Teofonias | … porque discretas são as melodias de Deus!
Pe. Pedro Carlos Lopes de Miranda
(Ouça, em widget lateral, a obra aqui apresentada)
A PROPÓSITO DE UMA EXECUÇÃO DA 8ª SINFONIA DE BEETHOVEN EM DIA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS: a criação musical como analogia da criação divina.*
Coimbra, Sé Nova, 11 de Junho de 2021
Elevado sobre a cruz, com admirável amor deu a sua vida por nós e do seu lado trespassado fez brotar sangue e água, donde nasceram os sacramentos da Igreja…
1.Eis a secção central e própria do Prefácio da Missa da solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Existe sempre um risco latente de cedermos à tentação de distinguir de forma simplista o amor criador de Deus Pai, do amor salvador de Deus Filho, Jesus Cristo. Naturalmente, o amor salvador, manifestado na caridade do sofrimento fiel e paciente de Jesus até ao alto da cruz toca-nos, sensibiliza-nos mais facilmente. Ou não fossem tocantes das nossas fibras mais íntimas e espontâneas as sete últimas palavras de Cristo na Cruz e o que elas revelam do seu íntimo humano e divino ao longo daquelas horas.
No entanto, quando rezamos o grandioso hino cristológico da Carta aos Colossenses (Col 1, 12-20), embrenhamo-nos numa grandiosa visão do mistério, do desígnio único de Deus criador e salvador. O hino começa por apresentar Cristo como Redentor— Ele [o Pai] nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino de seu amado Filho. N’Ele encontramos a redenção, o perdão dos pecados. Mas, como que para fundamentar, alicerçar a autoridade e verdade da redenção, em que é Deus Pai que liberta, que transfere, mas é o Filho que instaura o reino de liberdade e de luz para onde os pecadores são transferidos pelo Pai, recua depois à presença do Filho na criação: Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura. N’Ele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações Principados e Potestades, por Ele e para Ele tudo foi criado. Ele é anterior a todas as coisas e por Ele tudo subsiste.
Entretanto, num outro hino cristológico do Apóstolo, na carta aos Efésios (Ef 1, 3-10), começa-se por afirmar o desígnio criador do Pai como já de antemão referido a Jesus Cristo no que a nós diz respeito: Ele [o Pai] nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, de sua livre vontade, para sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, …; n’Ele temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos nossos pecados.
Em suma, criação e redenção, mais do que duas etapas do cumprimento do desígnio de Deus, são duas moções do mesmo Amor de Deus, duas moções do mesmo e único coração de Deus feito carne no coração humano e divino de Jesus. E o prefácio da missa do Coração de Jesus diz, também de modo imediatamente consequente com esta cristologia, que Cristo nos redimiu dando a vida— entregando-se a Si mesmo por nós, se traduzido mais à letra— expressão que pode ser entendida no sentido de criação, geração de vida, ao modo como S. Maximiliano Kolbe, mártir da caridade, ou Santa Gianna Beretta Molla, mártir da maternidade, reflectem a paixão de Jesus. Assim se torna mais visível a moção criadora do Amor de Deus no nascimento, do lado de Cristo morto, dos Sacramentos da Igreja, pelos quais vivem os homens regenerados no baptismo. A redenção, o nosso resgate do pecado e da morte é, em suma, uma nova criação, pela qual o eterno desígnio de Deus persiste e prevalece sobre a nossa rebeldia.
2. É também próprio da criação, no sentido de “realidade criada”, permanecer no ser atendo-se às leis próprias, das quais o Criador a dotou, de modo que podemos reconhecer e afirmar uma certa autonomia, que não independência, da criatura em relação ao criador. Eis a afirmação da transcendência do Criador em relação à criatura. E o mesmo podemos afirmar quando consideramos as pessoas re-criadas pela regeneração em Cristo no baptismo: a adesão à fé, necessária a essa recriação, a esse nascer de novo, e à permanência nessa vida nova, é uma cooperação verdadeiramente humana e dependente do uso da liberdade com a qual fomos criados. É bem conhecida a sentença de S. Agostinho: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti. E pode-se dizer que isto se entende tanto referindo-se à criação inicial, como à redenção, à re-criação, à regeneração para a vida nova: Deus, que te regenerou sem ti— porque Jesus é um dom absolutamente gratuito à humanidade— não completará essa obra sem ti, sem a tua inicial e perseverante adesão livre na fé e na obediência da fé.
3. Ora, o mesmo S. Agostinho, no seu Tratado sobre a Trindade, vislumbra uma poderosa analogia de Deus Trindade na pessoa quando esta se manifesta enquanto mente/consciência que conhece e ama, analogia que não podemos aqui desenvolver. É a pessoa que é a analogia de Deus Trindade, não o inverso. Quer dizer, primeiro, o santo filósofo colocou-se diante do que Deus revela de Si mesmo e se impõe como exigência à fé, pela qual ele se entrega a essa revelação, para depois, pela sua inteligência, encontrar no que conhece de si mesmo, uma poderosa analogia do próprio Deus, que lhe permite aproximar-se mais inteiro da fundura sem fundo do mistério de Deus, com a fé e com a razão.
