Dom. Jun 13th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XXXV Passo | O Teu imenso amor me levanta

 

Há muitos santos ocultos. Não chamam a atenção. Vivem entre a infantaria ordinária. Muitos pais, por exemplo, são uns autênticos cristãos. Junto a não poucas alegrias, quantas preocupações e trabalhos na sua vida de casados: os filhos, a situação económica, os problemas materiais e da saúde… E aí aprenderam a amar e a perdoar, a esperar e a rezar a Deus.

«Todos os fiéis – diz o Concílio Ecuménico Vaticano II –, seja qual for o seu estado ou forma de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade… Cada um, segundo os dons e as graças recebidas, deve caminhar sem hesitação pelo caminho da fé viva, geradora de esperança e fonte de caridade» (LG 40-41).

Só existe uma vocação: o crescimento no amor a Deus e no amor ao próximo (Mt 22, 37-40). As formas de o realizar são muito variadas, e tu tens de encontrar a tua. Descobre como amar a Deus até nas circunstâncias mais insignificantes da vida… «Jesus escolheu para nós caminhos diferentes – diz Isabel a uma sua amiga casada –. Sejamos totalmente suas. Amemo-lo muito. Ele ama-nos tanto…» (Ct 36). E a sua irmã, casada, e a uma jovem freira carmelita lhes faz exactamente a mesma pergunta, a fundamental: «Minha querida irmãzinha, conheces a tua riqueza? / Sondaste alguma vez o fundo do Amor? (…) Tem sempre fé no Amor, aconteça o que acontecer» (P 93; 106).

A tua pequenez e a tua debilidade são esplêndidas se a tua humildade e a tua confiança vão juntas. Hoje Isabel proclamará o Amor salvador de Deus, do qual se sente tão necessitada. «E se caio a cada instante…». Percebe também o abismo que existe entre o ideal e o quotidiano, e fala de «todas as suas misérias». E quando expõe a sua existência ao Sol de Deus, percebe até a menor mancha de pó, como escreve: «Se soubesses como sinto que tudo em mim está manchado, que tudo é pura miséria…» (Ct 271). Sente-se «tão pequena e tão débil…» (Ct 294) e «com as mãos tão vazias…» (Ct 166). Quando alguém está doente é muito fácil cair na impaciência, na agressividade, no desalento, na tristeza, na angústia; porquê Isabel passa por cima de tudo isso?

A miséria, porém, não tem de afastar-nos da misericórdia, mas tudo ao contrário. «Eu penso que a alma mais débil, mesmo a mais culpável, é a que tem mais motivos para esperar (…) No centro de si mesma tem um Salvador que a quer purificar a cada instante. Não disse Ele que «não veio para condenar, mas para salvar»? Nada lhe deve parecer obstáculo para se aproximar d’Ele» (Ct 249). «Ama a tua miséria, pois nela Deus exerce a sua misericórdia» (Ct 324).

E Isabel quer explicar isto. Pelo mistério da sua encarnação e pelo mistério da nossa redenção – esse «mistério» de «amor», de «imenso amor» –, Cristo colocou uma escada entre o céu e a terra: Deus «desce» e nós «subimos»; temos «acesso» ao «Inacessível» que nos «faz santos com a sua santidade». Com a sua vida e a sua morte de amor, o Crucificado «cancelou a acta escrita contra nós, cujas prescrições nos condenavam», como diz S. Paulo (Col 2, 24). E assim ficamos «reconciliados», «pacificados»; e, pelo «baptismo», «cheios» da graça purificadora e vivificante do Ressuscitado.

Isto, que é verdade como princípio teológico, Isabel personaliza-o e actualiza-o conscientemente a nível concreto do crescimento espiritual. Que pode fazer ela com as suas quedas e as suas misérias, que comprova «a cada instante»? Com uma fé cheia de confiança», perfeita tradução da fé-pistis de São Paulo, far-se-á perdoar e «levantar» por Cristo, «urgido» pelo seu «imenso amor» e pelos seus «solícitos cuidados».

Mas «mais ainda»: «a obra de Cristo», mais do que o perdão ocasional de umas faltas momentâneas, é profundamente curativa: o Senhor «despoja», «liberta» de «tudo o que constitui um obstáculo para a acção divina», «tira» o pecado que há em nós e «triunfa» sobre as nossas «potestades» rebeldes. Isabel utiliza aqui o termo paulino «potestades» no sentido psicológico da faculdades da alma. Por fim, a sua alma «transformar-se-á totalmente n’Ele». E então dar-se-á a Páscoa perfeita: «Sepultar-me-á n’Ele e me ressuscitará com Ele para a sua vida». O seu Sangue eucarístico fará que o meu sangue «adquira um valor quase infinito» (UR 18).

Dessa maneira, o sonho de Isabel na sua dor – e o tema central do seu Retiro – tornar-se-á plenamente realidade: o «pequeno céu» da sua alma ver-se-á «pacificado»; sem «sair» dele, e o menos possível «distraída» da sua única tarefa, Isabel o oferecerá para que a sua alma possa «servir realmente de descanso aos três» e de alegria aos «olhos do Pai» ao ver viver nela o seu Filho.

