Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Causalidade psíquica

Javier Sancho*

 

a) Processo redactorial

A obra titulada Causalidade psíquica (Psichische Kausalität), juntamente com a obra Indivíduo e comunidade, apareceram publicadas sob a mesma epígrafe: Contributos para a fundamentação filosófica da psicologia e das ciências humanas (Beiträge zur philosophischen Begründung der Psycologie und der Geisteswissenschaften). Contudo, examinamo-las aqui separadamente, pois consideramos que se podem tratar como estudos autónomos.

Causalidade psíquica é o primeiro estudo que Edite realiza depois da sua tese de doutoramento. Foi escrito fundamentalmente em 1918, embora só seja publicado em 1921 no quinto volume do anuário filosófico da escola fenomenológica Vahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung). Nesta obra descreve o processo da consciência e dos diversos processos mentais, com a finalidade de chegar a descobrir o fundamento ontológico da causalidade.

A elaboração desta obra enquadra-se num momento histórico especialmente crítico e significativo na vida de Edite. O seu trabalho como assistente de Husserl não é o que ela esperava e não sem dor em Janeiro de 1918 decide deixar este cargo. Um dos principais motivos que a levaram a tomar este decisão é a necessidade de continuar a realizar as suas próprias investigações.

A partir de Outubro de 1916 que trabalhava como assistente de Husserl. O seu principal trabalho consistia em rever as notas do mestre, transcrevê-las e ordená-las, em vistas a preparar o material para ser publicado. Edite teve aqui a oportunidade de entrar ainda mais no pensamento do mestre, tirando proveito e sugestões para os seus estudos posteriores.

Em 1918, depois da morte de Adolf Reinach, estava ocupada também a preparar o seu legado. Pôde ler, e de facto incluir nesta obra, alguns dos pensamentos de filosofia da religião que ocuparam a Reinach nos últimos meses da sua vida.

Em Junho de 1918 já está plenamente metida no estudo da Causalidade psíquica, que inicialmente tinha que ser publicada no Jahrbuch de Husserl, na homenagem aos seus 60 anos (Ct 627). Durante os meses de Verão de 1918 dedica-lhe muito do seu tempo, embora a seguir encontre outras ocupações que não a deixam trabalhar exclusivamente nesta obra: o volume de homenagem a Reinach, corrigir os trabalhos dos seus companheiros, ajudar a Husserl na sua doença, etc…

A partir do mês de Novembro encontra ainda maiores dificuldades para trabalhar nesta obra, pois mete-se na política (Ct 663).

Apesar disso, demonstra uma capacidade de concentração e trabalho, pois antes do fim do ano de 1918 já a envia para Munique (Ct 670). É possível, uma vez que ainda passarão vários anos até realmente ser incluída no Jahrbuch e publicada, que tenha feito algumas correcções. De facto, pouco tempo depois, quando começa com o estudo seguinte, surgir-lhe-á a ideia de os unir sob o mesmo título.

 

b) Estrutura e conteúdo

 

A obra está estruturada em cinco grandes partes:

  1. A causalidade no âmbito das vivências puras
  2. A realidade psíquica e a causalidade
  3. A vida espiritual e a motivação
  4. A engrenagem entre a causalidade e a motivação

Ao final acrescenta um duplo apêndice que trata de duas questões: a possibilidade de uma dedução das categorias psíquicas partindo da ideia de uma psicologia exacta e a tentativa de Münsterberger para fundamentar uma psicologia exacta.

Ao longo desta obra Edite propõe-se descrever o processo da consciência, tal como se apresenta à observação do fenomenólogo, e os actos dos vários processos mentais, como a resposta diante de um estímulo, a tomada de consciência de um facto, a decisão, a motivação, etc…

A partir da análise fenomenológica realizada por Edite aparece de modo evidente e convincente a validez do conceito de causa. Para que o processo psíquico causal se possa experimentar e tornar consciente, é necessária uma energia ou força vital superior que se encontra na alma.

Edite Stein introduz uma clara distinção entre vida sensível e vida espiritual. Deste modo, é capaz de libertar a psicologia do naturalismo e abri-la à fenomenologia.  Para Edite a psicologia fundamentada no materialismo prescinde do elemento qualitativo e constitutivo da vida psíquica. Os actos que consideramos propriamente humanos e não instintivos têm a sua origem no “eu puro”.

A força espiritual do homem encontra o seu alimento no mundo dos valores naturais, mas também em Deus e nos outros homens. O cume da actividade humana por excelência é o estado de descanso em Deus, em que toda a angústia ou preocupação desaparecem num acto de entrega confiada a Ele. (Esta foi a experiência que mudou radicalmente o rumo da vida de Edite, e que vai constituir o fundamento do seu “abandono”, não como um mero resultado da graça, mas como uma anelo inerente ao psiquismo humano).

O tema da motivação vai desempenhar um papel muito importante em todo este estudo, como fundamento do agir humano. O resultado de tudo, acaba por ser um restabelecimento da liberdade como algo constitutivo do ser humano.


Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 100-101.

 

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