Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Indivíduo e comunidade

Javier Sancho*

 

a) Processo redactorial

A obra Indivíduo e comunidade (Individuum und Gemeinschaft), está estritamente ligada à anterior, dado que, como já indicamos, apareceram publicadas sob uma mesma epígrafe. Neste escrito afronta directamente o tema da comunidade social e das relações do indivíduo com a mesma. A sua preocupação é salvaguardar o valor e a distinção do indivíduo e da comunidade no seu sentido político e social.

Do ponto de vista histórico, devemos situá-lo imediatamente depois de Causalidade Psíquica, que já estava concluído nos fins de 1918. O presente estudo realizá-lo-á fundamentalmente durante 1919.

Nos últimos meses de 1918 Edite tinha decidido participar activamente na política. Estava muito preocupada pela situação em que tinha ficado a Alemanha depois de uma guerra em que tinha sido vencida e profundamente humilhada. Também porque se tinham criado, aproveitando o caos do fim da guerra, diversas revoluções que criaram uma situação política e social muito difícil. É certo que a missão principal que Edite assume é a de consciencializar as mulheres para que exerçam o seu direito ao voto. Não obstante, passados poucos meses abandona esta actividade.

No entanto, a preocupação existencial e intelectual pela situação vai ficar claramente reflectida nesta obra. Tem-na concluía no mês de Setembro de 1919. Numa carta a Ingarden, datada de 16-IX-1919, comunica-lhe: “Entretanto, a minha colaboração para a Homenagem aumentou de tal maneira que preparei um segundo ensaio sobre Indivíduo e comunidade (resultado da minha actividade política, que me teve completamente absorvida vários meses); os dois juntos, sob o título Contributos para a fundamentação filosófica da psicologia e das ciências do espírito, devem-me servir como trabalho de concurso para a cátedra” (Ct 680-681).

Edite oferece-nos aqui dois dados importantes: o primeiro, já o indicamos, realiza e conclui a obra em 1919; o segundo dado é o objectivo de aceder agora a uma cátedra, esperando que estes dois ensaios lhe sirvam como tese de habilitação. Esta era uma exigência ou requisito nas universidades alemãs para se poder candidatar a uma cátedra. Nesta mesma carta a Ingarden fala-nos onde está a pensar candidatar-se: “Se sairá algo do concurso para a cátedra, a verdade é que ainda é muito questionável. Husserl recusou a límine (desde o princípio) realizá-lo em Friburgo, ou seja, poder realizá-lo. Pressionada pela senhora Reinach fiz diligências em Gotingen no último semestre. O resultado é muito incerto, já que a Faculdade está muito dividida… Pensei também em Kiel…” (ib.)

Sabemos, além disso, que pela sua condição de mulher não pôde aceder a essa desejada cátedra. Contudo, o trabalho aparecerá publicado em 1922.

 

b) Estrutura e conteúdo

A obra está dividida em duas grandes partes:

  1. A corrente da vivência da comunidade
  2. A comunidade como realidade, a sua estrutura ôntica.

O tema que Edite se propõe estudar é o da comunidade social, tema de candente actualidade no momento em que o escreve. Como ponto de partida faz sua a distinção do sociólogo Ferdinand Tönnies entre “comunidade” e “sociedade”, analisando em que sentido os indivíduos se relacionam ou participam nestas formas sociais. A sociedade compreende-se como uma forma associativa mecânica e racional, um conjunto de indivíduos, onde cada um se opõe como sujeito aos outros, entendidos como objectos. Pelo contrário, a comunidade é uma forma orgânica natural e viva, na qual todos se reconhecem como sujeitos, e onde a relação se fundamenta na solidariedade.

Durante o estudo Edite vai mais além. Constata que existe outra série de grupos humanos que não se podem encaixar unilateralmente nem numa nem noutra categoria. Há associações nas quais se dá uma forma mista de encontro. Na comunidade pode-se fazer uso de “sociedades” para levar a cabo um fim, porque, de facto, é possível a comunidade sem a sociedade. Pelo contrário, uma sociedade sem comunidade, não poderia funcionar nem subsistir.

A atitude do indivíduo vai depender também do modo como se situa perante os outros. Se assume o carácter comunitário, o seu agir terá em vista o bem comum. Se, pelo contrário, assume o carácter de sociedade, para ele os outros, o grupo, é um simples meio ou instrumento para levar a cabo os seus próprios interesses.

Na comunidade encontramos três factores que são fundamentais no seu funcionamento intrínseco: o indivíduo com a sua própria experiência, a experiência comum e a energia vital que unifica estas experiências. De facto, Edite vai dedicar muitas páginas ao tema da energia vital da comunidade.

Uma comunidade já não é um objecto, mas um sujeito social, um nós que engloba a muitos indivíduos, onde cada um é reconhecido e aceite como sujeito, quer dizer, como pessoa com experiências próprias, com vivências. Por isso, pode-se falar de uma experiência comum da comunidade, mesmo quando a origem são muitos indivíduos que a formam.

O indivíduo, no entanto, não se esgota no seu ser social. Leva sempre no seu interior uma reserva única de energia vital ou espiritual. Comunidade e individualidade têm necessidade uma da outra para poder existir.

Na unidade do ser pessoal há que distinguir entre a alma, entendida aqui como o eu individual, e o espírito ou tendência espiritual, que é o que leva a pessoa para o mundo objectivo, para o que está mais além de si mesma, e para a vida dos outros sujeitos. Por isso, a comunidade é, na sua raiz mais profunda, algo que surge da realização do indivíduo que tem necessariamente de sair de si. O âmbito mais autêntico desta realização é a comunidade. Só nela, na medida em que se trata de uma autêntica comunidade, a sua liberdade e a sua individualidade não se destroem, mas realizam-se.

As implicações e consequências deste estudo steiniano ver-se-ão claramente reflectidas em todo o seu pensamento antropológico.


Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 102-103.

 

Imagem de Hans Braxmeier por Pixabay