Oratório Peregrino
Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com
Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro
XXXIV Passo | Deus está enamorado da tua beleza
Isabel estende hoje a sua meditação a tudo o que o Senhor quer fazer connosco – contigo –, se encontra em ti o «belo silêncio» interior. «Enamorado da tua beleza», levar-te-á «à solidão», a essa solidão «que é Ele próprio»: magnífico «lugar espaçoso»! Todo o seu amor pôr-se-á em marcha. «Falar-te-á ao coração». Diálogo íntimo, de coração a coração! Comunicação da vida divina! Deus «completará o seu trabalho» em ti e tu «deixar-te-ás guiar pelo seu Espírito», como dizia São Paulo nesse estupendo capítulo 8 da carta aos Romanos ao falar da vida do Espírito no coração dos filhos de Deus.
Isto é assim para todos os filhos de Deus. «Com tal – insiste Isabel – que cumpras a sua palavra» e «deixes agir» a Deus. Tu escolhes. O Senhor respeita a tua vontade. Mas para que possa consumar o seu trabalho e fascinar o teu coração, não terás de guiar-te pela tua própria vontade, que, com frequência, está suja devido a tantos «primeiros movimentos da natureza». Ser «todo ouvidos» (NI 15) consiste em tornar-se dócil à vontade de Cristo e às moções do Espírito.
Terei de «ser dona de mim própria pela vontade» – diz então Isabel –, conseguir que a minha vontade seja «livre», para «situá-la na de Deus». E então, realmente, tudo o que é meu lhe agradará e «todas as minhas obras serão divinas». A Santíssima Trindade terá as mãos livres para «fazer em mim a sua morada». Possuirei o «Bem substancial» – «o próprio Deus» –, que é absolutamente superior a qualquer bem efémero e passageiro. E os que vivem a meu lado poderão comprovar como a minha vida ganhou em qualidade.
Tudo isto o diz Isabel pensando em nós, seja qual for a nossa vocação e o nosso estado de vida. E insiste: O matrimónio é também uma vocação» (Ct 242). Ditosas as ideias brilhantes e os encontros generosos de nossos pais, e os dela! E quantas chamadas concretas, suavemente persuasivas, pode fazer nascer o Senhor nos corações dos esposos! Ele oferece sem cessar as suas graças a todos.
Pode acontecer também – como no caso de Isabel – que quando o Senhor te falar ao coração, não te confie a missão de dar a conhecer o seu amor a tal ou a qual filho seu por meio do matrimónio. Quando te fale ao coração, talvez te sugira: «Agradar-me-ia que reservasses todo o teu coração para me exprimir a mim directamente o teu amor».
Talvez sejas ainda jovem e tenhas toda uma vida por diante. Nunca pensaste em consagrar toda a tua vida – o teu corpo e a tua alma, a tua pessoa e os teus bens – a Jesus e ao seu serviço na Igreja? Assim? Por Ele? Jesus necessita de pessoas assim, e as tuas irmãs e irmãos casados contam com elas.
Deus tem necessidade dos homens. As tarefas e os campos de acção podem ser muito variados. Sacerdote. Religioso ou religiosos enviados ao apostolado. Leigo ou leiga comprometidos no meio do mundo como agentes de pastoral ou como membros de um instituto secular. Contemplativo ou contemplativa a tempo inteiro, como Isabel… Escuta atentamente e «faz o que Ele te diga» (Jo 2, 4).
Gostas de Jesus, ama-l’O e falas com Ele. Frequentemente ofereces-lhe uma flor. E se Ele quiser todo o teu jardim? Numa Sexta-feira santa, Isabel escutou como lhe dizia em seu coração: «Amas suficientemente o teu Jesus?» (D 124).
Jesus, o teu único Amor! Teu Amor para sempre no qual se incluem todos os outros amores! Que belo seria…! Que dom! Que presente também para Ele: tu…! Porque, sabes uma coisa?, Deus é muito humilde e gosta de receber para poder dar melhor. Isabel começou também modestamente. E o crescimento é lento. Se lá no fundo do coração sentes suavemente que Jesus te está a olhar e te faz sinais, dá-lhe graças longamente. Às vezes, se ainda não viste nada, é só por não o ter olhado nos olhos. Há que atrever-se a dizer: «Se te agrada…».
Isabel, que era uma jovem de situação acomodada, compreendeu a enorme riqueza que lhe era oferecida em Jesus Cristo, «a pérola preciosa» (Mt 13, 46). «Não há senão Um, é Ele, o único Verdadeiro! (…) Ele fascina, eleva, sob o seu olhar o horizonte torna-se tão belo, tão vasto, tão luminoso… Eu amo-O apaixonadamente e n’Ele tudo possuo! (…) Queres orientar-te comigo em direcção a este sublime Ideal? Isto não é uma ficção, mas uma realidade» (Ct 128).