O texto de Isabel

  1. «Verbum caro factum est et habitavit in nobis» [O Verbo se fez carne e habitou entre nós: Jo 1, 14). Deus tinha dito: «Sede santos, porque eu sou santo» (Lv 11, 45), mas permanecia escondido na sua inacessível [luz] e a criatura necessitava que Ele descesse até ela, que Ele vivesse a sua vida, para que seguindo os seus passos pudesse, assim, ascender a Ele, e tornar-se santa da sua mesma santidade. «Santifico-me por eles, para que também sejam santificados na verdade» (Jo 17, 19).

Eis-me na presença «do segredo escondido aos séculos e às gerações», do «mistério que é o Cristo»: «para nós, diz São Paulo, esperança de glória» Col 1, 26-27)! E acrescenta que «a inteligência deste mistério lhe foi dada (Ef 3, 4). É, pois, junto do grande Apóstolo que me vou instruir a fim de possuir esta ciência que, segundo a sua expressão, «ultrapassa toda outra ciência: a da caridade de Jesus Cristo» (Ef 3, 19).

  1. E, primeiro, diz-me que Ele é a «minha paz» (Ef 2, 14) e que «por Ele tenho acesso junto do Pai» (Ef 2, 18), porque aprouve a este «Pai das luzes» que «toda a plenitude n’Ele habitasse e n’Ele tudo se reconciliasse, pacificando pelo Sangue da sua Cruz, todas as coisas, assim na terra como nos céus» (Col 1, 19-20). «Vós estais repletos – continua o Apóstolo –, sepultados com Ele pelo baptismo, e ressuscitados com Ele pela fé no poder de Deus… fez-vos reviver com Ele, perdoando-vos todos os pecados, apagando a acta do decreto de condenação que sobre vós pesava: aboliu-a, cravando-a na Cruz. E despojando os principados [e] as potências, arrastou-as vitoriosamente como cativas, triunfando delas em Si próprio…» (Col 2, 10. 12-15), «para vos tornar santos, puros, irrepreensíveis diante d’Ele…» (Col 1, 22).

  1. Eis a obra de Cristo perante todas as almas de boa vontade, e é o trabalho que o seu imenso amor, o seu «tão grande amor» (Ef 2, 4), o impele a fazer em mim. Quer ser a minha paz para que nada possa distrair-me ou fazer-me sair da «fortaleza inexpugnável do santo recolhimento» [S. João da Cruz]. É aí que me dará «acesso junto do Pai» e me guardará imóvel e pacífica na sua presença, como se a minha alma estivesse já na eternidade. É pelo Sangue da sua Cruz que tudo pacificará no meu pequeno céu, para que ele seja verdadeiramente o repouso dos Três. Há-de encher-me d’Ele, sepultar-me n’Ele e fazer-me d’Ele reviver, da sua vida: «Mihi vivere Christus est» [Para mim viver é Cristo: Fil 1, 21].

E embora caia a cada momento, toda confiante na fé, far-me-ei levantar por Ele, sabendo que me perdoará, que tudo há-de apagar com um zeloso cuidado, mais ainda, que me despojará, que me libertará de todas as minhas misérias, de tudo o que for obstáculo à acção divina, e que arrebatará todas as minhas potências, tornando-as suas cativas e triunfando delas em Si mesmo. Então, hei-de estar já toda transposta n’Ele, e poderei dizer: «Já não sou eu que vivo. O Meu Mestre vive em mim!» (Gl 2, 20). E serei «santa, pura, irrepreensível» aos olhos do Pai.

Sugestões para orar

Talvez digas: «Eu creio realmente que Deus também me ama a mim. E agradeço-lhe, mas, por desgraça, na prática isso não muda grande coisa na minha vida concreta. Não vejo como tê-lo mais em conta na dura realidade de cada dia».

Podes reagir ainda de outra maneira: «Em todas as situações que se me apresentam, consultarei o meu Senhor. Em cada nova situação, perguntarei: Que quer o Amor e como poderei responder-lhe? Que faria Jesus na minha situação, no meu lugar, com as minhas possibilidades e limitações? Que faria Maria?

Isabel recomenda-te vivamente a segunda resposta, exclusivamente a segunda. Isso é o que a leva a insistir para que mantenhas um trato vital com esse Deus de amor Presente no teu interior. Não caias no desalento pelos teus frequentes esquecimentos nem pelas tuas faltas. «Tens de eliminar do teu dicionário de amor a palavra “desânimo”» (Ct 298). Jesus veio por ti.  Não fujas d’Ele. O seu sol prefere aquecer o teu rosto mais do que aquecer as tuas costas. Jesus gosta que fixes os teus olhos nos seus olhos.

Volta-te para Ele. Alegra-te de que a Trindade esteja aí dentro no «pequeno céu» da tua alma e de que, se quiseres, «nem a morte nem a vida, nem o presente nem o futuro, nem criatura alguma poderá separar-te do amor de Deus revelado em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Rm 8, 38-39). Repete hoje muitas vezes: Jesus, eu sou a tua debilidade, tu és a minha santidade.


Imagem de sspiehs3 por Pixabay