Sáb. Jul 24th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


III – ONDE ESTÁ?

A oração faz-nos procurar a Deus no centro da nossa alma. Onde o poderíamos encontrar mais intimamente que nestas profundidades de nós mesmos, onde nos comunica a sua vida divina, fazendo pessoalmente de cada um de nós um filho seu?
Este Deus que está presente e que actua em mim é verdadeiramente meu Pai, porque me gera sem cessar por meio da difusão da sua vida; posso estreitá-lo com um abraço filial nessas regiões onde Ele se dá. O meu Senhor e meu Deus vive realmente em mim, e quando a minha alma estiver bastante purificada para receber a graça de ver a Deus tal e como é, descobrirá que Ele a invade e a envolve nessas regiões íntimas nas quais agora o procura pela fé.
O céu inteiro vive na minha alma. Ao permitir-me fazer companhia à Santíssima Trindade que vive em mim, a oração é, mais do que uma preparação para a vida do céu, a sua realização sob o véu da fé (QV 221).
Onde está Deus? Muitos experimentam-no, mas não o sabem explicar. «Está comigo, em mim» e esta presença tão íntima é o segredo da sua paz no meio dos acontecimentos. Está ai, em mim, em nenhum sítio está mais presente que em mim mesmo (I, 23-8-61). Uma forte experiência que podemos vislumbrar mas que nada nos pode fazer descobrir melhor do que a oração.
Onde está Deus? Em todas as partes, certamente. Deus é espírito, e a sua presença não significa localização material. Presença quer dizer relação. Onde está Deus? Aquele que É, comunica o seu ser à sua criação. Que faz Deus neste momento? Dá a vida à terra que me sustenta, ao oxigénio que respiro sem me dar conta disso, à beleza de cada pôr-do-sol… A tudo o que existe: em cada instante realiza-se em todo o ser este acto de criação contínua, esta presença activa, esta presença de imensidade. «O céu e a terra proclamam a glória de Deus», diz o salmo 19.
Esta acção permanente e silenciosa sustenta também o homem. Que seria de mim neste momento se Deus não pensasse em mim? Nem sequer um pouco de pó. Nada! Mas Deus é fiel.
«Senhor, Vós conheceis o íntimo do meu ser… Vós formastes as entranhas do meu corpo e me criastes no seio de minha mãe» (Sl 139, 1. 13). A sua maravilhosa presença não depende da nossa busca; está!
«O céu e a terra proclamam a glória de Deus» mas não o sabem. Pois bem, Deus fez o homem muito maior do que uma árvore ou um animal: fê-lo à sua imagem, e quer fazê-lo participar da sua natureza divina. E o homem, com a sua inteligência, a sua liberdade e o dom da graça, pode acolher Deus e chamar por Ele; pode responder ao seu amor com amor. Deus está presente de uma maneira muito distinta: a sua presença é como a de um amigo, absolutamente pessoal. No seu dom, Ele dá-se totalmente.
Onde está Deus? Em mim. Na origem do meu ser, nesse profundo lugar onde me gera; este lugar inviolável que não pode ser destruído, o lugar virginal do encontro, o lugar secreto ao qual o pai me chama, onde posso confiar, onde posso responder com plena liberdade: na minha alma. Insondável reciprocidade! O meu deus está em mim.
Ao chegar a qui, o Padre Eugénio Maria cita sempre Santa Teresa de Jesus: A alma é como um castelo… No centro, diz-nos ela, vive o Rei: Deus. Nela acontecem as coisas mais secretas entre Deus e a alma. esta experiência deslumbrante de uma presença nela tão íntima e amorosa, converteu completamente Teresa e fez dela uma luz para a Igreja de todos os tempos: «É outra vida nova,… é que vivia Deus em mim» (V 23, 1).
Presença amiga: nunca estou só.
Por muito baixo que Lhe fale, Deus ouve-me.
Tem sede do meu amor.
Engrandece-me à medida do seu dom.
Quer muito mais para mim.

Deus está em mim… em mim que tão frequentemente estou ausente. Este é o drama de muitas pessoas: no meio da abundância de descobertas fantásticas que revolucionam sem cessar toda a perspectiva, esquecem o sentido de tudo isto. O que é a minha vida? Uma pirueta entre dois abismos, diz na brincadeira uns desenhos animados para jovens. Encontrar a Deus no centro da minha alma e da minha vida é encontrar-me a mim. É ser encontrado n’Ele. É também encontrar o sentido das coisas da terra, pois o mundo não é profano, mas somos nós os que às vezes o profanamos a Ele, que saiu das mãos do Pai.

Senhor, eu não existiria
se Tu não tivesses vindo a mim,
se não me tivesses feito nascer
e renascer em Jesus.
Senhor, não saberia encontrar-te
se não tivesses vindo ao meu encontro.
Muitas vezes Te esqueci.
Esperaste o momento
Para eu estar disposto;
Disperso-me ao querer alcançar tudo;
Desde o meu vagar errante, chama-se.
Que eu Te encontre!
Que a força da tua presença
me faça entrar em mim.

A oração está aí, muito perto. Como entrar em nós mesmos? «A porta para entrar no castelo é a oração», diz-nos Teresa. É necessário cortar: deixar a televisão… dirigir-se a Ele… Deus tem sempre a porta aberta para nos deixar entrar n’Ele pelo caminho da oração… A oração é um contacto com o Deus vivo, que reage estremecendo-se e dando-se a si mesmo (M 95-96). O Padre Eugénio Maria escrevia a sua irmã: Vai frequentemente buscar forças a seu lado, mesmo que não tenhas nada a dizer-Lhe ou te aborreças. Recompensar-te-á abundantemente, comunicará contigo (I 11-11-21).

«Vive Deus, em cuja presença estou!». O jovem Padre Eugénio Maria descobre no noviciado esta divisa do Carmelo, a atitude de fundo da sua vocação. Escreve a um amigo: A oração é como o sol e o centro de todas as ocupações do dia. Pela noite, tenho a impressão de que é o único importante que fiz durante a vida, pois os trabalhos humanos, tão necessários, adquirem em Deus um valor de eternidade: Encontro tudo e todos em Jesus e assim posso ser-lhes mias útil (C 47). A oração essencial porque submerge a alma profundamente em Deus. Cristo é a vossa morada Não o deixeis fora da vossa vida. Enchei a vossa alma de força e luz com um simples contacto com Deus. Oferecei-vos a Ele, e confiai tudo ao Espírito Santo (C 142).

A oração é tratar de amizade,
feita em gratuidade, só vamos por Deus,
sem Lhe pedir nada, vamos unicamente por Ele.
Descansar n’Ele, amá-Lo por si mesmo,
amá-lo a ele mesmo (I 5-9-65).
Manter-se pela fé
Na paz da sua presença.
Meus Deus, estás aqui, estou aqui,
Só para tua alegria.

O Padre Eugénio Maria descobriu muito cedo que muitos leigos tinham um profundo desejo de viver na presença de Deus, e propôs-lhes a oração, que nos entrega a Deus em total disponibilidade, para a santidade. Um jovem sacerdote dá-nos o seguinte testemunho: «Propor um tempo prolongado de oração a sacerdotes, a leigos comprometidos com responsabilidades familiares, profissionais e socias imperativas é, no meu modo de ver, profético. Faz falta uma grande audácia, muita fé e, ao mesmo tempo, uma verdadeira experiência para pensar que algo de semelhante se pode realizar. A experiência mostra os frutos de luz, de fidelidade, de equilíbrio e de unidade interior que produz este tempo reservado à oração».


Imagem de Ales Krivec por Pixabay