Pensa no futuro, mas não demasiado. Sobretudo pensa n’Ele. Jesus não te diz: «Liberta-te agora». Diz-te: «Segue-me, vamos juntos, eu estarei no teu coração, só terás de chamar por mim». E quando os que receberam de Deus a graça de poder ajudar-te a discernir o teu caminho te dêem luz verde, lança-te. O chamamento do Senhor é pessoal.
Receberás o dom da fidelidade numas mãos orantes. Se quiseres, poderás renascer mil vezes na oração. A partir de hoje mesmo, se quiseres. Cada encontro verdadeiro contém um novo chamamento. A voz de Jesus poderá enrouquecer de tanto gritar, mas nem por isso deixará de chamar por ti. O caminho pode ser sinuoso, mas em cada curva o teu Deus amante te precederá.
«Não tenhas medo, porque não voltarás a ser humilhado… Porque o teu Criador é o teu esposo… Poderá ser repudiada a esposa da juventude? É o teu Deus quem o diz: Por um curto momento Eu te abandonei, mas, com grande amor, volto a unir-me contigo… O meu amor por ti é eterno… Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca será abalado» (Is 54, 4-10).
Quando dois jovens, unidos pelo amor, decidem casar-se, o primeiro que pensam não é nas dificuldades que podem surgir no futuro. Pensam em conservar sempre esse ardor do coração que faz com que o amor seja forte e fiel. As provações – inevitáveis enquanto vivemos na terra – poderão purificar e acentuar o amor, torná-lo mais humilde e mais autêntico, ainda mais belo. Um ideal é sempre exigente, e alcança-se com humildade. Renovemos frequentemente diante do Senhor o «nosso primeiro amor» (Ap 2, 4).
O texto de Isabel
- «O Senhor fez-me entrar num lugar espaçoso, usou de boa vontade para comigo…» (Sl 17, 20). O Criador, ao ver o belo silêncio que reina na sua criatura, contemplando-a inteiramente recolhida na solidão interior, enamora-se da sua beleza e fá-la passar a essa solidão imensa, infinita, neste «lugar espaçoso» cantado pelo profeta e que não é outro senão Ele mesmo: «Entrarei nas profundezas do poder de Deus» (Sl 70, 16). Ao falar pelo seu profeta, o Senhor disse: «Conduzi-la-ei à solidão e falar-lhe-ei ao coração» (Os 2, 16).
Eis entrada esta alma nessa vasta solidão, em que Deus se vai fazer ouvir! «A sua palavra, diz São Paulo, é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes: chega até à separação da alma e do espírito, mesmo até às articulações e à medula» (Hb 4, 12). É, pois, ela que directamente vai acabar o trabalho do despojamento na alma; porque tem de seu e de particular, operar e criar o que faz ouvir, desde que, entretanto, a alma consinta em se deixar modelar.
- Não basta, contudo, ouvir esta palavra, é preciso guardá-la! E é guardando-a que a alma será «santificada na verdade», eis o desejo do Mestre: «Santifica-os na verdade, a vossa palavra é a verdade» (Jo 17, 17). A quem guardar a sua palavra, não prometeu: «Meu Pai amá-lo-á e nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23)? É a Trindade inteira que habita na alma que em verdade a ama, quer dizer, que guarda a sua palavra!… E logo que esta alma tenha compreendido esta riqueza, todas as alegrias, naturais ou sobrenaturais, que lhe possam vir da parte das criaturas ou mesmo da parte de Deus, apenas mais a convidam a retornar a si mesma para gozar o Bem substancial que possui, e que não é outro senão o próprio Deus. E, assim, como diz São João da Cruz, ela tem uma certa semelhança com o Ser divino.
«Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito». São Paulo diz-me «que Ele realiza todas as coisas segundo o conselho da sua vontade» (Ef 1, 11), e o meu Mestre pede-me também que lhe renda homenagem nisto mesmo: «fazer todas as coisas segundo o conselho da sua vontade». Nunca me deixar levar pelas impressões, pelos primeiros movimentos da natureza, mas dominar-me a mim mesma pela vontade… E para que esta vontade seja livre, é preciso, segundo a expressão de um piedoso escritor, «encerrá-la na de Deus». Então, serei «movida pelo seu Espírito», como diz São Paulo (Rm 8, 14). Apenas hei-de realizar o divino, o eterno e, à imagem do meu Imutável, viverei, já nesta vida, num eterno presente.
Sugestões para orar
A «solidão» à qual te convida o Senhor é antes de tudo o teu próprio coração. «Ele nunca te abandona (…) Entra dentro da tua alma: encontrá-lo-ás sempre ali, desejoso de te ajudar» (Ct 291). Invoca o seu nome. Ele ressuscitou para ser a tua Vida. E ao orientar-te para o próximo, Cristo acompanhar-te-á como companheiro fiel de todo o que peregrina a Emaús.
Hoje podes repetir-lhe amiudadamente com Isabel: Ó meu Cristo amado, crucificado por amor…, quereria amar-vos até morrer de amor! (NI 15). Insiste em «meu Cristo», pois é verdade.