Qui. Jun 17th, 2021
Notícia e foto recolhidas da Agência Ecclesia 

Iniciativa, na paróquia de Oiã, nasceu para suprir necessidades de famílias mais carenciadas

Os jovens crismandos da paróquia de Oiã, na Diocese de Aveiro, estão a cultivar uma horta solidária, cuidando da terra para “cuidar de quem mais precisa”.

“A paróquia tinha este terreno ao lado da Igreja para ampliar o centro paroquial mas devido a atrasos e à pandemia foi sendo adiado e surgiu a ideia, numa reunião dos jovens crismandos, de colocarmos as mãos na terra para ajudar as famílias mais carenciadas, porque os pedidos estavam a aumentar”, explica o animador dos jovens, André Cardoso.

“Depois do aval e entusiasmo do pároco” o terreno de 720 m2 teve de ser limpo e preparado para “poder dar fruto dos cerca de dois mil pés semeados” e os jovens crismandos assumiram “cuidar da terra para cuidar dos outros”.

“A ideia surgiu no ano passado mas há tempos para a plantação e continuávamos a ver os pedidos de ajuda a chegar ao grupo da Cáritas paroquial e eles a não conseguirem dar resposta como desejariam, decidimos avançar e ajudar com estes produtos”, explica o animador, de 32 anos.

André Cardoso conta ainda que tentam trabalhar a terra “sem herbicidas”, para que os produtos sejam o mais saudáveis possíveis, e como “sempre trabalhou a terra, vivendo no mundo rural” foi fácil começar e contaram com a ajuda de outras pessoas mais experientes.

“O nosso objetivo é que esta iniciativa envolva o maior número de pessoas da comunidade, os jovens são o ponto de partida; por exemplo colocámos rega automática e é uma vizinha que põe o terreno a regar”, partilha.

O terreno está a ser trabalhado há poucas semanas e o grupo de 32 jovens crismandos vai-se dividindo nas idas ao terreno, para que haja “total segurança para todos em tempo de pandemia”.

“Estas iniciativas pretendem também dar esta experiência aos jovens, não ser só catequese dentro da sala mas colocá-los ao serviço dos outros, sentirem-se integrados na comunidade, é uma das apostas do grupo de animadores”, remata André Cardoso.

Rodrigo Santiago tem 17 anos e sonha entrar na universidade este ano para seguir Direito, uma área que nada tem a ver com o “trabalhar a terra”.

“Tirando os tempos de infância em que ia para a horta com os meus tios não sabia fazer nada… os nossos catequistas estão sempre a desafiar-nos e esta foi uma proposta irrecusável que me fez também sair de casa e sentir-me bem, uma vez que tem um propósito de ajudar alguém”, explicou à Agência ECCLESIA.

O futuro advogado conta ainda há uma preocupação de sustentabilidade e cuidado da terra que se equipara ao cuidado com as pessoas.

“Sabemos que os legumes mais baratos têm muitos químicos adicionados e aqui tudo o que cultivamos é biológico, mais saudável, o que dá também a possibilidade das pessoas carenciadas terem produtos melhores”, destaca.

A comunidade aliou-se à juventude, desde o lavrar da terra até aos ensinamentos que os jovens precisavam e foram plantados cerca de dois mil pés de brócolos, pepinos, abóbora, couves de várias qualidades, alfaces, tomates, pimentos e beringelas.

“Meter adubo, plantar, e regar ao final do dia… eles cavavam e nós fazíamos o resto, uma experiência muito interessante, um escape em que me senti muito feliz, uma distração às aulas online e ao stress do confinamento”, admite.

Também as gémeas Carina e Filipa Oliveira, de 17 anos, alinharam na horta solidária, um “serviço aos outros, um projeto que ajuda a comunidade” como designam.

“Nós temos alguma experiência, temos um quintal onde fomos pondo mãos à obra mas nesta horta temos outra responsabilidade: queremos ver os frutos do nosso trabalho, que dê resultado e saia uma alívio para aquelas pessoas”, assume  Carina.

Numa caminhada de preparação para o sacramento da confirmação as jovens consideram “muito curioso” este desafio aparecer nesta altura em que já andam a “semear e evangelizar”.

As irmãs, que pensam seguir os cursos superiores de Farmácia e Enfermagem, destacam a envolvência da comunidade que “tem incentivado os jovens” e o cuidado que todos merecem.

“As áreas que queremos seguir tem em comum o serviço aos outros que, afinal é o que se pretende com o cultivo desta horta”, aponta Carina.

Já Filipa Oliveira acrescenta que “desde pequenas têm presente o serviço aos outros, uma base que a catequese sempre ensinou” e que com este projeto conseguem concretizar.

Luana Pato também nunca tinha trabalhado a terra mas até já pondera ter a atividade “como um hobby”.

“Gostei bastante e tivemos ajuda de outras pessoas da comunidade, aprendi a plantar, o cuidado que é necessário ter, a forma como se tem de colocar a raiz, a atenção ao espaçamento até posso continuar a trabalhar a terra como um hobby”, partilha a jovem de 17 anos. 

A estudante da área de Ciências e Tecnologia, que tem vista seguir a área da Medicina, recordou à Agência ECCLESIA que os jovens do secundário estiveram fechados em casa durante muito tempo e esta “iniciativa é muito gratificante”.

“Já estamos fechados há muito tempo, sem sair de casa e ali conseguimos estar a fazer alguma coisa com os amigos, é algo libertador e gratificante”, admite.

A jovem crismanda sente que a horta solidária vai ser uma “marca para ficar” e recordar como “algo bom” na caminhada de preparação para o crisma.

“Faz-nos crescer e evoluir enquanto pessoa e saber que vai ajudar outros faz-me sentir bem e torna-se uma marca para ficar neste caminho até ao crisma; agora temos de cuidar entre todos e até confesso que passo por lá todos os dias para espreitar como estão as coisas a crescer”, conta.

O pároco, padre Mário Ferreira, considerado pelos jovens o “grande motor da iniciativa”, referiu que o “primeiro lugar tem de ser dado aos leigos” e, como sacerdote, dá todo o incentivo aos jovens e gosta de “apoiar e estar disponível para as iniciativas que vão surgindo”.

SN