Sex. Out 22nd, 2021

Pessoa Notável

Rubrica em parceria com a revista Igreja Aveirense [Jul.-Dez. 2020]

Sebastião Tavares de Pinho

Pe. Georgino Rocha

Sebastião Tavares de Pinho nasce numa família cristã, a 10 de junho de 1937, em Rocas do Vouga, zona serrana da diocese de Aveiro. Vem a falecer em 2020, vítima de atropelamento mortal, por um comboio perto da estação de Coimbra-B. Vive um tempo cheio de acontecimentos históricos relevantes, tanto a nível eclesial e cultural, como político e económico. Frequenta ambientes e instituições que o ajudam a moldar a personalidade que se vem a revelar de forma singular.

O habitat natural marca-o profundamente: O Vouga que desce da Lapa e, a caminho do mar em Aveiro, bordeja e une as terras de Sever, o ambiente rural que cria raízes de grande humanidade, as rochas graníticas, o verde dos montes e campos, os arbustos e as árvores entroncadas, símbolo da fortaleza e da resistência. Aqui faz os estudos da escola primária e amadurece a decisão de entrar no Seminário, facto que vem a ocorrer em 1952.

«Igreja Aveirense» evoca a memória da sua rica personalidade, compondo um mosaico de relatos e testemunhos, cheios de significado e amizade, deixando um registo histórico do seu perfil ao longo do itinerário existencial. Usa como fonte principal o Google, onde se encontra a colaboração de quem conheceu Sebastião Pinho, e uma narrativa breve feita por ele. Abrevia o nome de alguns autores citados para não alongar o texto. Quer com esta evocação desvendar o rosto de tantos ex-alunos do Seminário que vivem na família e na sociedade, na profissão e na convivência, na Igreja e no mundo, os valores assimilados nesta instituição educativa.

Ambiente e programa escolar

O ambiente interno é típico dos seminários da época: respeito pela individualidade de cada um, apoio espiritual em ordem ao amadurecimento da opção vocacional, cultivo da vida interior, convivência com os colegas em espírito de comunidade educativa e retidão de caráter. O programa escolar insere-se no curso de humanidades com as disciplinas fundamentais para a época, com particular destaque para o português, a história, a filosofia e o latim. “Cabia aos superiores do Seminário animar os alunos por todas as formas, de modo que a formação ética, cívica e escolar resulte da convergência de esforços e de colaboração leal entre educadores e educandos”. Filipe Rocha, em «Lima Vidal, Pedagogos Aveirenses».

Reconhecimento e gratidão ao Seminário

Tinha sido aluno do seminário de Aveiro, refere António Rebelo, professor, colega em Coimbra. Aí aprendera as línguas clássicas. Dizia que devia ao seminário os seus instrumentos de trabalho. O mesmo sentido de justiça fazia com que, por gratidão para com a sua primeira “alma mater”, aquela que lhe ensinou o ofício, entregasse todos os anos, ao seminário de Aveiro, o subsídio de Natal – e ele, onde estiver, perdoar-me-á esta inconfidência, mas os grandes e nobres gestos merecem ser conhecidos e imitados. Não era apenas um sentimento de reconhecimento e de gratidão que o movia: era, acima de tudo, uma questão de justiça para com uma formação que recebera para a vida de graça, mas que ele sentia necessidade de compensar. É um dos muitos exemplos dos benefícios e dos contributos dos seminários diocesanos para a evolução da ciência e da cultura em Portugal.

Currículo universitário

Sebastião Tavares de Pinho licenciou-se em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa, em 1972, e doutorou-se em Literatura Latina do Renascimento, em 1983, na Universidade de Coimbra, onde foi professor catedrático, além de desempenhar outras funções, designadamente a de vice-reitor. Foi, também, professor convidado na Universidade da Madeira e na Universidade Católica Portuguesa (polo de Viseu). Aposentou-se em 2006, para se dedicar inteiramente à investigação, sendo colaborador no Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, do qual havia sido coordenador científico.

Era membro de várias academias e associações nacionais e estrangeiras. É autor de uma vasta obra científica, sobretudo na área dos estudos clássicos e humanísticos, relacionados com a literatura e língua latina clássica e do Renascimento Português.

Deixou uma vasta herança pedagógica, porque cativou e encantou gerações de estudantes, que ainda hoje recordam as suas aulas, o seu saber e a elegância da arte com que o transmitia. A obra científica é vastíssima e reparte-se por dezenas de livros e centenas de artigos, desde trabalhos sobre autores clássicos, onde pontificava sobretudo Cícero, a obras de autores latinos renascentistas. Dizia-se que era “um homem generoso e afável, reto, íntegro e justo, que deixa profundas saudades aos seus discípulos, colegas e amigos”.