Pois bem; o meu propósito é fazer exercício semelhante em relação à criação divina, recordando uma verificação antiga: pode encontrar-se no acto da criação artística, nomeadamente musical, uma poderosa analogia do acto criador e redentor de Deus.
Comecemos por nos dar conta do fenómeno significativo de que só à actividade artística se aplica, no senso e na linguagem comuns, o termo criação, de si um termo religioso, uma vez que implica o Criador. Os cientistas descobrem, os técnicos inventam, e no próprio termo invenção está presente etimologicamente algo de descoberta. Os artistas criam. Não é que nas patentes de invenção não esteja presente uma certa dimensão de criação, mas, na realidade, o inventor não pode senão descobrir o modo de trazer à condição de acto as potências da matéria tal como ela existe na natureza. Por isso, mais inventa, mais descobre, do que cria.
O artista, o compositor— para nos centrarmos agora no nosso caso— parte certamente de algo que lhe é dado, dos sons de altura diferente que a tradição organizou em modos, dos ritmos que a tradição organizou em regularidades mais ou menos estáveis, mas a dependência da obra final em relação à sua matéria bruta de partida não é mensurável— por oposição à invenção, em que tal dependência é mensurável, na medida em que depende totalmente das leis físicas de que tal matéria bruta foi dotada. Na obra musical, tal dependência não é mensurável, porque a possibilidade aberta pela matéria bruta é simplesmente infinita, do que resulta que, se quando se inventa um transístor, se pode imediatamente fabricar em série milhares de transístores, que são cada um deles um transístor— o do meu rádio, distinto do do meu vizinho—, quando Beethoven criou uma sua sinfonia passou a haver, que não havia antes, uma sinfonia nº tal, que é aquela, única e irrepetível como uma pessoa é única e irrepetível. Um plágio total de uma sinfonia de Beethoven não vem a ser a 10º sinfonia de Beethoven, para a qual ele escreveu, de facto, esboços, mas que não chegou a terminar; como não se pode chamar tal aos exercícios— que os há— de compor uma sinfonia com aquele material socorrendo-se do conhecimento profundo da técnica e da orquestração típicas de Beethoven. Entretanto, mesmo que se possa falar em técnica e orquestração típicas de Beethoven, que são reconhecíveis, ele poderia ter escrito 41 sinfonias como Mozart, mas escreveu e completou apenas nove.
Até aqui considerámos a imanência do criador à criatura, isto é, da dependência total da criatura em relação ao criador quanto a vir ao ser: sem Beethoven não haveria as sinfonias nº 1ª e, 2ª etc “de Beethoven”, que é o que elas são, uma vez que na sua identidade e ser participam totalmente do seu criador. E quando se trata de uma obra de autor anónimo, também assim a identidade da obra participa do seu criador, mesmo que não seja conhecido por nós.
Mas o acto criador de Deus também coloca e causa uma transcendência do criador em relação à criatura, de modo que a criatura tem a sua vida própria, mais ou menos como, desde que se forma no feto o sistema circulatório, este é completamente autónomo do da mãe. É da percepção e senso comum que os romances, as pinturas, as esculturas, as obras musicais e músico-dramáticas têm a sua vida própria e fazem muito frequentemente, no público que interage com elas, um percurso muito diferente, por vezes muito contrastante até, daquele que o seu autor imaginava ou desejava.
Os compositores românticos, de que Beethoven foi uma primícia, deixaram-nos literariamente a imagem de perseguirem o ideal de plasmarem as suas obras com a sua vida interior mais profunda, ao sabor dos acontecimentos por vezes mais dramáticos e entretecedores da sua vida, e há até ensaios biográficos deles que pretendem ir ao encontro disso mesmo, de descobrir nas suas obras expressão dessa correlação íntima entre elas e a vida ou o momento mais ou menos conjuntural da biografia do compositor. Ainda que não se possa negar totalmente que possa haver essa relação, mesmo que ela não seja explícita— como, por exemplo, a Grande Missa de Mozart, que ele compôs em cumprimento de uma promessa pela sua mulher— no entanto, no acto de criar é um dinamismo e uma competência muito específicos da pessoa do criador que entram em acção, independentes do estado de espírito em que ele se encontre agora ou depois, pelo que podemos e devemos imaginar um compositor em acção de criar como— num exemplo extremo— um palhaço a terminar o seu número mesmo depois de saber que a sua mãe ou a sua mulher morreu. Terminá-lo-á certamente, conforme o criou e planeou para a execução, e ninguém o notará.
