‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A VOCAÇÃO NA HISTÓRIA

Javier Sancho*

 

1. Discernir os sinais dos tempos

Nas últimas fichas ficou constância de que Edite não é uma mulher de decisões ligeiras. Precisa de perscrutar a realidade, quer para a interpretar à luz da fé, quer para dar uma resposta conveniente a esses acontecimentos, não sem antes o expor ao discernimento do seu director espiritual.

Na sua obra Ser finito e ser eterno encontramo-nos com um belo texto onde reflecte, de um modo extraordinário, a sua fé na Providência, a aceitação de todos os acontecimentos da sua vida como preparação para o que virá depois: “O que não estava nos meus projectos, encontrava-se nos projectos de Deus. E quanto mais vezes se me apresentam tais acontecimentos, mais viva se torna em mim a convicção de fé de que o azar não existe – visto da parte de Deus – que toda a minha vida, até nos seus pequenos pormenores, está prevista no plano da providência divina e que ela é, diante dos olhos de Deus que tudo vê, uma perfeita coerência inteligível. Começo então a alegrar-me antecipadamente com a luz de glória na qual me será descoberta esta coerência inteligível” (SF 130).

É esta convicção de fé que a leva à avaliação serena da realidade histórica que a rodeia. É a realidade de um povo judaico que começa a ser perseguido e marginalizado na Alemanha de 1933. A sua conversão ao catolicismo não supôs um afastamento do seu povo judaico. Recupera antes a grande riqueza espiritual do seu povo. E os judeus convertidos foram sempre objecto da sua predilecção e dedicação. Com a nova situação de perseguição, a sua consciência de povo torna-se maior: alegrando-se, inclusive, de poder sofrer a mesma sorte que eles. Esta situação compromete-a a assumir um papel activo: “… estou completamente convencida de que o baptismo a tornou mais consciente da sua pertença ao povo hebraico e das suas obrigações de apostolado para com eles. Com a perseguição nacional-socialista, este apostolado transformou-se no apostolado do sofrimento. (…) Recordo exactamente uma conversa que tivemos sobre a perseguição dos hebreus em Agosto ou Setembro de 1933. Disse-me textualmente: ‘Esta perseguição é uma perseguição contra a natureza humana de Cristo’” (Positio 191-192).

É que esta realidade tinha adquirido para ela um sentido profundamente teologal: “Falava com o Salvador e dizia-lhe que sabia que era a sua Cruz que agora tinha sido posta sobre o povo judaico. A maioria não o compreendia; mas aqueles que o sabiam, deveriam tomá-la de boa vontade sobre si em nome de todos. Ao terminar o exercício, tinha a mais firme persuasão de que tinha sido ouvida. Mas onde devia levar a Cruz ainda era desconhecido para mim” (OC I, 499). Esta situação histórica, acolhida e vivida em união com Cristo e o seu povo, vai converter-se no primeiro e mais urgente conteúdo vocacional da sua entrada no Carmelo.

Deste modo, a perseguição do seu povo judaico vai marcar profundamente a sua decisão de entrar no Carmelo. Já não se trata simplesmente de realizar os seus desejos vocacionais mais íntimos, mas de dar a essa opção da sua vida um sentido profundamente apostólico, conforme aos sinais dos tempos.

 

2. A sua vocação à luz da história

Dizíamos que a situação histórica vai marcar profundamente a decisão vocacional de Edite. Agora só vê o seu destino “diante do olhar de Deus”. O Carmelo palpitava fortemente no seu interior, mas não quer tomar uma decisão à ligeira: quer a resposta de Deus e a do seu confessor. É deles que, em última instância, faz depender a sua decisão definitiva. Obteve a resposta divina na oração diante do Crucificado da igreja de São Ludgero em Münster.

O rosto cruel que a história lhe manifesta agora, a do homem que se torna inimigo do próprio homem, pisando os seus direitos e a sua vida. Uma humanidade que começa a mostrar o seu lado mais corrupto e degenerado. Essa humanidade necessita de continuar a ser redimida. E, nesta situação, são os “pobres de Yavé”, os perseguidos (o povo judaico), os que necessitam de um apoio mais forte. Edite, já o dissemos, quer carregar com esta cruz em favor de todos. Este conteúdo vocacional enquadra-se perfeitamente com o significado da vida no Carmelo: “Existe uma vocação ao sofrimento com Cristo e, através disto, a colaborar na sua obra redentora. Se estamos unidos ao Senhor, somos membros do corpo místico de Cristo; Cristo continua a viver nos seus membros e sofre neles; e o sofrimento suportado em união com o Senhor é o seu sofrimento, enxertado na grande obra da redenção e, por isso, frutuoso. Este é um pensamento fundamental de toda a vida religiosa, mas especialmente da vida do Carmelo: interceder pelos pecadores através do sofrimento voluntário e gozoso, colaborando deste modo na redenção da humanidade” (Ct 998).

Isto não quer dizer que o único motivo da sua entrada no Carmelo o tenhamos que buscar aqui. A sua trajectória anterior indicou-nos tudo ao contrário. A sua vida tinha que desembocar necessariamente no Carmelo Teresiano, porque somente ali encontraria a realização plena de todo o seu caminhar no seguimento de Cristo. De facto, a visão geral que Edite tem da vida religiosa consagrada adequa-se sobretudo a uma visão esponsal escatológica, característica também do Carmelo: “Quem quiser desposar o Cordeiro tem que se deixar cravar com ele na Cruz. Para isto estão chamados todos os que foram marcados com o sangue do Cordeiro, e estes são todos os baptizados. No entanto, nem todos compreendem esse chamamento e o seguem; mas há um chamamento a um seguimento mais estreito, que ecoa mais penetrante no interior da alma e que exige uma resposta clara. Esse é o chamamento à vida religiosa, e a resposta são os santos votos. Naquele, a quem o Senhor chama no meio das circunstâncias mais normais (família, povo, ambiente), para se entregar somente a Ele, destaca-se o vínculo nupcial com o Senhor com mais força que na multidão dos redimidos. Têm que pertencer de modo preferencial por toda a eternidade ao Cordeiro, segui-lo por onde quer que vá e cantar o hino das virgens que mais ninguém pode cantar (Ap 14, 1-5). Quando se desperta na alma o desejo da vida religiosa, é como se o Senhor pedisse a sua mão em desposório, e  se ela se consagra a Ele pelos votos e aceita o “Veni, sponsa Christi”, prefigura-se o banquete das bodas celestes. Trata-se aqui, no entanto, só da espera pelo banquete eterno. O gozo nupcial da alma consagrada a Deus e a sua felicidade têm que temperar-se nos combates, ocultos ou manifestos, e no quotidiano da vida religiosa” (OC V, 650).

Os sinais dos tempos favoreciam e indicavam que era este o momento decisivo para que levasse a cabo o seu grande anelo de se fazer carmelita. A sua decisão já era clara na forma e no conteúdo. Só lhe faltava agora o lugar. E este ia ser o Carmelo de Colónia. Superados todos os trâmites para a sua entrada e a aceitação, restava-lhe por superar o mais doloroso: dizê-lo à sua mãe.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 54-55.

Imagem: Cidade de Colónia | Alemanha, em 1921