embaraço. Nunca foi regateado qualquer trabalho e o serviço era prestado sempre com um sorriso agradecido. Ela não reconhecia ricos nem pobres. Todos eram, afinal, filhos de Deus e assim deviam ser aceites e tratados. Um carinho atencioso prestava às crianças que, quando frequentavam a Catequese paroquial, se aproximavam dela retribuindo-lhe a mesma predilecção com uma saudação bem amistosa”, garante o P. Manuel Armando no testemunho que resume a vida da Helena na paróquia de Aguada de Baixo e de Avelãs de Caminho.

A memória abençoada da Helena deixa claro que “a felicidade não é uma estação de chegada, mas um modo de viajar”( Rinbeck). Faz brilhar o rosto de misericórdia na força do silêncio e do testemunho, no exemplo que é a única forma de ensinar (Albert Einstein, prémio Nobel de física), no anúncio por palavras, se necessário, segundo S. Francisco de Assis, no amor feito serviço, como nos deixa em legado missionário Jesus Cristo, o Salvador.