Ora, os documentos dizem-nos que as 7ª e 8ª sinfonias de Beethoven foram escritas simultaneamente, sobretudo no verão de 1812, e estreadas também simultaneamente, isto é, no mesmo concerto, dois anos depois da sua conclusão, em 1814. Ora, do verão de 1812, mais exactamente de 6 e 7 de Junho, data um dos dois documentos mais íntimos e mais famosos do compositor, a saber, a que ficou conhecida com a “carta à imortal amada”, uma belíssima carta de amor, cuja destinatária ficou para sempre desconhecida— apesar de vários palpites muito plausíveis— por não ter nunca chegado às suas mãos; o documento foi encontrado bastantes anos depois da morte do compositor entre os seus papéis. A carta revela um estado de espírito exaltadíssimo no amor a uma mulher que nomeia apenas por iniciais— não se sabe porquê— e uma expressão muito ardente e espiritual, mística até, desse amor. Eis um pequenino excerto que merece ser contemplado, qual texto de uma mística ou místico cristão: Meu anjo, meu tudo, meu eu!… Porquê este desgosto profundo, quando a necessidade o exige? Seria possível o nosso amor sem tantos sacrifícios, sem exigir tudo? Seria possível que não fosses tudo para mim e eu tudo para ti? Por amor de Deus, contempla a natureza e rende o teu espírito à evidência. O amor exige tudo e com razão: assim eu de ti, tu de mim. Se estivéssemos unidos, esta dor não te afectaria mais do que a mim. A minha viagem foi horrível… [viagem que os separou, certamente].[1] E no entanto, que podemos encontrar disto em duas sinfonias tão diferentes, compostas em simultâneo, às quais subjazem ideias, pontos de partida e de chegada musicais tão diferentes? Nas palavras do compositor, as obras como que se lhe apresentam, no momento inicial, e ele rende-se-lhes. Ouçamo-lo referindo-se ao processo criativo: Altero muito, desprezo e experimento novamente até ficar satisfeito. Começo então a trabalhar mentalmente, alargando aqui, restringindo ali… E como tenho consciência daquilo que tento fazer, nunca perco de vista a ideia fundamental. Esta eleva-se cada vez mais, e cresce ante os meus olhos até que vejo e ouço a sua imagem, moldada e completa, ali de pé, frente a essa visão mental[2]. Quer dizer, há uma ideia inicial que, a partir do momento que surge, começa a ter a sua vida e exigência própria, que o compositor só tem como que descobrir e respeitar; mais ou menos como uma personagem de um romance que ganha vida própria e cuja coerência o escritor terá que respeitar. Mas isso só é possível servindo-se da totalidade da sua competência, do seu metier, do seu saber fazer de compositor. Quanto mais vastos os seus recursos técnicos, mas longe pode ir no conhecimento dessa como que personagem que se vai formando.
Pois bem; o mesmo compositor naquele estado ardentemente apaixonado há pouco desvelado, simultaneamente criou na 7ª o que alguém chamou uma “orgia rítmica”[3] e na 8ª algo tão diferente, caracterizada por uma “boa índole e, pondo de parte uma ou duas explosões”, pela sua “urbanidade”.[4] E, diz ainda o mesmo crítico que estou a citar, “que, longe de ser um retrocesso à sua primeira maneira [isto é, haydn-mozartiana da 1ª e 2ª sinfonias], é efectivamente uma das suas mais maduras obras-primas”.[5] De facto, conta o seu primeiro biógrafo que ele justificava a recepção fria da 8ª, no mesmo concerto de estreia da 7ª, exactamente pelo seu maior valor.
Esta relação entre o criador musical e a sua obra, esta imanência e transcendência do autor à sua obra, pode surgir-nos, então, como analogia do acto criador de Deus, não só, mas sobretudo, depois que, exactamente com Beethoven, o compositor deixou de ser um “criado de libré”, como Haydn, seu mestre ainda foi e, também quase sempre, o próprio Mozart. Beethoven, a pulso, livrou o compositor da condição de assalariado, de criado, pelo que tornou o acto criador ao menos potencialmente mais espiritual, contanto que livre da pressão da sobrevivência. Vivendo uma fé cristã muito marcada pelos ideais imanentistas do iluminismo e da revolução, precisou dessa emancipação social e económica para ser espiritual, coisa que os antigos, como Bach e tantos outros, não precisaram para serem verdadeiramente espirituais no acto de criar, uma vez que, para eles, antes do estatuto social e económico está a sua condição humana, sem mais, face a Deus e ao destino eterno n’Ele.
Passados recentemente 250 anos sobre o seu nascimento, Beethoven merece o nosso reconhecimento por, a seu modo, nos ter mostrado eloquentemente o cumprimento do mandato do criador— crescei e multiplicai-vos, dominai a terra (Gn 1, 28)— como via para conhecermos e reconhecermos a bondade desse único criador que é Deus.
[1] In Emil LUDWIG, Beethoven, 3ª ed, Ed Aster, Lisboa, s/d, p. 71
[2] In A. K. HOLLAND, L. van Beethoven, in Ralph HILL (Coord), Sinfonia, Ed. Ulisseia, Lisboa-Rio de Janeiro, s/d, p. 101.
[3] Ibidem p. 119
[4] ibidem
[5] ibidem
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