Sebastião Pinho foi casado com Natália Simões Pires, natural de Giesta, freguesia de Oiã, concelho de Oliveira do Bairro, a qual faleceu em 2 de junho de 1986. Era enfermeira diplomada pela Escola de Enfermagem do Porto e parteira diplomada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, com a qual tem um filho chamado Luís António Simões de Pinho, nascido em Coimbra, em 14 de junho de 1966, advogado, diplomado pela Faculdade de Direito desta Universidade, residente em Aveiro, casado com Catarina Isabel de Pinho, tendo uma filha chamada Catarina Leite de Pinho, nascida em 07 de março de 1998. Maria dos Anjos de Pinho Tavares, Juíza do Trabalho aposentada, Raízes da Memória.

Notas soltas

Luís Silva, presidente da Comissão Diocesana da Cultura, faz o seu testemunho em «Notas soltas», em que destaca os encontros que teve com ele. Encontrei-me três vezes com o professor Sebastião Tavares de Pinho. Três vezes que consolidaram a imagem de um homem sábio, afável, excelente contador da História e sempre em busca do sentido último das coisas e das palavras.

Tinha uma leitura fina sobre o nexo intrínseco entre o humanismo e o catolicismo, o que evidenciou no texto que publicou em ‘Portugal Católico’. Reconhecia que se deveria recuperar esse liame que se perdera, ganhando em muito o catolicismo com essa recuperação e em eficácia da sua própria pastoral.

Homem preocupado com o bem dos outros

Continua António Rebelo: A morte colheu de surpresa o Doutor Sebastião Pinho, indubitavelmente um dos meus maiores mestres, um homem que eu, desde muito cedo, aprendi a admirar pela sua retidão, honestidade e sentido de justiça, um homem que tive o privilégio de ter como um dos meus maiores amigos.

Esse sentido de justiça, que também era de justiça social, de altruísmo, de pura caridade evangélica, manifestava-se igualmente na forma como se preocupava com a sociedade, sobretudo com os mais carenciados. Era um homem sempre solícito, chegando a pôr em risco a própria vida em prol dos outros. Entre as histórias da sua vida, que partilhava com alguns amigos, recordo uma da sua comissão no Ultramar, em Moçambique, quando estava na Força Aérea, em que ele tomou a decisão de ir com um helicóptero, apenas para resgatar, sob fogo inimigo, o corpo de um dos seus maiores amigos, cuja aeronave havia sido abatida pelo inimigo.

Quando não podia ajudar pessoalmente redobrava-se em generosidade para com instituições de apoio social. Foi mecenas de instituições culturais e católicas. Eu próprio servi de portador na entrega de alguns dos seus donativos, sempre com a recomendação de nunca revelar a identidade da sua proveniência, como manda o Evangelho.

Seminários e formação da elite cultural

Belmiro Fernandes Pereira assume o testemunho referido e alarga horizontes à importância da formação dada nos seminários. Faço minhas as palavras do António Rebelo. Acrescento só que ainda está por estudar o notável contributo dos seminários para a formação da ‘elite’ cultural em Portugal. Manhã submersa é um retrato parcial e panfletário que podia ser feito de outras escolas do tempo. Milhares de crianças e jovens pobres, muitos milhares, não teriam tido outra oportunidade de estudar. Não por acaso, durante todo o séc. XX os professores de letras e de direito, na sua maioria, e muitos também de outras faculdades, receberam a formação liceal nos seminários. A democratização do ensino começa com Veiga Simão e verdadeiramente só se concretiza no final dos anos oitenta, nos tempos de Cavaco.

Homem bom, em toda a sua inteireza de ser humano

Carlos Ascenso André, Professor da Universidade de Coimbra, faz o elogio fúnebre no cemitério de Rocas, terra natal onde foi a sepultar. No elogio fúnebre que pronunciou para lembrar o valioso investigador e professor, o Prof. André ao lado das qualidades científicas e da sensibilidade institucional do colega, destacou em particular as suas qualidades pessoais: “Sebastião Tavares de Pinho era um homem generoso, reto, íntegro, leal, honesto, de bom coração, amigo do seu amigo e contemporizador com os que o não eram, tolerante, afável; e era um homem de caráter; era, em suma, um homem bom, em toda a sua inteireza de ser humano. E, dizendo-se isso, tudo se diz”. A comunidade da AIL vai guardar a memória do seu dirigente histórico e presta homenagem ao grande estudioso, ao homem das instituições, ao Colega e ao Amigo. Repouse em paz”. Roberto Vecchi.

A concluir

Em 1952, entrámos no Seminário de Aveiro 27 alunos, que fomos companheiros e colaboradores no «projeto educativo e escolar» da instituição. Alguns frequentaram o curso de teologia, entre os quais Sebastião Pinho, e cinco são ordenados presbíteros, em 1964, por Dom Manuel de Almeida Trindade. Os outros tomaram decisão diferente, optando por viver a sua vocação em situações muito diversificadas e igualmente ricas para a Igreja e para a sociedade. O exemplo de Sebastião Pinho, aqui fica, nos vários relatos e testemunhos, alguns fruto de conversas pessoais com ele.


Foto: Ciberdúvidas